Zero

quarta-feira, novembro 23, 2016

Eu adoro escrever. [por isso não se preocupem. isto não é definitivo]. É apenas uma pausa. [as pausas, ao contrário do que possam parecer, são mais necessárias, (e mais saudáveis), do que aquilo que se julga]. Quando nos acontecem muitas coisas ao mesmo tempo... o melhor é parar. Respirar fundo. E recomeçar quando entendermos que estamos prontos para o fazer (outra vez). Ao longo dos últimos meses, senti que tinha a pequena obrigação de partilhar convosco a amalgama de sentimentos que me invadia o peito... mas, agora, apetece-me viver livre de obrigações. Pelo menos daquelas das que (ainda) posso fugir.

Foram meses muito duros, em que fizeram com o meu corpo o que quiseram e bem entenderam sem que eu pudesse dizer "não". Estou cansada. [como é natural]. Continuo com os tratamentos de manutenção. Não tem sido difícil. [não me estou a queixar]. Mas também não tem sido fácil. Há dias em que tomo 13 comprimidos por dia. Há dias em que levo 3 injecções diferentes. E há dias em que não consigo levantar-me da cama por causa dos efeitos secundários. Portanto, não posso fugir disto, por mais que quisesse. Mas posso fugir de outras coisas. É por isso que vou reservar-me uns dias de rebeldia. [espero que os compreendam, de coração]. Não me apetece escrever sobre cancro, mas também não sei sobre o que é que me apetece escrever. A escrita, como sempre vos disse é um prolongamento meu e, agora, neste exacto momento, se calhar não sei muito bem quem sou. Vou pensar nisso. E depois conto-vos, é claro.

Pela primeira vez, em muito tempo, quero escrever só para mim. Quero também libertar-me de muitos sentimentos que me agoniam... e a verdade é que a escrita não estava lá a ajudar muito.  Estava a sentir-me presa... e convenhamos, sentir-se preso não é fixe. Tenho a sensação de que estou muito cheia. Que não há espaço suficiente em mim para mim... Mas não sei explicar-vos bem porquê. Acho que nesta fase não posso, nem devo, exigir-me demasiado. [manias. antigas. que nem a porra de um cancro leva pr'a longe da porta]. E uma vez que guardei muitas coisas que não deveria ter guardado, espero que os próximos dias sejam bons dias para deitar fora o que não consigo carregar (mais) em cima dos ombros. Tenho muita fome e muita sede de sentir. Coisas novas. Coisas boas. Coisas que não sejam aquilo que já conheço. Estou confiante neste "desligar" temporário. Os lutos são necessários e mesmo que doam, temos que os fazer para seguir em frente. Como eu não posso, [ou não consigo], fazer um grande funeral ao meu cancro, vou pelo menos matá-lo aqui no blogue... com choques eléctricos [para ele ver o que é bom para a tosse!].

E quando regressar, que seja para contar estórias bonitas. [que é isso que eu sempre quis fazer]. Não se preocupem que eu não estou deitada de cama, a lamentar-me da vida que tenho. [só faço isso nos dias em que a ressaca é maior]. Considerem esta pausa como uma longa paragem diante do espelho. Vem aí muita coisa nova e muita coisa boa... Mas antes disso, é tempo de arrumar a casa. Até já.

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