#a vida aos 30

Rir é o melhor remédio

sexta-feira, dezembro 30, 2016


Vou falar-vos de uma dor que conheço bem. [ninguém gosta de sentir dores, mas esta, em particular, dá bastante sentido a outras coisas, em especial à vida]. É uma dor que faz o corpo todo tremer. Incontroladamente. Sem darmos conta dela, ela toma conta dele. E de nós. [e aviso-vos já: é uma perda de tempo tentar abafá-la]. Ela é mais forte. Mais estridente. E (das) mais sentida(s).

É uma dor que vos desmascara. [de imediato]. Tem a capacidade de revelar as partes mais genuínas de que somos feitos. É uma dor ritmada, semelhante às contracções de Hicks [e olhem que eu nunca tive filhos!]. É uma dor bastante sonora. Ecoa. Quando vem das entranhas. Faz-se ouvir. Sem hora marcada. Não costuma avisar quando chega... nem quando vai, mas quando chega, quem está por perto sabe que chegou. 

É uma dor que já senti, várias vezes, ao longo da vida. E é uma dor da qual também já me esqueci, várias vezes, ao longo da vida. Sortudos, aqueles que já a sentiram. Sortudos aqueles que nunca a esqueceram. De todas as dores que já tive, diria que é a melhor delas todas. [e olhem que, modéstia à parte, já senti algumas]. Costuma-me doer especialmente na barriga. Mas não é segredo nenhum. Sempre sofri muito com dores de barriga. 

É uma dor que pode até caracterizar uma pessoa. [como é que é possível que uma dor seja o traço de alguém?]. Tem picos como todas as dores têm. Variações de intensidade. Quando ela nos apanha, os músculos contraem-se todos. Não raras vezes costumo levar a mão ao peito. Para a encurtar. Ou suavizar. A dor não fica bem a ninguém... Mas esta de que vos falo, mesmo que não fique bem, é uma dor que todos têm direito a ter. [e não, não vos estou a desejar nada de mal, antes pelo contrário].

Esta dor é uma dor física, mais ou menos aguda, dolorosa, intermitente. Não é dor de corno. Não é dor de burro. Muito menos dor de cotovelo. É uma dor teimosa, indecente... inoportuna. Aparece nos momentos mais inusitados. E mesmo que a queiramos disfarçar, ela acaba sempre por se tornar evidente... e por nos levar a melhor. É uma dor denunciadora. [de outras dores também]. Mas é sobretudo, uma dor boa. Daquelas que quanto mais doem, mais aliviam. [não sei se a sentem assim]. Senti-la, assaltar-nos, sem pré-aviso, é experimentar o melhor que este mundo tem. É por isso, que essa dor, é tudo o que vos desejo. Hoje. [porque uma dor assim não se pode desperdiçar]. E daqui em diante.

Não me ocorre melhor dor que a dor que o riso provoca. 
Boas gargalhadas. [muitas].

#vamos matar o bicho

Consoada

terça-feira, dezembro 27, 2016


Natal. Consoada. Mesa. Conversas provocatórias. [e eu que me pelo por uma boa provocação]. Quando ela é bem intencionada, claro. Desnecessárias, há muito tempo que são, as conversas-tipo. Quando é que tens filhos. Quando é que te casas. Voltas para Lisboa. Ficas cá. Quando é que regressas ao trabalho. O que me diz respeito a mim, diz-me respeito a mim... Mas há por aí, umas (santas) almas no mundo, que não tendo vocação para mais nada, têm-na para orientar a comunidade. Chamam-se pastores. [pastores é o nome que se dá às pessoas que gostam de pastorar a(s) vida(s) alheia(s)].

Silêncio. Pouca ou nenhuma vontade pr'a falar. Pouco ou nenhum interesse neste Natal fabricado. [já vos expliquei inúmeras vezes porquê]. Começou o sermão, bem antes da Missa do Galo. [homens sem jeito para falar com mulheres, achando que sabem falar com mulheres, fazem figuras muito tristes]. "Podes falar. Isso não te mudou. És a mesma." Obrigada. Obrigada, caríssimo (des)conhecido por saber mais do que eu sobre mim própria. Bela introdução. [sou capaz de me mudar para esta freguesia].  

No dia eu calei-me. [sempre me ensinaram que fica (muito) mal ser inconveniente com convidados, especialmente quando se está à mesa]. No entanto, os convidados não deixam de ser inconvenientes com os anfitriões. [precisamos rever as regras de protocolo com urgência]. De qualquer modo, o direito de resposta não se nega a ninguém. Vamos lá ser honestos, está bem? "Isso" que o senhor não conseguiu pronunciar chama-se cancro. E fui eu que o tive. Tenho. Se me mudou ou não, eu (ainda) não sei [muito provavelmente sim]. Se sou a mesma, duvido muito. [mas isso não é necessariamente mau]. Se podia falar... podia. Mas consigo não. [muito menos a partir de agora, que sabe tanto sobre mim, (sem saber)]. 

Quando eu fiquei doente, conheci muita gente doente. [infelizmente, e por força maior, continuo a conhecer]. Também conheci muita gente saudável. Uns mais que outros. [os que não são emocionalmente saudáveis são de longe os que me assustam mais]. E também conheci muita gente boa. De boa qualidade mesmo. 100% genuine leather. [o que é raro hoje em dia]. Independentemente daquilo que as pessoas sejam, ou estejam a passar, não me cabe a mim julgar a vida delas. As palavras. Ou os silêncios. Eu não sei quanto é que pesa o fardo que elas carregam. Por isso respeito. Mas... a maioria do mundo tem muita dificuldade em respeitar os sentimentos dos outros. Os seus estados de espírito. As suas pausas. E os seus ritmos.

Se não fala, é porque não está boa (da cabeça). Muita gente pensa assim. Pois eu sinto-me muito bem. [e tenho um psiquiatra e um psicólogo para me tratarem, (da cabeça), quando for preciso]. O que eu não tenho mais é tempo para conversas da treta. Para fretes. Para protocolos. Para gente que não acrescenta nada. Zero. Ide, senhor(es) pastor(es), ide pregar p'ra outra freguesia...

#a vida aos 30

Estranha forma de vida

sexta-feira, dezembro 23, 2016

Escrevi este texto quando trabalhava na loja. Nunca me esqueci dele. Nem da cliente. Senti-me impotente. Por vários dias. Ainda hoje me sinto, quando o leio. Recuperei-o porque foi um ano de perdas. De silêncios. De palavras. Umas mais felizes que outras. Nunca mais soube nada sobre esta mulher, mas espero que tenha conseguido regressar. E é isso que vos desejo neste Natal, bons regressos. Aonde quer que seja que vocês queiram (e precisem) voltar. E se não precisarem de voltar, que tenham a coragem suficiente para seguir viagem.

«Quem trabalha com público sabe muito bem em que estado as pessoas nos chegam às mãos. Somos muitas vezes mais do que meros anfitriões. Somos psicólogos, médicos, professores, enfermeiros e em última instância, testemunhas das maiores (in)confidências. A minha paixão pelas pessoas é muito grande, embora goste muito de estar sozinha. Mas aquilo que me move (e que sempre me moveu, principalmente, a nível profissional) são as escassas oportunidades que nós temos de dar e receber, numa simples troca de palavras. O problema é quando elas nos faltam. 

Ficar sem palavras não é uma coisa típica em mim. Sempre trabalhei com elas e sempre lhes consegui dar a volta, com criatividade, e muitas vezes com recursos estilísticos que só eu sei como foram construídos. Mas hoje... hoje fiquei sem palavras... Achei que qualquer uma delas seria desadequada ou insuficiente para reconfortar a pessoa que me falava. Percebi que tinha de escutar, porque o que a pessoa precisava era de desabafar e de se ouvir a si mesma, em silêncio.

Sempre achei que o silêncio poderia ser um dos nossos melhores aliados. É responsável por nos devolver a lucidez que no meio da multidão não conseguimos alcançar... Reconcilia-nos connosco mesmos e com a paz interior, aquela de que tanto precisamos em dias de tempestade. A senhora contou-me que não saía muito de casa, que não conseguia, que não o fazia desde que o filho tinha morrido. Que ainda não acreditava, que ainda não aceitava, que se recusava a deixar que o tempo atenuasse a dor.

As lágrimas caíam-lhe pelo rosto abaixo, e o meu coração apertou-se de uma tal forma que tive de me conter, não para não chorar porque isso não me importa nada, mas para lhe servir de amparo sem desmoronar em frente a ela. Disse-lhe o que a mim me confortou quando perdi alguém que era muito importante para mim: "pense que ele está sempre consigo e que nunca a abandonou". É aquilo em que eu acredito. Que as pessoas que nós amamos muito, e que também nos amaram muito, estão para sempre ligadas a nós.

E com a voz trémula, a senhora continuou: "eu também morri... a partir desse dia morri e sei que a minha outra filha sente muita falta de mim, da mãe de antigamente, da mãe que ela gostava que voltasse, mas não me parece que essa mãe volte". Angústia, mágoa, dor, num coração despedaçado, a lutar por sobreviver dentro de um cenário hostil para qualquer ser humano. Aquilo que nos magoa, faz-nos muitas vezes evadir-nos do mundo, mesmo que tenhamos vontade de voltar. Parece que nos perdemos e que deixamos de ser quem éramos.

"Faça um esforço, disse eu. Não se pode entregar". Mas mesmo assim, senti que as minhas palavras eram muito pequenas perante tamanho sofrimento. Deixei-a falar. Deixei-a chorar. Deixei-a dizer o que queria dizer.  E deixa-a calar-se quando assim o entendeu. Queria ter-lhe dito coisas que a ajudassem, mas se a dor dela é como eu penso que é, nenhum delas teria efeito. A dor de cada um de nós, é só nossa, e merece que os outros a respeitem tal como ela é. Custou-me muito ficar calada. Custou-me muito ficar sem palavras. Custou-me muito, o silêncio, vazio.

Não quero imaginar o que essa dor é, nem quero imaginar ao que a recuperação se assemelha... um caminho sem fim, íngreme nas subidas e veloz nas descidas. Só posso desejar o que desejei, "força", porque quando não temos mais nada que nos faça viver, só precisamos é de continuar bem agarrados ao fio que nos mantém vivos e aguardar que as águas acalmem. Desejo, mas mesmo muito, que esta mãe volte, porque há ainda uma filha que precisa dela, e espero que os anjos de guarda (os meus e os dela), a guiem nesse regresso tão esperado.»

#vamos matar o bicho

Isenção de dívida

quinta-feira, dezembro 22, 2016


Li, algures na blogosfera, que 2016 não foi um ano necessariamente bonito para a humanidade. [espanta-me que (ainda) haja por aí alguém que não (se) tenha dado conta]. Mas, pior que isso. Espanta-me, [e muito], que (ainda) haja alguém que tenha de ler isso, escarrapachado, num sítio qualquer, para processar que, de facto, 2016 não foi lá grande coisa. [e no meio do não-foi-lá-grande-coisa foi muita coisa. tanta coisa. milhões de coisas]. Contra (os) factos não há (de todo) argumentos. Irrita-me muito, [agora mais do que nunca], a insinceridade, (obrigada MEC por esta palavra tão boa), com que o mundo avança. Se é que avança. Da mesma forma como me irritam os mea culpa, pouco verdadeiros, que fazem pendant com o Natal.

Esta ideia que o catolicismo de prateleira vende de que o Natal é tempo de perdão sempre me cheirou a publicidade enganosa. [tenho pensado muito nisto. mais do que aquilo que me apetecia]. Eu acredito n'Ele. [à minha maneira]. E acredito em milagres. Mas não acredito que as pessoas mudem. De um dia para o outro. Especialmente entre 1 e 31 de Dezembro. [soa contraditório, não é? logo eu que tenho tanto para agradecer]. Não me interpretem mal, mas a religião é uma empresa em falência. Daquelas muito antigas que apostam no mesmo produto em todas as épocas. Perdoar é a palavra de ordem. O slogan obsoleto. O hastag omnipresente. Da quaresma ao advento. [que raio de religião é esta que nos faz sentir mal pelas coisas que nós, (que a praticamos), não conseguimos fazer?]. Na minha cabeça não faz lá muito sentido... Não devia ser assim, pois não? Não devíamos viver com a sensação da auto-punição sob as nossas cabeças só porque não seguimos a receita by the book.

Quando eu fiquei doente, uma das minhas grandes preocupações era "perdoar" toda a gente. Não sei porquê. Não sei porque é que me impingi tamanha responsabilidade. [não posso ser boa da cabeça]. Tenho a certeza de que não sou. Se calhar porque sempre me disseram que as melhores pessoas, (e as mais felizes), eram efectivamente aquelas que conseguiam perdoar. Not me. [acho que me preocupei, (demasiado), em querer deixar tudo, aparentemente bonitinho, caso ganhasse o bilhete dourado]. Sabem que mais? Quem é humano tem uma dificuldade terrível em perdoar. Venham os Natais que vierem. E o resto do calendário por arrastão. Mas fico muito feliz só de suspeitar que existem, seres incríveis, cheios de amor para dar... Que, quando tratados como sacos de pancada, ainda conseguem perdoar. Infelizmente, that's not my team. [devo ser uma católica de categoria reles, está visto].

Perdoar, no dicionário, assume várias interpretações. Absolver de pena. Isentar de dívida. Aceitar, suportar, tolerar. Poupar. Nenhuma delas se refere ao acto de perdoar como um plus humano. Para mim, perdoar implica muita flexibilidade... e flexibilidade é tudo o que eu não tenho neste momento. Passei muito tempo na posição da espargata. Não estica mais. Lamento. Acabaram-se as extensões. Dolorosas. E as posições desconfortáveis. Ainda assim, e apesar de todos os inconvenientes de quem passou boa parte do tempo [deste ano] a fazer a espargata, (ainda) sou capaz de isentar de dívida, de absolver de pena, de aceitar e de poupar determinadas coisas e determinadas pessoas. Mas há outras... há outras que não consigo, de todo, suportar. 

A incapacidade de perdoar pode ser um defeito de fabrico. [acredito mais nisso do que nas pessoas que me dizem que é um efeito colateral do cancro]. E não me sinto menos amiga d'Ele só por isso. Nem menos crente. Nem menos católica. A nossa capacidade de perdoar, se calhar, assim em termos gerais, [pr'a gente não complicar mais a coisa], é proporcional à nossa capacidade de suportar. Parece-me mais humana esta ideia de equilíbrio... afinal de contas, Deus há só um, por alguma razão é, certo? Ele deu a outra face [o que revela uma grande capacidade para suportar, obviamente]. Mas... ninguém sabe se ele estava à espera da "chapada" que lhe deram. É que isto de contar estórias e fazer das personagens heróis tem muito que se lhe diga. Muito mesmo.

Acho que não era preciso ninguém ler, em lado nenhum, que 2016 não foi um ano bonito para a humanidade. Bastava olhar para o lado. [basta olhar para o lado]. E teríamos a inevitável súmula diante dos olhos. E contra isso nada podem os meus textos. As minhas palavras. A minha impotência. O meu coração. Às vezes sinto-me atropelada pelas notícias do mundo. Pela nossa incapacidade de sermos melhores. Pela insinceridade com que tratamos os nossos sentimentos. Desculpe lá, óh senhor aí de cima, pelo testamento de hoje e por todas as dúvidas que pairam sob a minha cabeça. És uma estória bem conseguida, apesar da empresa estar na falência [como é que é possível?!]. E até deves curtir o pessoal andar aqui em baixo, a chocar uns com os outros. Vê se te empolgas menos da próxima vez que fores aos matraquilhos. Combinado?

#uma açoriana em lisboa

XI

terça-feira, dezembro 20, 2016

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#vamos matar o bicho

Círculo

domingo, dezembro 18, 2016


Escrevi este texto, em jeito de recado urgente, há dois anos. Não costumo, por norma, requentar o que deito cá pr'a fora, mas, passados tantos dias depois de o ter feito, dei-me conta de que as mesmas palavras continuam a fazer sentido. À(s) M(s). E a todos nós... que vamos sobrevivendo conforme podemos, conforme sabemos.

«A M. contou-me, em modo sincero, o quão exacerbada se sentia naquele preciso momento e a forma como esse sentimento se tinha repetido nos últimos meses da sua vida. Sentia-se cansada, a viver dentro de um mundo que não era aquele que tinha planeado, sufocada por contas que não paravam de chegar, e angustiada pelas horas que corriam e que lhe sugavam o tempo que lhe restava para brincar com a filha. Em jeito de desabafo, concluiu o "bota-fora" com a palavra "sobrevivência" dizendo que era esse o nome próprio que definia o seu ano e aquilo que ela tinha conseguido fazer: sobreviver, a [duras] penas.

Fiquei a pensar nisso que ela me tinha contado, e ao fim de alguns dias, apropriei-me da palavra dela [aliás, percebi que a palavra dela era uma óptima palavra para definir o ano de todos aqueles que me rodeavam e que me eram mais próximos (incluindo o meu)... sobrevivência soava-me perfeito]. Na altura em que a M. me levou a reflectir sobre isto, eu ainda não tinha coisas suficientes para lhe dizer, mas hoje, acho que já lhe posso dizer umas duas ou três, e a primeira delas é muito simples: sobreviver, ou "manter a cabeça à tona da água", não é uma coisa necessariamente má, antes pelo contrário, é uma virtude humana, comum a centenas de mortais, que faz de nós gente [mais] forte. 

Podem existir palavras mais vitoriosas, mas "sobrevivência" não faz a estória de ninguém menos heróica. Viver é isso mesmo, um esforço constante, e ainda bem, minha cara M. que isso ainda nos é permitido. Sobreviver pode parecer que dá cabo de nós, mas um dia irás perceber que esses anos de sobrevivência só te fizeram melhor... Na realidade, quem não vive, não sobrevive e é isso que eu queria que tu soubesses. Estás no bom caminho. No caminho onde todos nós estamos. E donde todos nós esperamos sair, mas aonde todos nós voltamos. Enquanto sobreviveres tens a oportunidade, todos os dias, de conseguires coisas que talvez nem desejasses se apenas te limitasses a viver. "Sobrevivência" é a melhor das palavras que tu podias ter escolhido. Orgulha-te. Porque tu, e todos nós, [pelo menos aqueles que eu conheço] o merecemos.»

#vamos matar o bicho

Sinal Vermelho

sábado, dezembro 17, 2016


Conhecemo-nos através dos vários, e estranhos fios, que ligam as pessoas neste mundo. [mas eu gosto de pensar que chegaste até mim através de mim... ou de uma parte que me é muito minha (e em última instância, muito nossa)]. Tentaste, como tantos outros, convidar-me para sair, e eu disse, como a tantos outros, que não. Não me parecia o momento ideal. Nem me apetecia, na verdade. Não me apetecia começar coisas sem saber se as podia acabar. [mania esta da disciplina, hein?!]. Podia, efectivamente, ter-me calhado outros desígnios em sorte, mas foi este, o dos fins, com o qual me tenho debatido mais (independentemente de tudo o que me aconteceu recentemente).

Um dia, dei-me conta de que a espera era ridícula. [as oportunidades não são perenes]. A vontade de te ver e de ter conhecer, no meio de um presente incerto, superava a indefinição do futuro. Pobres de nós que vivemos enganados, à espera dos momentos ideais... Marcámos encontro, por minha iniciativa, depois de uma série de considerações absurdas. "Olha que posso vomitar." "Olha que posso desmaiar." "Este é o contacto da minha mãe". "Esta é a morada do meu apartamento". "Este é o nome da minha médica". "É para aqui que tens de me levar se eu passar mal". "Olha que eu posso, de repente, chorar". 

Não foi fácil. Foste, o primeiro homem, em muito tempo, com quem voltei a sair. E se estas coisas já não são lá muito "práticas" para uma mulher, no seu dito estado normal, imagina para mim, que vivia constantemente numa montanha russa [de emoções]. E se não sabes, ficas a saber: um comprimidinho debaixo da língua, ajudou imenso. [espero não me ter babado demasiado para cima da toalha do almoço]. Guardo imensas coisas desse dia, sobretudo o que senti. Como me fizeste sentir. Como me permiti sentir. [ao fim de tanto tempo].

Recordo-me de termos saído da minha casa, de te teres enganado na faixa de rodagem, e de termos ficado, parados, no sítio errado, enquanto o carro de trás não parava de buzinar. Com a calma que acho que te é característica, levaste a mão diante do espelho retrovisor e impuseste a ordem natural das coisas: aguenta aí. [os outros. eu não]. E continuaste, calado, à espera de me ouvir. E no meio de uma Lisboa tão veloz em sofrimento, eu encontrei, num erro, ao acaso, espaço. De repente tudo parou. O trânsito. O ruído. Os hipotéticos momentos ideais. Os fins. As considerações. O cancro. [o meu]. Senti-me, alguém que não eu, continuando a ser eu. E isso foi o melhor que deixei que me tivesses dado [e pelo qual te vou estar sempre agradecida]. Há imenso tempo que ninguém me ouvia.

Continuas a acreditar, mais do que eu, nas continuações. E foi justamente por causa delas que não me quis despedir de ti quando regressei aos Açores... Prefiro pensar que teremos sempre faixas de rodagem erradas aonde nos encontrar. [e porque me faltou coragem para impor-me uma dor (des)necessária]. Nesse dia, quando regressei a casa, à temporária, caíram-me umas lágrimas por olhos abaixo. Estava, infinitamente feliz. E de coração cheio. [de orgulho]. Meu e teu. Tenho aprendido muito contigo... nomeadamente, que os sinais vermelhos, [que aparecem nas nossas vidas], podem nem sempre se tratar de paragens definitivas, mas se o forem... que sejam sempre como os nossos. 

Enquanto os nossos caminhos não se voltarem a cruzar, [mesmo já estando mais do que entrelaçados], eu prometo continuar a andar, ora acima, ora abaixo... Descalça, quando estiver cansada, ou, destemida, nos meus sapatos de rubi. Afinal de contas para um feiticeiro como tu, basta estalar os calcanhares 3 vezes, não é verdade? Até amanhã.

Foto: ©Ricardo Caetano 

#vamos matar o bicho

Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam*

sexta-feira, dezembro 16, 2016


Eu, que sempre fugi, a sete pés, das místicas aleatórias da vida, acredito que cada um de nós carrega uma luz própria. [exceptuando alguns seres translúcidos que andam por aí com a lâmpada fu(n)dida]. A luz, como todos vocês sabem, não brilha sempre com a mesma intensidade [a não ser que tenham uma excelente bateria sobressalente pronta a utilizar nos momentos de fraca iridescência eléctrica]. Estamos tão poucos habituados a falar das nossas fases menos boas... Não entendo porquê. Se não somos feitos de ferro, porque é que temos de nos comportar como se fôssemos? Porque é que temos de disfarçar que a tomada, ligada à corrente, já não é por si só suficiente? 

Quando se trabalha nas áreas em que eu trabalho, captam-se essas energias com [relativa] facilidade. Enquanto consultora de lingerie, aprendi uma coisa fundamental: as clientes infelizes são as piores clientes. Um perigo para a saúde pública. Uma espécie de carrinho de rolamentos, desgovernado, ladeira abaixo... cujo travão só é accionado através de um terrível embate. [com a realidade]. 

Eu descobri que tinha leucemia na recta final de uma depressão. [a segunda da minha vida]. Fui dando por mim, de dia para a dia, a ficar mais fosca. Muito fosca. E a perder a capacidade de me agarrar aos luscos-fuscos diários que nos mantêm à tona. [a partir do momento em que nos deixamos de (re)conhecer, estamos feitos ao bife]. E, aguentar, sem pedir ajuda, deixem-me que vos diga: não é a saída mais inteligente. É óbvio, que é a mais dourada, dentro da sociedade em que vivemos, mas não é aquela que vos levará de regresso a casa. [se é que me entendem]. Uma depressão não é um bicho papão. É apenas, um sinal, evidente, de que o vosso fio condutor... pode estar por um fio. Quando ficamos tristes, o nosso corpo adoece. Sucumbe. [à falta de luz com a qual habitualmente o costumamos irrigar]. 

Ainda se fala de cancro, de uma forma (muito) pouco humanizada, na minha opinião. Humanismo este que falha, novamente, quando o tema é a saúde mental... e as dores da alma. [legítimas como todas as outras]. Posso garantir-vos que o meu cancro ajudou-me a recuperar da minha depressão, mas não estou segura que a minha depressão não tenha contribuído para o meu cancro. É por isso que falo sobre o que (vos) falo hoje. E porque apesar de todos os clichés, batidos, um corpo são não se consegue, nem sem atinge, sem uma mente sã. E uma mente sã, nos dias de hoje, requer um enorme equilíbrio de sensatez. [um exercício pouco praticado, por nós, pessoas, que não temos tempo de olhar para dentro, e de dentro pr'a fora... quando nos é exigido].

Estamos tão poucos habituados a falar das nossas fases menos boas, da mesma forma como estamos poucos habituados a falar bem dos outros. Da mesma forma como os outros estão mal habituados a que falemos bem deles. Que coisa mais bonita se pode dizer de uma pessoa, senão que tudo que aquilo que ela faz, faz com amor? Não encontro melhor finalidade para esta vida. A sério que não. Talvez se soubéssemos partilhar mais verdades, saberíamos dividir mais vitórias... mas isto é apenas uma forma, (in)equívoca de pensar. Muita minha. Muita recente. Muito descabida. [em última análise].

Sabem a quantos Natais eu tive direito este ano? Muitos. [o do próximo dia 25, se lá chegar, é só mais um]. Lucky me! E se este ano há coisa que o Natal me ensinou, essa coisa foi sem dúvida a dar graças. [as mesmas que nos esquecemos de dar todos os dias em que acordamos... até mesmo naqueles em que (nos) despertamos apenas a meia-luz]. Que não queiramos ser melhor do que outros... mas, definitivamente, melhores. Pessoas. [é isso que eu acho que conta no fim]. Que nos orgulhemos tanto de sorrir como de chorar. Que saibamos dar a mão e não as caras [a não ser quando elas sejam necessárias]. E que tenhamos a força suficiente para trocar lâmpadas e caixilhos, as vezes que forem preciso. Sempre que forem preciso. E possível. [sem que as sombras, desenhadas nas paredes frias dos nossos mundos, nos intimidem, dolorosamente]. E que a luz deste Natal, [o que vive em vós e que é (puro) sentimento], vos guie, de novo, até casa.

*José Saramago, A Viagem do Elefante

#vamos matar o bicho

Porquê eu?

quarta-feira, dezembro 14, 2016


A vida é feita de encontros e desencontros... e de estranhas coincidências. [este há muito que era esperado]. Desde que descobri que estava doente procurei ler e acompanhar a(s) estória(s) de pessoas na mesma situação, da mesma forma, que pessoas na mesma situação, [e não só], começaram a acompanhar a minha. Eu (já) suspeitava que o encontro com a Joana fosse especial. E não me enganei. Aconteceu no meio da rua, debaixo do orvalho típico dos Açores. Duas cabeças rapadas. Quatro olhos (demasiado brilhantes). Muitas veias estragadas. E dois corações, aptos a bater. Miúda, não imaginas como foi bom poder abraçar-te!

Falámos de tudo um pouco, aleatoriamente, sem ordem especifica. Falámos sobretudo do que nos vinha ao coração e não à cabeça. [conversas que seguem estas regras são sempre boas]. Apesar dos seus (tão) frescos 18 anos, a Joana conseguiu escolher, meticulosamente, as palavras certas para descrever muito daquilo que me passou, e ainda me passa, pela alma. Sem esforço. Sem malabarismos. Sem segundas intenções. Temos os mesmos pontos de vista sobre muita coisa. E ela está bem de contas.  Tal como eu estou. Nada a acertar. 

Da conversa, rápida, e atrapalhada, no meio do desfile de Natal da cidade, ficou-me isto, entre tantas outras palavras: "sabes, cheguei a perguntar-me se eu tinha sobrevivido só para ver os outros morrer". Respondi-lhe categoricamente que não. E sei que ela também sabe que essa possibilidade é uma possibilidade muito fraca para tudo aquilo que ela é. Perante tudo aquilo que ela é. Mas não deixa de ser curiosa a dúvida, que a dada altura, [destes processos indefinidos e indeterminados], a Joana se colocou a si própria.

Desde o inicio, em que isto tudo começou, sempre vos escrevi que nunca me tinha perguntado porquê. Porquê eu? Mas percebo perfeitamente, que a inocência, a compaixão, e o amor pela vida que a Joana tem, a tenham levado a questionar a sua existência. Também o fiz. Também o faço. [aliás, não há dia em que não o faça]. Sabem quando é que eu mais me perguntava porquê eu? Quando acordava, de manhã, no quarto do hospital, e via a cama do lado vazia. Cama esta que no dia anterior estava ocupada. Algumas vezes por pessoas de quem eu gostava muito. [ainda gosto]. Esses são os verdadeiros momentos em que nos perguntamos porquê eu. Essas são as verdadeiras dúvidas que nos atropelam a galope. Apesar da dureza da interrogação, nenhum de nós devia deixar de se perguntar porquê, no sentido em que acredito que as respostas nos darão sempre inúmeras razões para gostarmos de continuar a estar vivos [a "idade dos porquês" nunca acaba, só se complica].

Não acredito que estejas cá só para isso Joana. Nem eu. Nem muitas das pessoas que estão no mesmo campo de batalha. Não acredito que estejamos cá só para isso. No teu caso, tenho quase a certeza que sim. E... depois de tantas perguntas, não me perguntes porquê. Estamos cá porque ainda estamos. Porque alguém o quis. Porque também o quisemos... e queremos. Muito. E se tivermos sorte... ainda havemos de assistir ao nascimento de muitas coisas, nem que seja ao nosso. Outra vez. Apesar de (já) me pareceres um doce de menina, acho que a vida ainda têm, reservadas, mais umas colheres de açúcar para ti... mas vê lá, cuidado com a diabetes.

#uma açoriana em lisboa

X

terça-feira, dezembro 13, 2016

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#a vida aos 30

2006 vs 2016

segunda-feira, dezembro 12, 2016


2006. Ano em que o ego(centrismo) ditava a moda da foto, estilo pornstar, em frente ao guarda-fatos. Ano este, em que para se tirar selfies, encaravam-se as máquinas fotográficas de frente e se sorria para elas como se estivéssemos a bisbilhotar pr'a dentro de um carrinho de bebé. [cutxi-cutxi]. Em 2006, não haviam duck face(s), mas se houvessem, seriam overrated. Um polegar no canto dos lábios era o hit, (estratégico), das coca-colas. Para eternizar momentos em debandada, escolhia-se sempre o amigo com o braço maior. [ou então, o que não sofresse de Parkinson precoce]. Em 2006, as festas de aniversário (ainda) se celebravam nas tascas da Rua das Pretas (em Lisboa). Em 2006 ainda se conversava à mesa. 

Em 2006 eu tinha exactamente 22 anos e tinha acabado a faculdade. Era a estagiária, assalariada e precária, do Rádio Clube Português. Já gostava de me maquilhar espampanantemente, e tinha cabelo. Muito. Sabia pouco da vida, (quase nada), mas como todo e bom adolescente em fim de carreira, achava... achava não. Tinha a certeza. A certeza que sabia o mínimo para chegar a um sítio bom. Em 2006 cruzei o atlântico pela 1ª vez e não foi para voltar a casa. Fui ao Brasil. E a experiência foi, como o Brasil é, maravilhosa. Em 2006 eu conseguia vestir a roupa da minha irmã [mas ela não era lá muito de (me) emprestar]. Em 2006 eu chorava nos corredores da rádio quando ouvia a minha voz passar. Quando sentia que o dever estava cumprido. Em 2006 entrei no escritório do director da estação e mandei-o à merda. [e nunca me arrependi disso]. 

Nos entretantos, [uns longos entre tantos], deixei o país. Entre ser hospedeira da TAP e continuar a trabalhar em jornalismo, a segunda hipótese ganhou à primeira. E ainda bem. (como é que uma pessoa pode ser hospedeira da TAP e ter medo de andar de avião?!). Benditos 20s que nos fazem ter coragem, (ou falta de juízo) para quase tudo. Perdi a minha avó materna. A pessoa que mais amei na vida. Vivi dois anos em Espanha. Conheci uma das grandes personagens da minha vida sentimental. Esta. Achava que íamos ficar juntos para o resto das nossas vidas. Mas o "viveram felizes para sempre" passou-me. Ao lado. Fui loura. Pela primeira vez na vida. [mas confesso que não desfrutei das benesses que dizem que as louras têm]. Comprei uma bicicleta. Atravessei a 25 de Abril numa 125 (mas não era azul). Voltei a casa. Voltei a Lisboa. Voltei a casa. Toca e foge.

Fui freelancer. Continuei assalariada. E precária. Virei as costas ao jornalismo. Vendi palmilhas [que eram compradas na China, mas pagavam-me, (e bem), para dizer que eram fabricadas em Espanha]. Senhor, até cuecas e soutiens eu vendi! Voltei a apaixonar-me. A sério... poucas vezes. Tenho pena que umas das pessoas por quem me apaixonei não se tenha apaixonado por mim. Gostava, sinceramente, que tivéssemos sido mais do que fomos. Soube-me a pouco. [ainda hoje me sabe a pouco]. Criei um blogue. [este espectáculo]. Dividi casa(s) com pessoas dos 4 cantos do mundo. Viajei. Fiz 30. E não gostei. Tive duas grandes depressões (uma delas muito parecida com o crash da bolsa de 1929). Mandei muita gente à merda. Na sua grande maioria, patrões [alguns, acho que não mandei as vezes suficientes que eles mereciam]. Tentei ter uma relação convencional e não fui feliz. Decidi viver sozinha. Me, myself and I. E foi assim que regressei aos Açores. Ao fim de 13 anos fora. Comprei um carro. E continuei a fazer, não aquilo que acho que faço melhor, mas aquilo que nunca deixei de gostar de fazer. 

Foram 10 anos. Que não cabem em tudo o que vos disse. Estamos em 2016. Tenho 32. A roupa da minha mãe serve-me [mas ela não é lá muito de (me) emprestar]. Não tive cabelo durante algum tempo. [ainda não tenho muito]. Não voltei a chorar nos corredores da rádio. Mas voltei a chorar em muitos lugares. No trabalho. Na rua. No eléctrico. No aeroporto. Nos aviões. Na minha casa onde vivi sozinha. Grande parte nos corredores dos hospitais. Tenho, tive, whatever, sei lá... um cancro [há coisas que ainda me são muito difíceis de definir]. Um cancro que validou muitas das coisas que aconteceram durante estes 10 anos, e que serviu também, para esfumar outras tantas. Continuo sem saber muito da vida. [quando a gente acha que sabe alguma coisa, ela põe-nos à prova de maneiras, fantasticamente, irónicas]. Não tenho a garra nem metade da guelra que tinha. Não tenho, de todo, o mesmo coração. Nem a capacidade para me emocionar com as coisas que me emocionavam dantes. Mas continuo a achar que sei o mínimo para chegar a um sítio bom.

#vamos matar o bicho

"Está pr'andar"

sexta-feira, dezembro 09, 2016


Entrar num "hospital de dia" impõe respeito. [é assim que se chamam as unidades onde as pessoas, como eu, fazem quimioterapia]. É algo que eu aconselharia, a experimentarem, uma vez na vida. Não me refiro à quimioterapia, é óbvio, mas a uma visita. Para quem se submete a este tipo de tratamentos, os cadeirões metem um bocadinho de medo. [o raio dos cadeirões]. Parecem, soberbamente, maiores que nós. Sentimo-nos engolidos por um tempo que não passa tão rápido quanto aquilo que desejaríamos. Mas não são só os cadeirões que têm a capacidade de ditar um dia bom ou um dia mau. As pessoas que lá estão, nesses hospitais de dia, desde os profissionais, aos doentes e acompanhantes, são quem fazem a casa. E tudo o que se quer numa casa é bom ambiente

Um destes dias, no hospital de dia, uma "tia" que estava ao meu lado, a acompanhar o marido, revelou-se inquieta. [note-se que a "tia" dos Açores não tem qualquer tipo de paralelismo com a "tia" de Lisboa e arredores]. Tentei, subtilmente, demonstrar-me indiferente à sua inquietude. Mas, notava-se-lhe uma certa urgência em deitá-lo cá p'ra fora. Meteu conversa. Duas três frases sem (grande) importância, até que deu um jeitinho com a cabeça, inclinando-a para o marido e disse-me: "está pr'andar". Os açorianos têm esta coisa engraçada, e simultaneamente medonha, com as expressões. Tornam-nas impróprias, usando-as indevidamente. Graças a Deus, que o marido dela, para além de todas as doenças que tem, já não ouve lá grande coisa...

O nosso, carinhoso, "está pr'andar" podia, muito bem, significar qualquer coisa como "está pr'às curvas". Andar supõe que ainda se tem caminho para caminhar. Infelizmente, em bom terceirense, quer dizer que (se) "está pr'a morrer". [outra expressão que os açorianos utilizam sem pensar no (mal) que dizem]. Era urgente para aquela mulher dividir comigo o peso do "está p'ra morrer" que carregava. [mais ela do que o marido]. Apeteceu-me perguntar-lhe: e não estamos todos? Mas não consegui. Não tive forças. Nem tino. Entre os afrontamentos complicados que a quimioterapia por si só já nos provoca, a confissão da "tia" despoletou em mim um súbito ataque de ansiedade. Quando a enfermeira me administrou a injecção de quimio, que habitualmente levo todas as semanas, comecei a despir-me e a abanar-me tal não era o calor que se me subiu por mim acima [nem o elenco completo do Magic Mike conseguiria tal proeza].

Quem está numa sala de quimioterapia, a fazer quimioterapia, não quer morrer. [bom, algumas pessoas preferirão essa opção aos tratamentos, mas, por enquanto, (ainda) não é o meu caso]. A lógica é simples. Quem esteve p'ra morrer, mais do que uma vez, foge da morte, o mais que puder. Mas com todos os sintomas que me atacaram, eu não consegui explicar isso à tia que estava ao meu lado. O marido, por sorte, era surdo. E eu fiz-me de muda. O fatalismo e o drama são-nos muito próprios. Próprios das pessoas das ilhas. Aliás, não preciso sair de casa para lidar com eles todos os dias. [a minha mãe é um obituário andante... e não o deixou de ser por causa da minha doença]. Não há pessoa que morra que ela não (me) anuncie.

Curiosamente, eu nunca senti esta aura negra de pessimismo [que existe nas ilhas], no hospital de dia onde fui tratada em Lisboa. E sim, nesse hospital de dia também se morria. Bastante. Quase todos os dias. A questão é que nunca vi nenhum profissional de saúde, nem nenhum acompanhante, sentenciar a(s) vida(s) que tinham nas mãos, nos braços ou nos colos. Mesmo que estivessem por um fio. [as sentenças não omitem verdades]. O cancro mata. Acho que estamos todos conscientes disso. Provavelmente mata mais do que outra doença qualquer. Mas também existem casos de sucesso. Não sei porquê, nem porque raio, fala-se muito pouco neles... Talvez porque o tabu que o cancro representa (ainda) seja maior do que o próprio cancro. E porque, nós, os das ilhas, ainda somos muito pequenos [na maioria das coisas importantes]. 

Está pr'a morrer. Lamento dizer-vos que é para o que estamos todos. 
A diferença é que uns vão antes dos outros.

#vamos matar o bicho

Bóia

quinta-feira, dezembro 08, 2016

Eu já vos falei do meu amigo Quim, (aqui), mas nunca com a devida atenção que ele merece. [pardonne-moi]. Fomo-nos conhecendo enquanto estivemos internados. [mais original não podia ter sido]. E, se não me falha a memória, ele foi das pessoas com quem partilhei mais dias de hospital. O Quim é especial para mim, porque mesmo que ele não o saiba, [ficará a saber hoje], ele foi uma das minhas "muletas". E ainda o é. Sempre que eu me sentia abandonar-me ao desespero, olhava para ele e recompunha-me. Sentia a obrigatoriedade de o fazer diante de uma pessoa que estava a passar pelo mesmo, pela segunda vez.

Fugimos algumas vezes um para o quarto do outro. [mesmo que os médicos e enfermeiros não gostassem muito]. E quando as plaquetas nos permitiam, fazíamos serão na sala de convívio para pôr as telenovelas em dia, acompanhados pelos nossos "bobis". [os "bobis" de que vos falo não são animais de estimação, não... são os suportes onde nos colocam tudo aquilo de que precisamos para ir abaixo e vir ao de cima]. Foram serões muito felizes, dentro das circunstâncias. Um dia fomos ao balneário juntos, tomar duche separados. [para que ninguém nos interprete mal]. Fartei-me de cantarolar para ele, mas nada de backing vocals do outro lado. O Quim usa um aparelho auditivo, mas eu não sabia que ele o tirava para tomar banho. Um dia, quando fugi para o quarto dele, apanhei-o de urinol na mão. Disse-me, "entra, entra", como quem convida alguém a ir tomar café lá a casa. "Volto mais tarde". E delicadamente fui-me embora. [pobres de nós, mulheres, que temos sempre de pôr os homens no seu devido lugar].

Despedir-me dele foi muito doloroso, mas tive a sorte de o ver forte, sereno, com um brilho (especial) nos olhos. Diria que estava, (e espero que esteja), de bem com a vida [é que se nos lembramos de discutir com ela, o fardo não se alivia]. Estamos ambos em manutenção. Ele à espera de uma "máquina" nova. Eu à espera que a minha continue a funcionar. Trocámos mensagens. Sobre o estado do mundo. [os nossos]. E das coisas. Falámos sobre uma viagem aos Açores. E de repente, perguntei-lhe "tu sabes nadar?". Não se preocupem, apesar do mau tempo que nos fustiga inúmeras vezes, os aviões, (por enquanto), ainda não aterram no mar, mas sei de uns sítios, paradisíacos, em que a água cura. [pelo menos a alma].

"Desenrasco-me", disse ele. "Mas não sei boiar". Eu, que acredito que "boiar" é uma habilidade básica de sobrevivência na natação, respondi-lhe, "toda a gente sabe boiar". Ele explicou-se. "Boiar eu até boio, mas se me agarram, eu vou ao fundo". É engraçado, não é? A forma como conversas triviais revelam verdades absolutas. Quando o peso dos outros se sobrepõem ao nosso, em vez de seguirmos boiando, vamos ao fundo. Tenho tanta sorte. Tanta. Por "entrevistar", (sem entrevistar), gente assim. Gente que me dá frases tão boas e estórias ainda melhores. Como diz uma amiga minha, colega de profissão, não são aqueles em quem depositamos grandes expectativas que nos dão o que esperamos. São os anónimos, que normalmente, o fazem.

Se calhar tu não sabes Quim, mas durante este tempo todo, tens conseguido boiar espectacularmente bem. 
Just keep swimming.

#a vida aos 30

2017

segunda-feira, dezembro 05, 2016

Menos umbigos, por favor. Menos gente a olhar para eles. Para os próprios. Mais medulas. O-pe-ra-ci-o-nais!!! E mais dadores, se possível. [quantidade nunca foi sinónimo de qualidade, mas neste caso, quantos mais, melhor]. Menos declarações de amor eterno fora de prazo no facebook. E se não for pedir o impossível, menos fotos (da(s) vida(s) que não têm). E já agora, só mais uma coisinha, little tiny one, menos frases [plagiadas] a sublinhar as vossas melhores poses. [o livro de estilo, que lêem neste preciso momento, considera "demodé" p'ra xuxu quem prevarica contra a moral e os bons costumes]. E já que falamos nisso, é imperativo, (não posso deixar passar), menos erros ortográficos nas ditas legendas. Copy paste. Easy, like sunday morning. Ah, e raios partam os "copia e cola isto no teu mural". E os desafios. [desafio-vos eu a serem mais do que são quando não estiverem por detrás de um ecrã de computador].  

Menos améns nas fotos trágicas que muita gente teima em partilhar. E menos gente a partilhá-las. Caso ainda não tenham percebido, o vosso "amén", na maioria dos casos, senão em todos, não resolve nada. E menos "emojis" (a.k.a bonecos irritantes que as pessoas utilizam quando não sabem o que dizer). Lamento desiludir-vos profundamente, mas esta que vos escreve sofre de ansiedade, profunda e acelerada, de cada vez que vê um boneco num comentário. E se tiverem mesmo que utilizar "emojis", nos casos em que uma pessoa doente partilha alguma coisa, evitem o da carinha a chorar. É uma dica. Menos drama(s). Desnecessário(s). E mais energia. Positiva, claro. E muitos, muitos banhos de sal para alinhar os chakras.

Menos partilhas de verdades tão evidentes como as da Lili Caneças (que me perdoem todos os fãs do Pedro Chagas Freitas e do Raúl Minh'Alma). Se quiserem, e se [por] cá estiverem, podem revoltar-se. Mais Gouchas. E menos Cristinas. E mais Marias Leais. Autêntico por autêntico, mais vale alguém que não tenha medo de o ser. E que se divirta enquanto o é. Menos máquinas da verdade. [que deprimentes que são os circos televisivos a que as pessoas se submetem]. Menos programas apresentados pela Teresa Guilherme. Se forem apresentados pela Teresa Guilherme mais vale não verem. [bom, se tiverem o Quintino Aires metido lá no meio, também não aconselho]. Menos lixo. Menos descasca humana. E menos "corta na casaca" como se diz aqui na terra.

Menos restaurantes e bares da moda. E sumos verdes. Horripilantes. E mania das corridas. De manhã. À noite. E até ao meio-dia. E baby bumps. Aos molhos. Fotografadas de todos os ângulos e vestidas com os tamanhos mais skinny da Zara. E maminhas de silicone, low-cost, depois dos baby bumps. [peço desculpa outra vez, se ofendi alguma alma perdida, mas acho que o meu público é feito de mulheres sem tempo para merdas, certo?]. Menos engates frouxos. Daqueles que nem sequer chegam a ganhar o título de engate. Menos gente com medo de ser quem é. Precisa-se. Com urgência. Menos chamadas de atenção. Menos gente carente de si mesma. Menos telenovelas que durem 2 anos. [já se viu que não resulta]. Menos Alexandra Lencastre. Really? Não há mais ninguém que a TVI possa utilizar? 

Menos convenções. Preconceitos. Estereótipos. Mais liberdade. Mais gente com coragem para dizer a(s) verdade(s). E mais coragem. Para todos. Para viverem da forma como querem e não da forma como vos fazem sentir que deve ser. Mais loucos. Mais loucos de amor. Mais loucos pela vida. Mais loucos e apaixonados. Mais desligados [dos mundos que não existem]. E mais agarrados. Ao que vos deixa e vos faz felizes. Apesar disto poder parecer um manifesto a favor do off-line, e contra o canal 4, (até porque eles podem lembrar-se de me contratar outra vez, sabe-se lá...), garanto-vos que não o é. É que agora deu-se-me umas epifanias lixadas, tipo as do Carlos do Carmo quando sobe aos palcos. Diz tudo o que lhe apetece. E até manda o pessoal parar de bater palmas. Enfim... apeteceu-me dizer-vos isto. Dizer-vos que o mais importante (na vida) é alimentarem a alma que carregam dentro de vocês. Escolham bem o que é que lhe dão de comer.