Porquê eu?

quarta-feira, dezembro 14, 2016


A vida é feita de encontros e desencontros... e de estranhas coincidências. [este há muito que era esperado]. Desde que descobri que estava doente procurei ler e acompanhar a(s) estória(s) de pessoas na mesma situação, da mesma forma, que pessoas na mesma situação, [e não só], começaram a acompanhar a minha. Eu (já) suspeitava que o encontro com a Joana fosse especial. E não me enganei. Aconteceu no meio da rua, debaixo do orvalho típico dos Açores. Duas cabeças rapadas. Quatro olhos (demasiado brilhantes). Muitas veias estragadas. E dois corações, aptos a bater. Miúda, não imaginas como foi bom poder abraçar-te!

Falámos de tudo um pouco, aleatoriamente, sem ordem especifica. Falámos sobretudo do que nos vinha ao coração e não à cabeça. [conversas que seguem estas regras são sempre boas]. Apesar dos seus (tão) frescos 18 anos, a Joana conseguiu escolher, meticulosamente, as palavras certas para descrever muito daquilo que me passou, e ainda me passa, pela alma. Sem esforço. Sem malabarismos. Sem segundas intenções. Temos os mesmos pontos de vista sobre muita coisa. E ela está bem de contas.  Tal como eu estou. Nada a acertar. 

Da conversa, rápida, e atrapalhada, no meio do desfile de Natal da cidade, ficou-me isto, entre tantas outras palavras: "sabes, cheguei a perguntar-me se eu tinha sobrevivido só para ver os outros morrer". Respondi-lhe categoricamente que não. E sei que ela também sabe que essa possibilidade é uma possibilidade muito fraca para tudo aquilo que ela é. Perante tudo aquilo que ela é. Mas não deixa de ser curiosa a dúvida, que a dada altura, [destes processos indefinidos e indeterminados], a Joana se colocou a si própria.

Desde o inicio, em que isto tudo começou, sempre vos escrevi que nunca me tinha perguntado porquê. Porquê eu? Mas percebo perfeitamente, que a inocência, a compaixão, e o amor pela vida que a Joana tem, a tenham levado a questionar a sua existência. Também o fiz. Também o faço. [aliás, não há dia em que não o faça]. Sabem quando é que eu mais me perguntava porquê eu? Quando acordava, de manhã, no quarto do hospital, e via a cama do lado vazia. Cama esta que no dia anterior estava ocupada. Algumas vezes por pessoas de quem eu gostava muito. [ainda gosto]. Esses são os verdadeiros momentos em que nos perguntamos porquê eu. Essas são as verdadeiras dúvidas que nos atropelam a galope. Apesar da dureza da interrogação, nenhum de nós devia deixar de se perguntar porquê, no sentido em que acredito que as respostas nos darão sempre inúmeras razões para gostarmos de continuar a estar vivos [a "idade dos porquês" nunca acaba, só se complica].

Não acredito que estejas cá só para isso Joana. Nem eu. Nem muitas das pessoas que estão no mesmo campo de batalha. Não acredito que estejamos cá só para isso. No teu caso, tenho quase a certeza que sim. E... depois de tantas perguntas, não me perguntes porquê. Estamos cá porque ainda estamos. Porque alguém o quis. Porque também o quisemos... e queremos. Muito. E se tivermos sorte... ainda havemos de assistir ao nascimento de muitas coisas, nem que seja ao nosso. Outra vez. Apesar de (já) me pareceres um doce de menina, acho que a vida ainda têm, reservadas, mais umas colheres de açúcar para ti... mas vê lá, cuidado com a diabetes.

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2 comments

  1. Penso que ninguém fica cá para ver os outros partir. É o que tem que ser.
    Beijinhos

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