Bóia

quinta-feira, dezembro 08, 2016

Eu já vos falei do meu amigo Quim, (aqui), mas nunca com a devida atenção que ele merece. [pardonne-moi]. Fomo-nos conhecendo enquanto estivemos internados. [mais original não podia ter sido]. E, se não me falha a memória, ele foi das pessoas com quem partilhei mais dias de hospital. O Quim é especial para mim, porque mesmo que ele não o saiba, [ficará a saber hoje], ele foi uma das minhas "muletas". E ainda o é. Sempre que eu me sentia abandonar-me ao desespero, olhava para ele e recompunha-me. Sentia a obrigatoriedade de o fazer diante de uma pessoa que estava a passar pelo mesmo, pela segunda vez.

Fugimos algumas vezes um para o quarto do outro. [mesmo que os médicos e enfermeiros não gostassem muito]. E quando as plaquetas nos permitiam, fazíamos serão na sala de convívio para pôr as telenovelas em dia, acompanhados pelos nossos "bobis". [os "bobis" de que vos falo não são animais de estimação, não... são os suportes onde nos colocam tudo aquilo de que precisamos para ir abaixo e vir ao de cima]. Foram serões muito felizes, dentro das circunstâncias. Um dia fomos ao balneário juntos, tomar duche separados. [para que ninguém nos interprete mal]. Fartei-me de cantarolar para ele, mas nada de backing vocals do outro lado. O Quim usa um aparelho auditivo, mas eu não sabia que ele o tirava para tomar banho. Um dia, quando fugi para o quarto dele, apanhei-o de urinol na mão. Disse-me, "entra, entra", como quem convida alguém a ir tomar café lá a casa. "Volto mais tarde". E delicadamente fui-me embora. [pobres de nós, mulheres, que temos sempre de pôr os homens no seu devido lugar].

Despedir-me dele foi muito doloroso, mas tive a sorte de o ver forte, sereno, com um brilho (especial) nos olhos. Diria que estava, (e espero que esteja), de bem com a vida [é que se nos lembramos de discutir com ela, o fardo não se alivia]. Estamos ambos em manutenção. Ele à espera de uma "máquina" nova. Eu à espera que a minha continue a funcionar. Trocámos mensagens. Sobre o estado do mundo. [os nossos]. E das coisas. Falámos sobre uma viagem aos Açores. E de repente, perguntei-lhe "tu sabes nadar?". Não se preocupem, apesar do mau tempo que nos fustiga inúmeras vezes, os aviões, (por enquanto), ainda não aterram no mar, mas sei de uns sítios, paradisíacos, em que a água cura. [pelo menos a alma].

"Desenrasco-me", disse ele. "Mas não sei boiar". Eu, que acredito que "boiar" é uma habilidade básica de sobrevivência na natação, respondi-lhe, "toda a gente sabe boiar". Ele explicou-se. "Boiar eu até boio, mas se me agarram, eu vou ao fundo". É engraçado, não é? A forma como conversas triviais revelam verdades absolutas. Quando o peso dos outros se sobrepõem ao nosso, em vez de seguirmos boiando, vamos ao fundo. Tenho tanta sorte. Tanta. Por "entrevistar", (sem entrevistar), gente assim. Gente que me dá frases tão boas e estórias ainda melhores. Como diz uma amiga minha, colega de profissão, não são aqueles em quem depositamos grandes expectativas que nos dão o que esperamos. São os anónimos, que normalmente, o fazem.

Se calhar tu não sabes Quim, mas durante este tempo todo, tens conseguido boiar espectacularmente bem. 
Just keep swimming.

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5 comments

  1. Amei, amei <3 obrigada por relembrares bons momentos em meio das nossas tempestades, saudades! E apesar de ter sido uma tua muleta, a tua boia, tambem tu me ajudaste juntamente com aquela boa equipa a manter a boa disposicao e a minha forca. Muitos beijinhos do teu amigo Quim :-D

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    1. Estás a tornar-te um rapaz poético :P
      Foi, e ainda continua a ser bom ter-te no meio das nossas tempestades.
      E sim, devemos muito à equipa fantástica que não deixa ninguém (se) afundar. Um beijo enorme bestie! P.s - vais ficar "pro" a boiar quando vieres aos Açores!

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  2. Delicioso post. E a doçura está nos comentários.
    Uma amizade destas nunca se afunda.
    Beijinhos

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