Sinal Vermelho

sábado, dezembro 17, 2016


Conhecemo-nos através dos vários, e estranhos fios, que ligam as pessoas neste mundo. [mas eu gosto de pensar que chegaste até mim através de mim... ou de uma parte que me é muito minha (e em última instância, muito nossa)]. Tentaste, como tantos outros, convidar-me para sair, e eu disse, como a tantos outros, que não. Não me parecia o momento ideal. Nem me apetecia, na verdade. Não me apetecia começar coisas sem saber se as podia acabar. [mania esta da disciplina, hein?!]. Podia, efectivamente, ter-me calhado outros desígnios em sorte, mas foi este, o dos fins, com o qual me tenho debatido mais (independentemente de tudo o que me aconteceu recentemente).

Um dia, dei-me conta de que a espera era ridícula. [as oportunidades não são perenes]. A vontade de te ver e de ter conhecer, no meio de um presente incerto, superava a indefinição do futuro. Pobres de nós que vivemos enganados, à espera dos momentos ideais... Marcámos encontro, por minha iniciativa, depois de uma série de considerações absurdas. "Olha que posso vomitar." "Olha que posso desmaiar." "Este é o contacto da minha mãe". "Esta é a morada do meu apartamento". "Este é o nome da minha médica". "É para aqui que tens de me levar se eu passar mal". "Olha que eu posso, de repente, chorar". 

Não foi fácil. Foste, o primeiro homem, em muito tempo, com quem voltei a sair. E se estas coisas já não são lá muito "práticas" para uma mulher, no seu dito estado normal, imagina para mim, que vivia constantemente numa montanha russa [de emoções]. E se não sabes, ficas a saber: um comprimidinho debaixo da língua, ajudou imenso. [espero não me ter babado demasiado para cima da toalha do almoço]. Guardo imensas coisas desse dia, sobretudo o que senti. Como me fizeste sentir. Como me permiti sentir. [ao fim de tanto tempo].

Recordo-me de termos saído da minha casa, de te teres enganado na faixa de rodagem, e de termos ficado, parados, no sítio errado, enquanto o carro de trás não parava de buzinar. Com a calma que acho que te é característica, levaste a mão diante do espelho retrovisor e impuseste a ordem natural das coisas: aguenta aí. [os outros. eu não]. E continuaste, calado, à espera de me ouvir. E no meio de uma Lisboa tão veloz em sofrimento, eu encontrei, num erro, ao acaso, espaço. De repente tudo parou. O trânsito. O ruído. Os hipotéticos momentos ideais. Os fins. As considerações. O cancro. [o meu]. Senti-me, alguém que não eu, continuando a ser eu. E isso foi o melhor que deixei que me tivesses dado [e pelo qual te vou estar sempre agradecida]. Há imenso tempo que ninguém me ouvia.

Continuas a acreditar, mais do que eu, nas continuações. E foi justamente por causa delas que não me quis despedir de ti quando regressei aos Açores... Prefiro pensar que teremos sempre faixas de rodagem erradas aonde nos encontrar. [e porque me faltou coragem para impor-me uma dor (des)necessária]. Nesse dia, quando regressei a casa, à temporária, caíram-me umas lágrimas por olhos abaixo. Estava, infinitamente feliz. E de coração cheio. [de orgulho]. Meu e teu. Tenho aprendido muito contigo... nomeadamente, que os sinais vermelhos, [que aparecem nas nossas vidas], podem nem sempre se tratar de paragens definitivas, mas se o forem... que sejam sempre como os nossos. 

Enquanto os nossos caminhos não se voltarem a cruzar, [mesmo já estando mais do que entrelaçados], eu prometo continuar a andar, ora acima, ora abaixo... Descalça, quando estiver cansada, ou, destemida, nos meus sapatos de rubi. Afinal de contas para um feiticeiro como tu, basta estalar os calcanhares 3 vezes, não é verdade? Até amanhã.

Foto: ©Ricardo Caetano 

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