"Está pr'andar"

sexta-feira, dezembro 09, 2016


Entrar num "hospital de dia" impõe respeito. [é assim que se chamam as unidades onde as pessoas, como eu, fazem quimioterapia]. É algo que eu aconselharia, a experimentarem, uma vez na vida. Não me refiro à quimioterapia, é óbvio, mas a uma visita. Para quem se submete a este tipo de tratamentos, os cadeirões metem um bocadinho de medo. [o raio dos cadeirões]. Parecem, soberbamente, maiores que nós. Sentimo-nos engolidos por um tempo que não passa tão rápido quanto aquilo que desejaríamos. Mas não são só os cadeirões que têm a capacidade de ditar um dia bom ou um dia mau. As pessoas que lá estão, nesses hospitais de dia, desde os profissionais, aos doentes e acompanhantes, são quem fazem a casa. E tudo o que se quer numa casa é bom ambiente

Um destes dias, no hospital de dia, uma "tia" que estava ao meu lado, a acompanhar o marido, revelou-se inquieta. [note-se que a "tia" dos Açores não tem qualquer tipo de paralelismo com a "tia" de Lisboa e arredores]. Tentei, subtilmente, demonstrar-me indiferente à sua inquietude. Mas, notava-se-lhe uma certa urgência em deitá-lo cá p'ra fora. Meteu conversa. Duas três frases sem (grande) importância, até que deu um jeitinho com a cabeça, inclinando-a para o marido e disse-me: "está pr'andar". Os açorianos têm esta coisa engraçada, e simultaneamente medonha, com as expressões. Tornam-nas impróprias, usando-as indevidamente. Graças a Deus, que o marido dela, para além de todas as doenças que tem, já não ouve lá grande coisa...

O nosso, carinhoso, "está pr'andar" podia, muito bem, significar qualquer coisa como "está pr'às curvas". Andar supõe que ainda se tem caminho para caminhar. Infelizmente, em bom terceirense, quer dizer que (se) "está pr'a morrer". [outra expressão que os açorianos utilizam sem pensar no (mal) que dizem]. Era urgente para aquela mulher dividir comigo o peso do "está p'ra morrer" que carregava. [mais ela do que o marido]. Apeteceu-me perguntar-lhe: e não estamos todos? Mas não consegui. Não tive forças. Nem tino. Entre os afrontamentos complicados que a quimioterapia por si só já nos provoca, a confissão da "tia" despoletou em mim um súbito ataque de ansiedade. Quando a enfermeira me administrou a injecção de quimio, que habitualmente levo todas as semanas, comecei a despir-me e a abanar-me tal não era o calor que se me subiu por mim acima [nem o elenco completo do Magic Mike conseguiria tal proeza].

Quem está numa sala de quimioterapia, a fazer quimioterapia, não quer morrer. [bom, algumas pessoas preferirão essa opção aos tratamentos, mas, por enquanto, (ainda) não é o meu caso]. A lógica é simples. Quem esteve p'ra morrer, mais do que uma vez, foge da morte, o mais que puder. Mas com todos os sintomas que me atacaram, eu não consegui explicar isso à tia que estava ao meu lado. O marido, por sorte, era surdo. E eu fiz-me de muda. O fatalismo e o drama são-nos muito próprios. Próprios das pessoas das ilhas. Aliás, não preciso sair de casa para lidar com eles todos os dias. [a minha mãe é um obituário andante... e não o deixou de ser por causa da minha doença]. Não há pessoa que morra que ela não (me) anuncie.

Curiosamente, eu nunca senti esta aura negra de pessimismo [que existe nas ilhas], no hospital de dia onde fui tratada em Lisboa. E sim, nesse hospital de dia também se morria. Bastante. Quase todos os dias. A questão é que nunca vi nenhum profissional de saúde, nem nenhum acompanhante, sentenciar a(s) vida(s) que tinham nas mãos, nos braços ou nos colos. Mesmo que estivessem por um fio. [as sentenças não omitem verdades]. O cancro mata. Acho que estamos todos conscientes disso. Provavelmente mata mais do que outra doença qualquer. Mas também existem casos de sucesso. Não sei porquê, nem porque raio, fala-se muito pouco neles... Talvez porque o tabu que o cancro representa (ainda) seja maior do que o próprio cancro. E porque, nós, os das ilhas, ainda somos muito pequenos [na maioria das coisas importantes]. 

Está pr'a morrer. Lamento dizer-vos que é para o que estamos todos. 
A diferença é que uns vão antes dos outros.

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