Isenção de dívida

quinta-feira, dezembro 22, 2016


Li, algures na blogosfera, que 2016 não foi um ano necessariamente bonito para a humanidade. [espanta-me que (ainda) haja por aí alguém que não (se) tenha dado conta]. Mas, pior que isso. Espanta-me, [e muito], que (ainda) haja alguém que tenha de ler isso, escarrapachado, num sítio qualquer, para processar que, de facto, 2016 não foi lá grande coisa. [e no meio do não-foi-lá-grande-coisa foi muita coisa. tanta coisa. milhões de coisas]. Contra (os) factos não há (de todo) argumentos. Irrita-me muito, [agora mais do que nunca], a insinceridade, (obrigada MEC por esta palavra tão boa), com que o mundo avança. Se é que avança. Da mesma forma como me irritam os mea culpa, pouco verdadeiros, que fazem pendant com o Natal.

Esta ideia que o catolicismo de prateleira vende de que o Natal é tempo de perdão sempre me cheirou a publicidade enganosa. [tenho pensado muito nisto. mais do que aquilo que me apetecia]. Eu acredito n'Ele. [à minha maneira]. E acredito em milagres. Mas não acredito que as pessoas mudem. De um dia para o outro. Especialmente entre 1 e 31 de Dezembro. [soa contraditório, não é? logo eu que tenho tanto para agradecer]. Não me interpretem mal, mas a religião é uma empresa em falência. Daquelas muito antigas que apostam no mesmo produto em todas as épocas. Perdoar é a palavra de ordem. O slogan obsoleto. O hastag omnipresente. Da quaresma ao advento. [que raio de religião é esta que nos faz sentir mal pelas coisas que nós, (que a praticamos), não conseguimos fazer?]. Na minha cabeça não faz lá muito sentido... Não devia ser assim, pois não? Não devíamos viver com a sensação da auto-punição sob as nossas cabeças só porque não seguimos a receita by the book.

Quando eu fiquei doente, uma das minhas grandes preocupações era "perdoar" toda a gente. Não sei porquê. Não sei porque é que me impingi tamanha responsabilidade. [não posso ser boa da cabeça]. Tenho a certeza de que não sou. Se calhar porque sempre me disseram que as melhores pessoas, (e as mais felizes), eram efectivamente aquelas que conseguiam perdoar. Not me. [acho que me preocupei, (demasiado), em querer deixar tudo, aparentemente bonitinho, caso ganhasse o bilhete dourado]. Sabem que mais? Quem é humano tem uma dificuldade terrível em perdoar. Venham os Natais que vierem. E o resto do calendário por arrastão. Mas fico muito feliz só de suspeitar que existem, seres incríveis, cheios de amor para dar... Que, quando tratados como sacos de pancada, ainda conseguem perdoar. Infelizmente, that's not my team. [devo ser uma católica de categoria reles, está visto].

Perdoar, no dicionário, assume várias interpretações. Absolver de pena. Isentar de dívida. Aceitar, suportar, tolerar. Poupar. Nenhuma delas se refere ao acto de perdoar como um plus humano. Para mim, perdoar implica muita flexibilidade... e flexibilidade é tudo o que eu não tenho neste momento. Passei muito tempo na posição da espargata. Não estica mais. Lamento. Acabaram-se as extensões. Dolorosas. E as posições desconfortáveis. Ainda assim, e apesar de todos os inconvenientes de quem passou boa parte do tempo [deste ano] a fazer a espargata, (ainda) sou capaz de isentar de dívida, de absolver de pena, de aceitar e de poupar determinadas coisas e determinadas pessoas. Mas há outras... há outras que não consigo, de todo, suportar. 

A incapacidade de perdoar pode ser um defeito de fabrico. [acredito mais nisso do que nas pessoas que me dizem que é um efeito colateral do cancro]. E não me sinto menos amiga d'Ele só por isso. Nem menos crente. Nem menos católica. A nossa capacidade de perdoar, se calhar, assim em termos gerais, [pr'a gente não complicar mais a coisa], é proporcional à nossa capacidade de suportar. Parece-me mais humana esta ideia de equilíbrio... afinal de contas, Deus há só um, por alguma razão é, certo? Ele deu a outra face [o que revela uma grande capacidade para suportar, obviamente]. Mas... ninguém sabe se ele estava à espera da "chapada" que lhe deram. É que isto de contar estórias e fazer das personagens heróis tem muito que se lhe diga. Muito mesmo.

Acho que não era preciso ninguém ler, em lado nenhum, que 2016 não foi um ano bonito para a humanidade. Bastava olhar para o lado. [basta olhar para o lado]. E teríamos a inevitável súmula diante dos olhos. E contra isso nada podem os meus textos. As minhas palavras. A minha impotência. O meu coração. Às vezes sinto-me atropelada pelas notícias do mundo. Pela nossa incapacidade de sermos melhores. Pela insinceridade com que tratamos os nossos sentimentos. Desculpe lá, óh senhor aí de cima, pelo testamento de hoje e por todas as dúvidas que pairam sob a minha cabeça. És uma estória bem conseguida, apesar da empresa estar na falência [como é que é possível?!]. E até deves curtir o pessoal andar aqui em baixo, a chocar uns com os outros. Vê se te empolgas menos da próxima vez que fores aos matraquilhos. Combinado?

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