2006 vs 2016

segunda-feira, dezembro 12, 2016


2006. Ano em que o ego(centrismo) ditava a moda da foto, estilo pornstar, em frente ao guarda-fatos. Ano este, em que para se tirar selfies, encaravam-se as máquinas fotográficas de frente e se sorria para elas como se estivéssemos a bisbilhotar pr'a dentro de um carrinho de bebé. [cutxi-cutxi]. Em 2006, não haviam duck face(s), mas se houvessem, seriam overrated. Um polegar no canto dos lábios era o hit, (estratégico), das coca-colas. Para eternizar momentos em debandada, escolhia-se sempre o amigo com o braço maior. [ou então, o que não sofresse de Parkinson precoce]. Em 2006, as festas de aniversário (ainda) se celebravam nas tascas da Rua das Pretas (em Lisboa). Em 2006 ainda se conversava à mesa. 

Em 2006 eu tinha exactamente 22 anos e tinha acabado a faculdade. Era a estagiária, assalariada e precária, do Rádio Clube Português. Já gostava de me maquilhar espampanantemente, e tinha cabelo. Muito. Sabia pouco da vida, (quase nada), mas como todo e bom adolescente em fim de carreira, achava... achava não. Tinha a certeza. A certeza que sabia o mínimo para chegar a um sítio bom. Em 2006 cruzei o atlântico pela 1ª vez e não foi para voltar a casa. Fui ao Brasil. E a experiência foi, como o Brasil é, maravilhosa. Em 2006 eu conseguia vestir a roupa da minha irmã [mas ela não era lá muito de (me) emprestar]. Em 2006 eu chorava nos corredores da rádio quando ouvia a minha voz passar. Quando sentia que o dever estava cumprido. Em 2006 entrei no escritório do director da estação e mandei-o à merda. [e nunca me arrependi disso]. 

Nos entretantos, [uns longos entre tantos], deixei o país. Entre ser hospedeira da TAP e continuar a trabalhar em jornalismo, a segunda hipótese ganhou à primeira. E ainda bem. (como é que uma pessoa pode ser hospedeira da TAP e ter medo de andar de avião?!). Benditos 20s que nos fazem ter coragem, (ou falta de juízo) para quase tudo. Perdi a minha avó materna. A pessoa que mais amei na vida. Vivi dois anos em Espanha. Conheci uma das grandes personagens da minha vida sentimental. Esta. Achava que íamos ficar juntos para o resto das nossas vidas. Mas o "viveram felizes para sempre" passou-me. Ao lado. Fui loura. Pela primeira vez na vida. [mas confesso que não desfrutei das benesses que dizem que as louras têm]. Comprei uma bicicleta. Atravessei a 25 de Abril numa 125 (mas não era azul). Voltei a casa. Voltei a Lisboa. Voltei a casa. Toca e foge.

Fui freelancer. Continuei assalariada. E precária. Virei as costas ao jornalismo. Vendi palmilhas [que eram compradas na China, mas pagavam-me, (e bem), para dizer que eram fabricadas em Espanha]. Senhor, até cuecas e soutiens eu vendi! Voltei a apaixonar-me. A sério... poucas vezes. Tenho pena que umas das pessoas por quem me apaixonei não se tenha apaixonado por mim. Gostava, sinceramente, que tivéssemos sido mais do que fomos. Soube-me a pouco. [ainda hoje me sabe a pouco]. Criei um blogue. [este espectáculo]. Dividi casa(s) com pessoas dos 4 cantos do mundo. Viajei. Fiz 30. E não gostei. Tive duas grandes depressões (uma delas muito parecida com o crash da bolsa de 1929). Mandei muita gente à merda. Na sua grande maioria, patrões [alguns, acho que não mandei as vezes suficientes que eles mereciam]. Tentei ter uma relação convencional e não fui feliz. Decidi viver sozinha. Me, myself and I. E foi assim que regressei aos Açores. Ao fim de 13 anos fora. Comprei um carro. E continuei a fazer, não aquilo que acho que faço melhor, mas aquilo que nunca deixei de gostar de fazer. 

Foram 10 anos. Que não cabem em tudo o que vos disse. Estamos em 2016. Tenho 32. A roupa da minha mãe serve-me [mas ela não é lá muito de (me) emprestar]. Não tive cabelo durante algum tempo. [ainda não tenho muito]. Não voltei a chorar nos corredores da rádio. Mas voltei a chorar em muitos lugares. No trabalho. Na rua. No eléctrico. No aeroporto. Nos aviões. Na minha casa onde vivi sozinha. Grande parte nos corredores dos hospitais. Tenho, tive, whatever, sei lá... um cancro [há coisas que ainda me são muito difíceis de definir]. Um cancro que validou muitas das coisas que aconteceram durante estes 10 anos, e que serviu também, para esfumar outras tantas. Continuo sem saber muito da vida. [quando a gente acha que sabe alguma coisa, ela põe-nos à prova de maneiras, fantasticamente, irónicas]. Não tenho a garra nem metade da guelra que tinha. Não tenho, de todo, o mesmo coração. Nem a capacidade para me emocionar com as coisas que me emocionavam dantes. Mas continuo a achar que sei o mínimo para chegar a um sítio bom.

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4 comments

  1. O lugar bom continua à tua espera!
    It can't rain all the time!

    Bjs!!!!

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  2. Um must! :)
    É não é? Não sabemos se temos ou tivemos, olhe....acho que isso também não vai interessar, o importante é viver, viver a vida, só temos esta, amores para sempre? Huuum...não acredito nisso, o importante é ser feliz, pode ser com amores "presente", afinal é o presente que importa. Gosto do que escreve :)

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    1. Obrigada Zélia pela visita e pelas palavras que me deixou :)
      Amores "presente" e presentes! são os únicos que importam.
      Bons presentes, para si.
      Um beijo

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