Estranha forma de vida

sexta-feira, dezembro 23, 2016

Escrevi este texto quando trabalhava na loja. Nunca me esqueci dele. Nem da cliente. Senti-me impotente. Por vários dias. Ainda hoje me sinto, quando o leio. Recuperei-o porque foi um ano de perdas. De silêncios. De palavras. Umas mais felizes que outras. Nunca mais soube nada sobre esta mulher, mas espero que tenha conseguido regressar. E é isso que vos desejo neste Natal, bons regressos. Aonde quer que seja que vocês queiram (e precisem) voltar. E se não precisarem de voltar, que tenham a coragem suficiente para seguir viagem.

«Quem trabalha com público sabe muito bem em que estado as pessoas nos chegam às mãos. Somos muitas vezes mais do que meros anfitriões. Somos psicólogos, médicos, professores, enfermeiros e em última instância, testemunhas das maiores (in)confidências. A minha paixão pelas pessoas é muito grande, embora goste muito de estar sozinha. Mas aquilo que me move (e que sempre me moveu, principalmente, a nível profissional) são as escassas oportunidades que nós temos de dar e receber, numa simples troca de palavras. O problema é quando elas nos faltam. 

Ficar sem palavras não é uma coisa típica em mim. Sempre trabalhei com elas e sempre lhes consegui dar a volta, com criatividade, e muitas vezes com recursos estilísticos que só eu sei como foram construídos. Mas hoje... hoje fiquei sem palavras... Achei que qualquer uma delas seria desadequada ou insuficiente para reconfortar a pessoa que me falava. Percebi que tinha de escutar, porque o que a pessoa precisava era de desabafar e de se ouvir a si mesma, em silêncio.

Sempre achei que o silêncio poderia ser um dos nossos melhores aliados. É responsável por nos devolver a lucidez que no meio da multidão não conseguimos alcançar... Reconcilia-nos connosco mesmos e com a paz interior, aquela de que tanto precisamos em dias de tempestade. A senhora contou-me que não saía muito de casa, que não conseguia, que não o fazia desde que o filho tinha morrido. Que ainda não acreditava, que ainda não aceitava, que se recusava a deixar que o tempo atenuasse a dor.

As lágrimas caíam-lhe pelo rosto abaixo, e o meu coração apertou-se de uma tal forma que tive de me conter, não para não chorar porque isso não me importa nada, mas para lhe servir de amparo sem desmoronar em frente a ela. Disse-lhe o que a mim me confortou quando perdi alguém que era muito importante para mim: "pense que ele está sempre consigo e que nunca a abandonou". É aquilo em que eu acredito. Que as pessoas que nós amamos muito, e que também nos amaram muito, estão para sempre ligadas a nós.

E com a voz trémula, a senhora continuou: "eu também morri... a partir desse dia morri e sei que a minha outra filha sente muita falta de mim, da mãe de antigamente, da mãe que ela gostava que voltasse, mas não me parece que essa mãe volte". Angústia, mágoa, dor, num coração despedaçado, a lutar por sobreviver dentro de um cenário hostil para qualquer ser humano. Aquilo que nos magoa, faz-nos muitas vezes evadir-nos do mundo, mesmo que tenhamos vontade de voltar. Parece que nos perdemos e que deixamos de ser quem éramos.

"Faça um esforço, disse eu. Não se pode entregar". Mas mesmo assim, senti que as minhas palavras eram muito pequenas perante tamanho sofrimento. Deixei-a falar. Deixei-a chorar. Deixei-a dizer o que queria dizer.  E deixa-a calar-se quando assim o entendeu. Queria ter-lhe dito coisas que a ajudassem, mas se a dor dela é como eu penso que é, nenhum delas teria efeito. A dor de cada um de nós, é só nossa, e merece que os outros a respeitem tal como ela é. Custou-me muito ficar calada. Custou-me muito ficar sem palavras. Custou-me muito, o silêncio, vazio.

Não quero imaginar o que essa dor é, nem quero imaginar ao que a recuperação se assemelha... um caminho sem fim, íngreme nas subidas e veloz nas descidas. Só posso desejar o que desejei, "força", porque quando não temos mais nada que nos faça viver, só precisamos é de continuar bem agarrados ao fio que nos mantém vivos e aguardar que as águas acalmem. Desejo, mas mesmo muito, que esta mãe volte, porque há ainda uma filha que precisa dela, e espero que os anjos de guarda (os meus e os dela), a guiem nesse regresso tão esperado.»

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