Rir é o melhor remédio

sexta-feira, dezembro 30, 2016


Vou falar-vos de uma dor que conheço bem. [ninguém gosta de sentir dores, mas esta, em particular, dá bastante sentido a outras coisas, em especial à vida]. É uma dor que faz o corpo todo tremer. Incontroladamente. Sem darmos conta dela, ela toma conta dele. E de nós. [e aviso-vos já: é uma perda de tempo tentar abafá-la]. Ela é mais forte. Mais estridente. E (das) mais sentida(s).

É uma dor que vos desmascara. [de imediato]. Tem a capacidade de revelar as partes mais genuínas de que somos feitos. É uma dor ritmada, semelhante às contracções de Hicks [e olhem que eu nunca tive filhos!]. É uma dor bastante sonora. Ecoa. Quando vem das entranhas. Faz-se ouvir. Sem hora marcada. Não costuma avisar quando chega... nem quando vai, mas quando chega, quem está por perto sabe que chegou. 

É uma dor que já senti, várias vezes, ao longo da vida. E é uma dor da qual também já me esqueci, várias vezes, ao longo da vida. Sortudos, aqueles que já a sentiram. Sortudos aqueles que nunca a esqueceram. De todas as dores que já tive, diria que é a melhor delas todas. [e olhem que, modéstia à parte, já senti algumas]. Costuma-me doer especialmente na barriga. Mas não é segredo nenhum. Sempre sofri muito com dores de barriga. 

É uma dor que pode até caracterizar uma pessoa. [como é que é possível que uma dor seja o traço de alguém?]. Tem picos como todas as dores têm. Variações de intensidade. Quando ela nos apanha, os músculos contraem-se todos. Não raras vezes costumo levar a mão ao peito. Para a encurtar. Ou suavizar. A dor não fica bem a ninguém... Mas esta de que vos falo, mesmo que não fique bem, é uma dor que todos têm direito a ter. [e não, não vos estou a desejar nada de mal, antes pelo contrário].

Esta dor é uma dor física, mais ou menos aguda, dolorosa, intermitente. Não é dor de corno. Não é dor de burro. Muito menos dor de cotovelo. É uma dor teimosa, indecente... inoportuna. Aparece nos momentos mais inusitados. E mesmo que a queiramos disfarçar, ela acaba sempre por se tornar evidente... e por nos levar a melhor. É uma dor denunciadora. [de outras dores também]. Mas é sobretudo, uma dor boa. Daquelas que quanto mais doem, mais aliviam. [não sei se a sentem assim]. Senti-la, assaltar-nos, sem pré-aviso, é experimentar o melhor que este mundo tem. É por isso, que essa dor, é tudo o que vos desejo. Hoje. [porque uma dor assim não se pode desperdiçar]. E daqui em diante.

Não me ocorre melhor dor que a dor que o riso provoca. 
Boas gargalhadas. [muitas].

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