Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam*

sexta-feira, dezembro 16, 2016


Eu, que sempre fugi, a sete pés, das místicas aleatórias da vida, acredito que cada um de nós carrega uma luz própria. [exceptuando alguns seres translúcidos que andam por aí com a lâmpada fu(n)dida]. A luz, como todos vocês sabem, não brilha sempre com a mesma intensidade [a não ser que tenham uma excelente bateria sobressalente pronta a utilizar nos momentos de fraca iridescência eléctrica]. Estamos tão poucos habituados a falar das nossas fases menos boas... Não entendo porquê. Se não somos feitos de ferro, porque é que temos de nos comportar como se fôssemos? Porque é que temos de disfarçar que a tomada, ligada à corrente, já não é por si só suficiente? 

Quando se trabalha nas áreas em que eu trabalho, captam-se essas energias com [relativa] facilidade. Enquanto consultora de lingerie, aprendi uma coisa fundamental: as clientes infelizes são as piores clientes. Um perigo para a saúde pública. Uma espécie de carrinho de rolamentos, desgovernado, ladeira abaixo... cujo travão só é accionado através de um terrível embate. [com a realidade]. 

Eu descobri que tinha leucemia na recta final de uma depressão. [a segunda da minha vida]. Fui dando por mim, de dia para a dia, a ficar mais fosca. Muito fosca. E a perder a capacidade de me agarrar aos luscos-fuscos diários que nos mantêm à tona. [a partir do momento em que nos deixamos de (re)conhecer, estamos feitos ao bife]. E, aguentar, sem pedir ajuda, deixem-me que vos diga: não é a saída mais inteligente. É óbvio, que é a mais dourada, dentro da sociedade em que vivemos, mas não é aquela que vos levará de regresso a casa. [se é que me entendem]. Uma depressão não é um bicho papão. É apenas, um sinal, evidente, de que o vosso fio condutor... pode estar por um fio. Quando ficamos tristes, o nosso corpo adoece. Sucumbe. [à falta de luz com a qual habitualmente o costumamos irrigar]. 

Ainda se fala de cancro, de uma forma (muito) pouco humanizada, na minha opinião. Humanismo este que falha, novamente, quando o tema é a saúde mental... e as dores da alma. [legítimas como todas as outras]. Posso garantir-vos que o meu cancro ajudou-me a recuperar da minha depressão, mas não estou segura que a minha depressão não tenha contribuído para o meu cancro. É por isso que falo sobre o que (vos) falo hoje. E porque apesar de todos os clichés, batidos, um corpo são não se consegue, nem sem atinge, sem uma mente sã. E uma mente sã, nos dias de hoje, requer um enorme equilíbrio de sensatez. [um exercício pouco praticado, por nós, pessoas, que não temos tempo de olhar para dentro, e de dentro pr'a fora... quando nos é exigido].

Estamos tão poucos habituados a falar das nossas fases menos boas, da mesma forma como estamos poucos habituados a falar bem dos outros. Da mesma forma como os outros estão mal habituados a que falemos bem deles. Que coisa mais bonita se pode dizer de uma pessoa, senão que tudo que aquilo que ela faz, faz com amor? Não encontro melhor finalidade para esta vida. A sério que não. Talvez se soubéssemos partilhar mais verdades, saberíamos dividir mais vitórias... mas isto é apenas uma forma, (in)equívoca de pensar. Muita minha. Muita recente. Muito descabida. [em última análise].

Sabem a quantos Natais eu tive direito este ano? Muitos. [o do próximo dia 25, se lá chegar, é só mais um]. Lucky me! E se este ano há coisa que o Natal me ensinou, essa coisa foi sem dúvida a dar graças. [as mesmas que nos esquecemos de dar todos os dias em que acordamos... até mesmo naqueles em que (nos) despertamos apenas a meia-luz]. Que não queiramos ser melhor do que outros... mas, definitivamente, melhores. Pessoas. [é isso que eu acho que conta no fim]. Que nos orgulhemos tanto de sorrir como de chorar. Que saibamos dar a mão e não as caras [a não ser quando elas sejam necessárias]. E que tenhamos a força suficiente para trocar lâmpadas e caixilhos, as vezes que forem preciso. Sempre que forem preciso. E possível. [sem que as sombras, desenhadas nas paredes frias dos nossos mundos, nos intimidem, dolorosamente]. E que a luz deste Natal, [o que vive em vós e que é (puro) sentimento], vos guie, de novo, até casa.

*José Saramago, A Viagem do Elefante

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2 comments

  1. Um dia eu vou ao Açores e dou-te um abraço miúda!
    Venham de lá essas luzes LED, Ecológicas, as que quiserem, mas que brilhem!!!

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    1. Quando vieres, e espero que venhas mesmo, vou tentar receber-te no carrinho "Follow Me" que anda na pista do aeroporto... É o mínimo que posso fazer por fãs tão doces! Obrigada! P.s - Olha que vou ficar à espera!

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