#serviçopúblico

Repasse a todas as meninas que você conhece

quarta-feira, maio 24, 2017

Pessoas que têm ataques de fúria, valentes, quando se lhes pede, amavelmente, o email. Conheço muitas. (em particular aquelas a quem consegui sacar as palavras mágicas abracadabra). Enquanto profissional - que tinha, forçosamente, que reunir dados - não entendia, por vezes, as reacções exageradas dos clientes. Pessoalmente, faço parte desse grupo. Não reajo como uma maluca foragida do manicómio, mas não gosto que me encham a caixa de email de porcaria(s).

Somos bombardeados por tanta coisa, de tanto lado, que não há como controlar a fuga de informação. Vendem-se bases de dados a torto e a direito. Mais a torto que a direito. E o que nos resta como voluntário parece microscópico. É por isso que não gosto de forçar a barra. Em nenhuma situação. (mesmo quando era consultora de lingerie e tinha que vender). Até o podia fazer, mas sigo uma lógica simples: a de não-faças-aos-outros-aquilo-que-não-gostarias-que-te-fizessem-a-ti. Tento colocar-me sempre nesse lugar porque, sinceramente, acho que é dos melhores. A vista panorâmica é soberba.

Por exemplo, o blogue. Esta coisa linda! Quem não está nas redes sociais, chega cá pelo google. (vá, o nome não é muito original, nem muito óbvio, mas foi o que me ocorreu na altura e ficou assim registado). Quem faz questão de não perder um post, tem a opção de seguir por email. (mas ninguém é obrigado a isso se não o quiser). Quem gosta dos textos tem várias opções para partilhá-los. Quem quer comenta. Quem segue no instagram, pode não seguir no facebook e vice-versa. Gosto muito que vocês venham até cá, mas não vou cobrar-vos nada em troca. (acho que os 5 minutos que perdem a ler um texto é o melhor retorno, e não, não estou [só] a ser humilde, estou a ser prática). É claro que há uns stalkers que seguem em todo o lado, comentam em todo o lado, e não sendo suficiente, ainda enviam mensagens privadas. Digo stalkers porque não lhes consigo chamar outra coisa mais soft - e porque, para mim, isso é estranho. Muito estranho. Vá, groupies eu ainda curtia. Stalkers não.

Acredito que a tecnologia pode ser boa, na medida em que facilita a nossa vida... Mas não duvido nada que seja má, (muito má), se, ao invés, complica. Ora, ontem à noite, recebi esta mensagem pelo facebook messenger:

Vamos deixar esses homens curiosos e além disso, fazer o bem... Como todos os anos, entramos em acção contra o câncer de mama. Aqui está o jogo deste ano: propõe-se que as meninas façam algo para alertar todos contra o câncer de mama. É fácil. Eu gostaria que todas vocês participassem!!!! No ano passado, nós tivemos de escrever a cor do soutien que usávamos no nosso status. Os homens se questionaram por alguns dias. Eles se perguntaram porque as meninas haviam escrito sobre as suas cores. Este ano, é em relação ao nosso estado amoroso. Não responda a esta mensagem. Escreva somente a FRUTA que se aplica a você em seu status, e envie esta mensagem privada para todas as meninas que você conhece. Morango: solteira; Maçã: noiva; Cereja: juntada/amigada; Banana: casada; Abacaxi: enrolada; Framboesa: eu sou inconstante; Manga: namorando; Pêssego: livre, leve, solta; Abacate: eu sou a outra metade; Laranja: não é possível encontrar um que preste; Limão: quer ser solteira; Uva: quer se casar com o parceiro. O jogo do ano passado foi até à televisão, tentemos fazer o mesmo novamente... Seleccione esta mensagem, clique em nova mensagem e depois cole o texto. Repasse a todas as meninas que você conhece. Juntas somos mais fortes que o câncer de mama. (não custa participar, é por uma boa causa).

Vou partilhar convosco, em voz alta, as minhas dúvidas em relação a estes conteúdos (que se tornam virais não sei bem como). Assim, de caras - sem ser preciso ter estudado Filologia e Língua Portuguesa para ser capaz de interpretar o texto - eu diria que a primeira intenção do jogo é... o engate. Vamos deixar esses homens curiosos e além disso, fazer o bem... Primeiro, os homens. Depois, o bem. É verdadeiramente enternecedor. Parece uma espécie de Tinder, versão arcaica.

Os homens se questionaram por alguns dias. Eu também me questionaria. (mas pouco). Isto não é um jogo. Primeiro. E se fosse um jogo era estúpido. Não consigo estabelecer uma relação directa entre ele e o seu objectivo: alertar - e sensibilizar - as mulheres contra o cancro de mama. Vocês conseguem perceber a relação? Se conseguem, expliquem-ma sff. Portanto, suponhamos que eu sou uma banana e estou casada. (são as regras do jogo!) Como é que o meu status pode levar alguém de entre os meus contactos a apalpar as mamas? Sim, apalpar as mamas... porque, segundo se sabe, o auto-exame (ainda) é uma forma de luta (e de detecção precoce) sem garantias, infelizmente. [se há por aí alguém, que ao receber esta mensagem, influenciada pelo seu conteúdo, fez o auto-exame da mama, por favor acuse-se e arrume a um canto a minha teoria da conspiração].

O jogo do ano passado foi até à televisão, tentemos fazer o mesmo novamente... Não me admira nada. A avaliar pelo lixo que os canais difundem, é totalmente aceitável que uma coisa destas seja notícia. E com a salada de frutas que pr'aqui vai, não tarda nada isto é capaz de dar tanto canal quanto um Love on Top. Star system. Não é para todos. (por isso é que deve ser tão difícil de compreender).

Eu não tenho nada contra o que cada um faz. E não posso obrigar a pessoas a pensarem como eu. E isto não é uma reacção empolada pelo facto de eu ser paciente oncológica. Talvez seja. Não sei. Mas às vezes apetece-me perguntar aos "criativos" que lançam estes "jogos" se eles acham que a gente - por gente entenda-se um grupo de pessoas/profissionais que leva a sério aquilo que faz e o que partilha com os outros - estamos aqui por... desporto. (também estamos por isso). Mas não sei se me faço entender. Outra vez.

Há muita gente que escreve. E há muita gente que defende as suas causas através de diversas plataformas. Eu juntei as duas coisas. Através da escrita, vou defendendo aquilo em que acredito. Defendendo e difundido. Passando a palavra e a mensagem. Das coisas que me parecem realmente importantes. Quando me enviam estas cenas maradas pelas redes sociais eu fico, verdadeiramente, chocada. E passo a explicar porquê: partilhar um post, relativamente interessante, com sentido, e com utilidade - que não tem necessariamente de ser meu - as pessoas, por norma, não o fazem. Mas, enviar um "jogo" (aos 1500 contactos do facebook) para "deixar os homens curiosos", aí o pessoal alinha.

É absurdamente estranho. Isso, os posts recalcados do JáFoste; as frases que-nos-põem-para-cima-para-baixo-e-de-lado dos Às Nove e os looks fabricados - disfuncionais - da loira da Malveira. (lembrei-me destes, mas podiam ser outros). Há muito por onde escolher. Ainda bem. Mas tratando-se de assuntos sérios, como o cancro é, podemos ser um pouco mais... conscientes?

#dossierequilibrio

Pure Life Concept - Cuidar da Imagem dos Pacientes Oncológicos

terça-feira, maio 23, 2017


Já dei aqui, várias vezes, o meu testemunho sobre a queda de cabelo durante a quimioterapia. É um golpe, tal como escrevi no post anterior. Compreendo, perfeitamente, que para algumas mulheres esse desafio cause arrepios. Mas, acredito muito nas ferramentas que o mercado da imagem (e da moda) disponibiliza. Faz todo o sentido que entrem ao serviço quando o assunto é restaurar a auto-estima da mulher. É uma filosofia - e uma causa - que para mim faz todo o sentido. Mais do que a moda pela moda.

Por essa razão, e após algumas pesquisas, decidi partilhar convosco esta entrevista da Cláudia Piloto à revista Activa. Nos últimos anos de profissão, a Cláudia tem-se dedicado a cuidar da imagem de pacientes oncológicos e tem até um espaço, o Pure Life Concept, a funcionar em 3 locais diferentes, pronto para receber quem está a (tentar) ultrapassar os efeitos secundários do tratamento quimioterápico. 

Eu nunca experimentei este serviço, porque como disse, não recorri a próteses capilares, mas fazermos por nos sentirmos melhor, e sentirmo-nos efectivamente melhor, é fundamental durante o processo de tratamento. As consultas, segundo percebi, são gratuitas e incluem também aconselhamento dermatológico. Acho bom negócio, nem que seja pela experiência. (os contactos estão no fim do texto embora eu ache que o conceito também está em funcionamento, actualmente, no Hospital da Luz).

«O Pure Life Concept é um projecto pioneiro e único em Portugal, concebido e realizado por Cláudia Piloto: um serviço de tratamento e aconselhamento de imagem destinado a acompanhar as mulheres que sofrem perda de cabelo e alterações no aspecto da pele, devido a tratamentos de quimioterapia ou alopécias de foro dermatológico. Uma ajuda preciosa para apoiar estas mulheres numa das fases mais difíceis da sua vida porque, como diz Cláudia, "se as pessoas se sentirem bem isso vai ajudá-las a curar-se mais depressa."
Como surgiu este projecto? Não foi uma coisa programada. A ideia surgiu porque duas amigas me pediram ajuda no sentido de arranjar a prótese capilar, a cabeleira, porque lhes ia cair o cabelo no decorrer do processo de quimioterapia. E eu tratei dessas duas amigas, fiz-lhes a prótese, que mandei vir… Na altura ainda não havia cá muita coisa com aquela qualidade… E gostei imenso de fazer esse trabalho! Na altura ainda só fazia o cabelo mas adorei e até o meu marido, que é também meu sócio, percebeu logo que eu gostei mais de fazer aquilo do que qualquer outra coisa que tenha feito até hoje. E quando surge um trabalho assim, que considero de missão, sentimos imediatamente que vai ser o trabalho da nossa vida. A partir daí começámos a desenvolver o projecto. A ideia surgiu com o cabelo e depois naturalmente evoluiu para a pele e a maquilhagem, que é aquilo de que a pessoa precisa para se sentir confiante durante o processo.

Onde é que as pessoas interessadas se podem dirigir? Em Lisboa estamos no Cabeleireiro Lúcia Piloto da Avenida 5 de Outubro e no hospital CUF da Infante Santo, onde tenho um gabinete. E no  Estoril no meu espaço, que se chama Pure Life Concept, nas piscinas do Tamariz.
Como se desenrola o processo a partir daí? Vamos supor que é uma pessoa que vai iniciar a quimioterapia e que já sabe que lhe vai cair o cabelo. É exactamente nessa fase que me deve procurar. Geralmente as pessoas vêm recomendadas do médico ou de alguém que lhes falou de mim, e a partir do momento em que sabem que lhes vai cair o cabelo (porque há casos em que não cai), mas quando sabem que vai cair, e isso normalmente é-lhes dito pelo médico, vêm a uma primeira consulta comigo. Aí eu analiso a natureza da pessoa e as características do cabelo, a estrutura, a forma, a cor, conheço a pessoa e os seus hábitos, o que é muito importante para a escolha da prótese, faço uma fotografia. Depois, com base nesses dados, dou a minha opinião em relação à prótese ideal. Para poder fazer este trabalho criei uma linha de próteses, a convite da Hair Plus, que por enquanto tem três modelos que eu trabalho para os adaptar à medida. As próteses vêm em bruto e depois sou eu que lhes faço o corte e se for preciso ajusto a cor, para se adaptar perfeitamente, explico como se aplica... Nessa primeira consulta falo-lhes da parte do cabelo, dou-lhes logo uma ideia do que acho que deveriam pôr, combinamos uma segunda consulta para experimentar, geralmente trago duas ou três cabeleiras para vermos o que se adapta melhor e depois trabalho a prótese à medida. Tudo isto é feito de modo a que a pessoa tenha a prótese pronta antes de começar a cair o cabelo, aliás eu corto o cabelo antes de ele começar a cair porque é muito menos traumatizante.


E em relação à pele? Recomendo os produtos necessários. Só trabalho com produtos naturais e recomendo basicamente produtos de limpeza, regeneração e protecção da pele. É um kit com poucos produtos mas que são tudo o que a pele precisa nestas alturas, uma coisa prática para que as pessoas os utilizem de facto. Se houver muita complicação, muitos produtos e muitos gestos as pessoas não seguem nada, não têm tempo nem paciência, sobretudo nestas alturas.
E em relação à maquilhagem? Trabalho com produtos de uma linha Terracotta, também com ingredientes naturais, e explico como deve aplicar para jogar com as zonas de cor e os pontos de luz, para a pessoa poder no seu dia a dia disfarçar as olheiras e zonas mais sombrias e dar um pouco de cor para contrariar aquela tendência da pele ficar mais amarelada e macilenta. Tudo isto ajuda imenso. Em termos de cabelo as pessoas vêm-se iguais ao que sempre foram. Quando saem daqui ainda não começaram o processo de queda mas cortam o cabelo, aplicam a prótese e saem iguais ao que estavam quando entraram, em termos de tipo de cabelo, forma e até espessura do cabelo. Porque a prótese foi escolhida mesmo para elas. A escolha da prótese é importantíssima e eu tenho tudo em conta: a espessura do cabelo, a maneira como ele cai e se move… isso é a parte importante porque eu posso fazer o mesmo corte que a pessoa tinha mas se o cabelo da prótese tiver o dobro da espessura que o cabelo natural da pessoa automaticamente se nota. Essa parte tem de ser trabalhada. Assim como os jeitos que a pessoa cria no cabelo, ter a franja no sítio certo… Claro que se trata de uma prótese e como tal há algumas limitações, por exemplo se a pessoa tem o hábito de andar com o cabelo apanhado, num rabo de cavalo, com a prótese vai ter de andar com o cabelo solto… Ou então prendê-lo de outras maneiras, que eu também ensino. O objectivo é aliás esse, ensiná-las, porque nesta altura em que têm tanto em que pensar é menos uma coisa com que têm de se preocupar. Eu acredito que metade da cura vem da forma como a pessoa se sente, se as pessoas se sentirem bem isso vai ajudá-las a curar-se mais depressa.
Teve dificuldade em arrancar com o projecto a nível hospitalar? A ter o apoio do hospital CUF? Não, nenhuma! Quando mostrei o projecto à CUF passado dois meses estava lá. A aceitação por parte dos médicos foi fantástica. Aliás lá fora existem imensas coisas destas, é mesmo impensável que não existam. Imagine o que é: uma mulher sabe que vai ficar sem cabelo então vai ali à loja e compra uma coisa mais ou menos parecida com o seu cabelo mas não é o mesmo que ter uma prótese feita para ser o mais semelhante possível ao seu cabelo natural, em todos os aspectos. Tem de haver uma formação de fundo e a pessoa tem de saber exactamente o que está a fazer para poder aconselhar.
E teve de se preparar para criar este projecto? No que diz respeito ao cuidado da pele e da maquilhagem, fiz formação. Em relação às próteses, quando comecei a trabalhar faziam-se imensos desfiles de moda em Portugal desfiles de moda e eu trabalhava sobretudo com cabelo postiço portanto sempre dominei esta área, até porque sempre fui mais virada para as artes do que propriamente só para os cabelos. Gosto do aspecto de moldar uma coisa que vem em bruto e isso não é muito possível no trabalho do dia a dia, apesar de eu ter muitos clientes que me acompanham desde o início. Mas actualmente 80% do meu trabalho é virado para o apoio na oncologia. E dermatologia, porque há pessoas que não têm mesmo cabelo, com alopécias totais ou muito acentuadas.
E isto é um processo caro? As próteses são caras? A consulta de diagnóstico é gratuita, quer seja na oncologia quer na dermatologia. Em relação às próteses os preços variam. Eu gosto de trabalhar com próteses 100% naturais porque nos dão a liberdade para fazermos o que quisermos. Mas 50% das que coloco são sintéticas, porque são mais acessíveis.  As próteses com que trabalho são fantásticas, têm óptima qualidade, o interior é óptimo, pode-se inclusive dormir com elas, porque vêm quase em forma de touca no interior, são todas fechadas, não irritam o couro cabeludo… são de um conforto fantástico. E o conforto aqui é fundamental porque vão ser usadas por um período longo. E essa também é uma das razões porque eu gosto das próteses naturais: a pessoa compra uma prótese sintética, até porque à primeira vista parecem iguais, isto falando daquelas com que trabalho, que não têm aquele brilho artificial. Mas com o tempo, a fricção dos fios sintéticos entre si criam borboto. O cabelo fica completamente embaraçado é comum é que passados dois ou três meses tenha de se cortar um bocado, e depois mais um bocado… e a coisa acaba por não ficar igual ao que estava antes. Claro que fica bem na mesma, mas com o cabelo curto e portanto não fica a pessoa como está habituada a ver-se e como gosta de se ver.
E na área da dermatologia, na alopécia? No caso das alopécias, e tenho tratado bastantes, trabalho com aplicações de algas, que são também 100% naturais, o que é muito raro encontrar-se em Portugal, e depois a pessoa leva dois produtos complementares para aplicar em casa. As sessões de algas são vendidas em pacotes de 15 e a pessoa vem semanalmente, ou com outra periodicidade conforme a necessidade. O diagnóstico é gratuito mas depois as marcações têm de ser logo feitas, tudo certinho, para a pessoa não falhar porque se começa a saltar tratamentos obviamente não resulta. É por isso que faço os pacotes completos, porque isto tem de ser feito de uma forma regular. E tenho tido resultados brilhantes. Os produtos que utilizo vão fazer com que os folículos que estão adormecidos despertem. E começa a nascer cabelo. É extraordinário. Os tratamentos têm também uma vertente de aromaterapia porque também têm óleos essenciais que actuam a nível do sistema nervoso, da imunidade… A pessoa sente-se melhor e ao sentir-se melhor é natural que tudo funcione melhor, para além das algas que vão despertar os folículos. Claro que isto só funciona se ainda houver folículos, caso contrário já não consigo fazer nada. Também posso fazer micro extensões, que são extensões muito fininhas, o mais fininho que se consegue, mas também aí tudo dependa da quantidade de cabelo que ainda existir porque se houver pouca massa capilar não se podem fazer extensões. Nesse caso é preciso tratar primeiro para fazer nascer o máximo de cabelo possível e só depois de termos alguma massa é que faço as extensões.
E onde são feitos esses tratamentos? No meu espaço do Estoril e na Lúcia Piloto da Av. 5 de Outubro. Na CUF só faço primeiras consultas, maquilhagem, a avaliação da pele e a parte da prótese: levo para lá, faço lá, transformo lá. E a parte das micro extensões também. Tudo o que tem a ver com algas, os tais tratamentos que são feitos durante cinco meses, não pode ser feito na CUF.
Durante a quimioterapia também é frequente as sobrancelhas caírem ou ficarem esparsas. Há alguma solução? Sim, já tivemos casos em que as aplicámos pêlo a pêlo. Mas também tenho umas que já vêm prontas, depois só temos de lhes dar uma forma mais parecida com o desenho natural das sobrancelhas da pessoa. Duram sensivelmente 15 dias. Mas a minha experiência em relação às sobrancelhas é que, se de facto há pessoas a quem cai na totalidade, na maioria das pessoas cai sensivelmente metade do pelo e aí aconselho a fazer um sombreado com uma sombra específica, que eu indico e explico como se usa. Portanto nas sobrancelhas eu ensino-as a desenhar dentro do que têm. Com uma sombra e um pincel específico, em vez do lápis que fica sempre estranho.»
Contactos para marcações e informações:
Pure Life Concept/Edifício Cláudia Piloto, Piscinas do Tamariz; Estoril, tel.: 214 643 790
Pure Life Concept/Cláudia Piloto no Hospital CUF Infante Santo, Lisboa, tel.: 213 926 100
Pure Life Concept/Cláudia Piloto no Lúcia Piloto Cabeleireiros, av. 5 de Outubro, Lisboa, tel.:217 908 210

#quimioterapiamaisleve

Estou careca, e agora?

terça-feira, maio 23, 2017


Quando eu perdi o cabelo, pela primeira vez, não me custou tanto quanto aquilo que seria expectável. Acho que me preparei. Sem estar preparada. Custou, provavelmente, mais aos outros do que a mim. No dia em que dei entrada no hospital pedi que mo cortassem. De inicio.  (a antecipação é uma estratégia a que recorro muito). Não o fizeram. Deram-me um prazo. 3 semanas. E 3 semanas depois do inicio do tratamento ele começou a cair. 

O cabelo é um golpe. O confronto com as evidências dos efeitos secundários do tratamento - e com a gravidade do nosso estado - é, verdadeiramente, agonizante. Cai por inteiro. No comprimento em que está. Fica preso na roupa, no pijama, nos pentes, nos lençóis. (não recomendo a ninguém pentear-se nesse estado). Quando comecei a acordar, deitada sobre ele(s), pedi que mo raspassem. Não havia quem o fizesse, mas eu insisti. Não conseguia esperar mais. Não conseguia sofrer mais.

Foi a D. Filomena, auxiliar do hospital dos Capuchos, quem teve a (difícil) tarefa de o fazer. Chorou mais do que eu. Aliás, eu não chorei. E não vos conto isso com orgulho. Acho que estava chocada. Obviamente. Mas não só. Tinha urgência em seguir em frente. Survive now, cry later. Foi um mote. A enfermeira Mafalda, a milagreira que encontrou a veia maravilha do último ciclo, entrou no quarto e disse: onde é que tens o telemóvel? Sacámos umas fotos com vários looks alternativos antes de raspar tudo. Completamente. Ambas, as 3 envolvidas no processo, mais as colegas do lado, sabíamos que o momento não era fácil. Mas a diferença talvez esteja aí. Colocar o dedo na ferida não faz com que a ferida sare. Então, acho que a atitude é essa. Tornar mais leve o que não é, de todo, leve.

Prática, como eu sou, enviei mensagem às pessoas mais próximas a avisar que já não tinha cabelo e em anexo, a prova do crime. (ficámos todos felizes porque, ao menos, eu não tinha uma cabeça de melão). Estou a brincar. Obviamente. Quis prevenir os que me eram queridos do embate. E por isso, larguei a bomba. Infelizmente não tenho muito jeito para ser querida. Ou fofinha. E não, não é da agora.

Muitas pessoas, na esperança de serem amáveis, diziam-me com frequência é só cabelo. Apesar de não me chocar, incomodava-me, ligeiramente. Não pelo cabelo. Talvez pela forma desvalorizada como eu sentia os comentários deles. Todas (e todos) sofremos com isso. Umas mais do que outras. É legítimo. E por isso mesmo acho melhor evitar este tipo de palavras. Não é só cabelo. É muito mais. E ninguém - nem mesmo nós - sabe o que é que estamos a sentir. 

Preparar-me, dentro do possível, para abrir mão ajudou. Desprendimento. Acho que é por aí. Foi assim que me desprendi do cabelo, em detrimento de coisas maiores. Sobreviver. Pareceu-me uma boa troca. O cabelo voltou a cair-me. Duas ou três vezes. (dependendo dos intervalos dos ciclos de tratamento é normal que comece a crescer, novamente). A segunda e a terceira vez doeram mais do que a primeira. Não é só cabelo. É muito mais. Agora que as doses de quimio são diferentes - mais fracas do que as do tratamento intensivo - não é garantia que cresça. Nem é garantia que caia. Tem-se aguentado. Tal como eu.

Há mulheres que optam por usar cabeleiras. E acho engraçado. De verdade. Não foi a minha opção, mas acho mesmo engraçado. (acho tão engraçado que comprei uma cor de rosa para usar no meu aniversário dos 32). Optei por andar de careca ao léu sempre que me sentia confortável com isso. Acho que me habituei com facilidade. Talvez tenha sido um caso de paixão mesmo. Quando raspei o cabelo, pela primeira vez, fiz um esforço para focar no que era realmente importante. Adoptei a careca - não como uma consequência, um dano colateral - mas sim como uma arma. Não sei explicar-vos bem isto, mas havia vezes, muitas vezes, em que me sentia profundamente orgulhosa dela. E via isso, também, noutras mulheres.

Lembro-me de uma rapariga jovem, uma vez, na sala das análises, que também não tinha lenço. Quando passou por mim sorriu-me com os olhos. E eu percebi porquê. Não estou com isto a querer dizer que toda a gente tem de se destapar. Não. As pessoas que infelizmente estejam nas mesmas condições têm de fazer o que lhes devolver conforto. Isso acima de tudo. É extremamente importante que se dêem ouvidos. Que se ajudem. Que sejam os vossos melhores amigos. Que se cuidem. Antes de todos os outros.

Os turbantes e os lenços protegem do sol e do frio e foram, apenas por isso, uma das minhas opções. Antes de cortar o cabelo a minha irmã já me tinha comprado alguns. Bastante coloridos. Hoje em dia, da forma como a moda está, é fácil encontrá-los. Vi muitos vídeos para inspirar-me. Pesquisei muitas fotos na internet. E depois era conforme se me dava. Um dia assim. Um dia assado. Ao sabor do processo. E da vida.

Não é só cabelo. É muito mais. E eu compreendo.

#biblioterapia

Com Quem Não Casar - Excertos

segunda-feira, maio 22, 2017

Hollywood faz-nos crer que se estivermos profundamente apaixonados por alguém, o casamento com essa pessoa funcionará. Mas, de acordo com a minha experiência, é perfeitamente possível estar profundamente apaixonado por alguém com o qual não é possível ter um casamento de sucesso. [página 11]

Creio que é fácil dizer «Amo-te». Mas será que é fácil viver a palavra «amor»? [página 20]

Se somos todos imperfeitos, não será uma parvoíce esperar comportamentos racionais por parte uns dos outros? Quer dizer, comportamentos conscientemente racionais. Assim que começamos a esperar isso... bem... estamos em sarilhos. [página 26].

Quer queiramos, quer não, os compromissos são algo assustador tanto para os homens, como para as mulheres. E é bom que assim seja. Tomar a decisão de entrar num compromisso vitalício, de passar o resto da vida com uma pessoa, não deve ser decidido levianamente. Casamentos apressados originam arrependimentos longos e tranquilos, por assim dizer. [página 42]

Em qualquer bom casamento é vantajoso ser um bocadinho surda de vez em quando. [página 49].

Para já, a definição de alma gémea implica que só exista uma única pessoa no mundo que pode preencher o seu desejo por uma relação amorosa. Mas existem muitos parceiros prospectivos, cada um com as suas virtudes, e cabe-lhe a si decidir ou discernir qual deles será o melhor parceiro para um casamento, a longo termo. A escolha é sua, nunca esqueça isso. Cabe-lhe a si escolher um marido, de entre as muitas almas gémeas que andam por aí. [página 57].

Já conheci pessoas muito jovens que são surpreendentemente maduras no que toca à sua visão do mundo e às suas acções, disse-lhe eu. Tal como conheço pessoas de meia-idade que se recusam a crescer. Portanto, como sempre, as generalizações são perigosas. (...) O truque, ao procurar parceiro, é lembrar-se de que aqueles (e uso o plural deliberadamente) que manifestam os meus sinais de maturidade serão um bom risco para um casamento. Também uso a palavra risco deliberadamente, porque podemos escolher a pessoa mais madura da vizinhança como cônjuge, e as coisas correrem mal na mesma. [página 277].

E há o segundo principio de Agostinho sobre o perdão: «Nunca [como a maior parte dos pecadores reformados ele gostava de começar as frases com nunca] acredite que a dor que alguém lhe inflige nasceu completamente no seu exterior.» [página 230].

Uma coisa é sentir um friozinho na espinha, outra coisa completamente diferente é arranjar outra mulher que o aqueça. (...) Portanto, mesmo que dê por si apaixonado que nem uma barata, dê tempo ao amor de se provar. (...) Esta é uma das razões pelas quais não apoio a ideia de amor incondicional. Há alturas em que há que impor condições, e esta é uma delas. [página 238].

#biblioterapia

Com Quem Não Casar

segunda-feira, maio 22, 2017


 Quando uma amiga me falou neste livro eu disse logo que o queria. Sem hesitar. Quando ele me chegou às mãos vacilei. Desconfiada, naturalmente. Podia ser (mais) um grande flop. Mais um livro de auto-ajuda sem graça. Incongruente. E pouco realista. Ora vejamos: é escrito por um padre. Católico. De 81 anos. Australiano. Um padre que nunca se casou (e que faz da felicidade conjugal o tema das suas palestras). Com estas premissas é impossível uma pessoa não ficar com curiosidade para ouvir o que Pat Connor tem a dizer sobre juntar os trapinhos. Confesso. Foi o título, assertivo, que me convenceu. (e me fez confiar).

Pat é inteligente. Assim como o seu primeiro livro. Nas primeiras páginas do Com Quem Não Casar ele explica, amavelmente, porque é que decidiu escrever sobre uma coisa tão difícil como a vida a dois, e porque é que tem (alguma) autoridade no assunto. É um livro, obviamente, para mulheres. [as maiores consumidoras de bibliografia amorosa]. Mas, não obstante, não fazia nada mal alguns homens porem-lhe os olhos em cima. É que nisto da vida a dois, mais vale mesmo ser a dois, não é verdade? Não o consideraria "a" bíblia das mulheres modernas como alguém o fez - acho demasiado arriscadas essas comparações - mas antes um bom bloco de notas indispensável, recheado de conselhos úteis. Também não acho que ajude a encontrar o príncipe encantado - se ajudar, melhor - mas simplesmente porque não acredito nesse conceito dourado. Que é um bom livro de estilo - para ter em mente durante o processo de triagem - lá isso é. 

Depois de ter realizado mais de 200 matrimónios, a filosofia do padre Pat é (bem) simples e é justamente por ser tão simples que o livro se revela mais interessante do que aquilo que parece. Back to basics. Só para vos abrir (ainda) mais o apetite, o que é defendido no livro, em linhas gerais, é o seguinte: uma relação pode levar ao casamento, mas o amor por si só não faz com que um casamento funcione. Mas, existem mais conselhos nos quais Pat insiste com muita fervorosidade: 1) nunca case com um homem que é mais afectuoso em público do que em privado; 2) nunca case com um homem que não é responsável com o dinheiro; 3) nunca case com um homem que lhe permita espezinhá-lo; 4) nunca case com um homem que não tem amigos; 5) nunca case com um homem que vive debaixo das saias da mãe. E last but not least,  6) seja honesta consigo mesma.

Podem parecer conselhos muito óbvios, (e até um pouco lamechas), mas quantas de nós já não fechámos os olhos, propositadamente, a algumas das verdades que são reveladas neste livro? Quantas de nós já não permitimos comportamentos errados sabendo que eles estavam errados? Tudo em nome do casamento. Da união. Ou de qualquer coisa in between. Se vos apetecer reciclar algumas noções básicas sobre o amor e as relações entre homens e mulheres este livro é, com certeza, um bom ponto de partida. Leve, realista, curto!, sem se perder nas redundâncias daquilo que não são as uniões.

Se me permitem um último apontamento, (sem querer assustar-vos), o Com Quem Não Casar não é só bom para quem esteja a pensar casar. O Com Quem Não Casar é um excelente livro para quem se esteja a pensar divorciar (mas faz de conta que eu não deixei escapar isso, ok?). À venda, na Wook, por apenas 3€! Quem está nos Açores pode comprar online. Hip hip hurra! Hip hip hurra! Cliquem aqui se estiverem interessados em comprar. Boas leituras. E claro, bons casamentos.

#avidacomoelaé

Pacto de Sangue

sábado, maio 20, 2017

Ao longo da minha curta existência conheci muitas pessoas. (espero conhecer mais algumas apesar de haver dias em que não as suporto à minha beira). Não me tornei amiga de todas. Ficaram as que, por várias razões, bastante diferentes, vão fazendo sentido. Umas deram, (e continuam a dar), mais trabalho do que outras. Mas eu também dou. É recíproco. Tal como a amizade deve ser. Tenho várias amigas que me ensinaram coisas úteis. A Ana, por exemplo, ensinou-me que quando tem dúvidas de português utiliza o dicionário online priberam. (obrigada vizinha, não vivo sem ele!). A Inês ensinou-me que um @ antes dos nomes nas redes sociais identifica, automaticamente, a pessoa ou a página. A Milene ensinou-me que sumo de laranja é sinónimo de positivar (uma filosofia que ela própria inventou). Como vêem, tudo coisas importantíssimas para o mundo de hoje.

É claro que as nossas relações são um emaranhado de coisas complexas simultaneamente simples. E é sobre essa mistura, regada a paciência, que temos prevalecido tanto. A Ana, a Inês e a Milene são exemplos daquilo que me une a outras tantas pessoas. Apesar do tempo - e da distância - a chama continua acesa. (como é difícil, hoje em dia, continuar a arder). Há bocadinhos de cada uma que eu gostava de reunir em mim. Não é inveja. É admiração. E quando a gente olha para alguém que a gente admira, a gente ama. Sem lentes mágicas. Naturalmente. Por vezes... de uma forma que ninguém compreende. Orgulho-me tanto de vocês. Tanto. Tanto. Tanto.

Mas, a amiga de quem vos quero falar hoje, vem antes da Ana, da Inês e da Milene. Vem antes de muitas pessoas. Ganhei-a nos tempos da faculdade (apesar de não estudarmos juntas). Dividimos casas. Pelo menos duas. Mas muito mais do que isso. Nos entretantos. Passámos uns bons anos juntas. E (já) passámos uns bons anos separadas. E hoje é meio-meio. Mas faz-se. Em nome da chama que ainda não se apagou. Recentemente visitou-me e, às páginas tantas, revelou-me que tinha, finalmente, doado sangue. Enterneceu-me. Muito. Sobretudo porque sei que era um dos seus maiores medos. Inspirou-se em mim. Disse-me ela. Na minha estória recente. Na minha luta diária. E fez-me chorar quando se foi embora. Miúda, estou orgulhosa demais. (não é que já não me sentisse). 

Estou-lhe eternamente grata. Profundamente feliz. E claro, não tenho como não admirá-la. Não só por isto, mas também por isto. Nós não temos a noção da quantidade - e dos tipos - de sangue que são utilizados todos os dias pelos hospitais. Muito é, neste caso, um eufemismo. Não as contabilizei, mas recebi várias transfusões durante o tratamento intensivo. Era o sangue dos outros, (compatível com o meu), que me metia de pé todas as vezes que me ia abaixo. E atenção, não são só os doentes oncológicos que necessitam de transfusões. São várias as situações em que o vosso sangue é preciso. Por isso, volto a agradecer-vos, e a pedir-vos, as vossas dádivas. 

Apesar do tempo, dos silêncios intermitentes, das curvas apertadas, por vezes em contra mão, ela disse-me que sempre que se sentava ao computador para ler o blogue, chorava (qualquer dia tenho de começar a contar anedotas para ver se isto melhora!). Não encontro melhor forma de vos descrever a empatia. (aquilo que faz de nós, entre outras coisas, humanos). Sentir com o outro. Mesmo por detrás de um ecrã de computador. O que é preciso é desligá-lo às vezes... E aparecer à porta de quem, ainda, faz faísca com a gente. Amiga, mi casa es su casa. Sempre.

#profissãoaventura

Então o que é isto da Empregabilidade?

sexta-feira, maio 19, 2017

Uma amiga minha, psicóloga, convidou-me para ser palestrante de uma sessão de esclarecimento vocacional (não sei se o nome da intervenção é este, mas parece-me que sim). Ela trabalha com alunos do ensino secundário e a ideia era eu esclarecê-los sobre o futuro profissional. (logo eu, pobres crianças!). Tive algum receio em aceitar. Confesso. Não se pode dizer tudo o que nos vêm à cabeça quando o público são criaturas de 18 anos. A responsabilidade aumenta. Uma coisa é chocar os adultos. Que são maiores e vacinados. Outra coisa é chocar adolescentes. Que mal ou bem ainda sabem muito pouco sobre vida.

Estas coisas colocam uma pessoa numa posição ingrata. Obrigam-nos a pensar muito bem nas palavras que se escolhem. E, se há coisa que eu odeio é ter que pensar nas palavras que escolho. Quando escrevo é relativamente fácil, mas quando falo, em público, é bem diferente. Não tenho problemas em falar em público. Tenho problemas em falar, no geral, sobretudo porque falo quase sempre aquilo penso. E é, aí, que está o ónus da questão. Mesmo assim, não consigo dizer que não a uma boa conversa, muito menos a uma boa experiência sociológica. Aceitei e fui. Sem qualquer tipo de preparação. [se a gente se preparar para tudo - o que acho impossível - não desfrutamos de metade daquilo que poderíamos desfrutar].

Fizeram-me muitas perguntas. (chatos, hein? uma pessoa não está habituada ao lado de cá). E a dada altura, uma aluna, interessada em seguir comunicação perguntou-me sobre a taxa de empregabilidade do curso. Ocorreu-me responder-lhe a primeira coisa que me veio à cabeça: minha menina, enfie os olhos nos livros e escolha outra profissão. Seria o que eu diria se hipoteticamente tivesse um filho e ele se lembrasse de ser jornalista. [vá que o meu afilhado já desistiu dessa ideia, penso eu]. Depois lembrei-me de lhe responder aquelas coisas bonitas, esotéricas, do tipo: vai onde te leva o teu coração minha querida. Fazem muito pouco o meu género. A questão é que a resposta estava aí, no limbo entre uma e outra.

A empregabilidade é um conceito subjectivo. Pelo menos para mim. Não o vejo de uma forma muito transparente. Serve bem as estatísticas. Mas apenas isso. É boa para quem concorre a anúncios e ofertas de emprego e consegue ser colocado. Mas nem toda a gente vive dessa forma. Para isso. Ou por isso. Os jornalistas (e mais um grupo de outras profissões) não vivem, normalmente, assim. Não são colocados em lado nenhum e respondem muito pouco a ofertas de emprego (se respondem, provavelmente não serão às da área de formação). A empregabilidade das pessoas que trabalham em comunicação depende, sobretudo delas. Agora digam-me lá, é ou não é ousado querer explicar isto a adolescentes de 18 anos?

#serviçopúblico

Nova Lei do Atendimento Prioritário

quinta-feira, maio 18, 2017


A nova lei do atendimento prioritário está toda errada. Desde a sua formulação até à sua prática. E passo a explicar-vos, detalhadamente, porquê. Ponto 1) ninguém interpreta a lei no plural. Isto é, para o bem (e organização) da sociedade em que vive. A maioria das pessoas interpreta a lei conforme lhe convém e apenas em seu benefício próprio. E começamos mal. Muito mal. Noutros países que não Portugal, o civismo funciona de uma forma simples e clara. Muitas vezes quase automatizada. Cá, espetamos leis nas caras uns dos outros quando nos servem. Bonito. Este sentido de oportunidade portuga.

Ponto 2) a lei, toda ela, foi feita para funcionar. Agora, digam-me lá: quem é que verifica se ela, efectivamente, é cumprida? Pois, ninguém. A não ser o cidadão. Nós. E foi isso que me aconteceu recentemente. Tive que interpelar o funcionário de uma instituição para que ele fizesse o trabalho que lhe competia bem feito. E isso é a prova, provada, de que as leis existem, mas (tal como muitas outras) não funcionam. [esta, em particular, não funciona nada bem].

Portanto, há uma lei, sem regulação, que só é funcional se nós formos minimamente cívicos (e polícias uns dos outros). Hummm. É capaz de ser muito interessante. A nova lei do atendimento prioritário abrange os seguintes grupos de utentes: pessoa com deficiência ou incapacidade, que, por motivo de perda ou anomalia, congénita ou adquirida, de funções ou de estruturas do corpo, incluindo as funções psicológicas, apresente dificuldades específicas susceptíveis de, em conjugação com os factores do meio, lhe limitar ou dificultar a actividade e a participação em condições de igualdade com as demais pessoas e que possua um grau de incapacidade igual ou superior a 60% reconhecido em Atestado Multiusos; grávidas; pessoa idosa, que tenha idade igual ou superior a 65 anos e apresente evidente alteração ou limitação das funções físicas ou mentais; pessoa acompanhada de criança de colo, que se faça acompanhar  de criança até aos dois anos de idade.

Bom. Uma pequena nota em relação às grávidas. Com o respeito que lhes é merecido. Minhas amigas vocês têm o Livro da Grávida (Caderneta da Gestante) não têm? Então andem com ele, sff! E não cedam ao histerismo, nem entrem em transe quando alguém estiver na caixa de supermercado que vos é reservada, vale? Uma coisa é a descompensação hormonal, outra é a falta de educação, pregnantzillas. Se vocês ainda não vos deram conta, o dono da superfície comercial não contratou um caixa para ele estar de braços cruzados à espera que chegue uma grávida, uma mulher com uma criança, um idoso ou um deficiente/incapacitado. A caixa está lá para ser usada por outras pessoas quando não houver nenhuma destas situações em fila. Ok?! Assim sendo, toca a todos reconhecer essas situações e dar a respectiva prioridade... sem ser preciso originar a 3ª Guerra Mundial. A menos que seja o momento de ter a criança, o resto pode-se ir fazendo com calma, sim? Ah, tem de ser depressa porque estão apertadas para fazer xixi?! É tramado. Também me acontece com muita frequência. Xixi e diarreia.

Sobre as mulheres com crianças ao colo. Numa ilha isso até nem é muito gritante por aquilo que eu tenho visto, mas as vezes que eu não desejei ter um filho para evitar as filas da Segurança Social (principalmente a do Areeiro, valha-nos Deus nosso senhor, o que era aquilo?!). Até equacionei pedir um emprestado às minhas amigas, tal não era o desespero. Frequentemente, em Lisboa, tratavam-me como se estivesse grávida, (viva ao abdominal relaxado e a moda dos cortes império!), mas eu nunca me aproveitei da situação. O que dá ser sério. Devia. Pelo menos na fila da Segurança Social do Areeiro. (em determinados dias não parecia a segurança social, parecia um infantário).

Idosos. Totalmente de acordo. Deficientes/Incapacitados. Totalmente de acordo. Solicitadores e Advogados?! Desculpem?! Podem repetir, outra vez, que eu não percebi... Os advogados e solicitadores no exercício das suas profissões, sempre que se dirijam a secretarias judiciais ou outros serviços públicos, enquanto representantes dos seus clientes. Então, e os médicos?! Os bombeiros?! Os enfermeiros?! Esses, ao menos, ainda vão salvando alguém. Vocês acham isto normal? É por estas e por outras que eu reitero o que disse no inicio deste post: a nova lei do atendimento prioritário está toda errada.

Quando interpelei o funcionário da instituição em causa, ele prontificou-se a atender-me, antes de todas as outras pessoas na fila, e eu tive que lhe explicar, novamente, que não se tratava de me atender primeiro, (até porque a lei não prevê nenhum enquadramento para os doentes oncológicos). Tratava-se de fazer o trabalho dele bem feito. São duas coisas diferentes, embora as pessoas associem sempre a nossa reclamação à nossa satisfação imediata... O que diz obviamente muito sobre a forma como as instituições são geridas, e como os seus recursos humanos são formados. [uma coisa que nas ilhas, não desfazendo, às vezes até arrepia). 

Uma das coisas que me chocou, também, foi o facto de todos os que estavam na fila, estarem a assistir ao mesmo, mas ninguém foi capaz de falar. Ninguém, a não ser eu. Depois de ter dado o corpo às balas, chegou-se tudo à frente. Até compreendo. Mas acho triste. Triste porque provavelmente da próxima vez que for ao mesmo local, o funcionário vai-se lembrar de mim e vai precisar de tomar um Rennie para ajudar à digestão. Mas faz parte. Eu não sou assim só porque sim. E é bacano. E é fixe. E é do contra. E andou numa faculdade rastafari. Eu sou assim em todo o lado. Quando vejo coisas que me ultrapassam. Ainda outro dia, tive que parar o carro para perguntar a um senhor, idoso, que ia a mudar vacas, muitas, sozinho e sem poder fisicamente, às 17:00 da tarde, num caminho público, se ele não tinha nada melhor para fazer naquela altura. Não me incomoda nada que ele faça o trabalho dele. Incomoda-me imenso que ele me chame nomes, (que era o que fez), quando eu tentei ultrapassar as vacas dele. (será que elas também têm prioridade e eu não sei?!). Problemas domésticos. Tão açorianos.

Mas, falando dos doentes oncológicos, eu acho que eles deviam estar incluídos na nova lei do atendimento prioritário. Por várias razões. Tão válidas como as dos outros grupos já incluídos. Talvez um dia, quando a gente começar a vomitar em cima dos balcões, a lei mude.

#dossierequilibrio

Roupa Interior 100% Algodão

quinta-feira, maio 18, 2017


Hoje vamos falar de "interiores" e de como eles são importantes - verdadeiramente importantes - em determinadas alturas da vida de uma mulher. Há quem não ligue nenhuma à lingerie. Há quem ligue, mas não invista nisso. E há, ainda, quem gaste quantias superiores a um salário mínimo nacional em cuecas e soutiens. [sim, é um número (bastante) comichoso quando pensamos em peças tão pequenas, mas acreditem, 3 anos de consultoria de lingerie foram suficientes para confirmar que o público feminino, nacional e internacional, investe muito - e frequentemente - em roupa interior].

lingerie é de facto indispensável. Fora as questões higiénicas e o desempenho, brilhante, que têm na construção e estilização da imagem feminina, os soutiens são acessórios fundamentais à saúde e ao bem-estar das mulheres. [talvez algumas de vocês ainda não sejam totalmente sensíveis a estas evidências]. Contudo, a minha experiência, pessoal e profissional, diz-me que a roupa interior pode tornar-se um tema relevante em situações e ambientes hospitalares. E é sobre isso que vamos falar hoje.

Durante a quimioterapia o (nosso) corpo sofre alterações brutais. A pele é muito castigada e a vários níveis. No geral, torna-se mais sensível, mais seca, mais alérgica, mais ruborizada e nalguns casos, pode até escamar. É normal que alguns produtos que vocês utilizavam antes de iniciar o tratamento se incompatibilizem convosco durante o tratamento. Não só produtos como também tecidos. Tecidos que antes do tratamento não vos incomodavam podem passar a incomodar (no meu caso, em concreto, comecei a notar alguma intolerância a determinadas rendas e fibras da roupa interior). 

Encontrar um soutien confortável durante o tratamento intensivo foi uma espécie de caça ao tesouro. Primeiro porque o volume do meu corpo oscilava de dia para dia muito por causa da medicação e dos corticóides (que ainda faço). Segundo porque as alças dos soutiens ficavam posicionadas, normalmente, por cima ou muito perto do local dos cateteres (utilizei sempre cateter venoso central intravenoso). Fiz grande parte do tratamento com um cai-cai  básico que me custou 6€ na Primark. (os soutiens desta marca, em Portugal, são comercializados até à copa F, embora os tamanhos de costas sejam pouco variados para a relação de copas que oferecem). 

Modelos  Supreme Comfort & Florence - Royce Lingerie
O soutien não era confortável de todo, mas era o mais confortável entre todos os que eu tinha. Também utilizei extensores (os extensores permitem alargar os soutiens temporariamente, mas verdade seja dita, visualmente não funcionam se a cor do extensor não for a mesma do soutien - por norma são vendidos apenas em preto, branco e beige).

Durante os internamentos socorri-me muito pouco de soutiens (por causa do desconforto e outras paranóias), mas recomendo. Soutiens sem aro, se possível com uma grande percentagem de algodão na sua composição. O soutien compõem (isto porque os pijamas dos hospitais podem não ter botões pelo facto de serem velhos e lavados com muita frequência, por isso, ter qualquer coisa debaixo é capaz de ser boa ideia até porque vão receber visitas e porque poderão, eventualmente, ter de ir a outros serviços, dentro ou fora do hospital, fazer exames). Mais do que a questão estética [e psicológica], o soutien protege. Estive muito tempo sem usar soutien. O meu peito não ficou diferente por causa disso, mas nalguns casos, a falta de suporte pode provocar danos - nem que sejam dores nas costas... E mais dores para além daquelas que já se tem, quando se está no hospital, não é boa opção.

Quando estamos internados, infelizmente, passamos muito tempo deitados. Por esse motivo os soutiens não devem ter aros (se tiverem aros serão, simplesmente, insuportáveis). O grande problema desta necessidade que ainda ninguém pareceu resolver é conseguir encontrar roupa interior em algodão, e sem aros, que sustente efectivamente todos os tipos de peito - mesmo os mais pesados - que não tenha um design assustador. (é tudo tão old-fashion não é verdade?). É raríssimo encontrar uma marca que reúna estas características. Em todo o caso, para se escolher um soutien, deve-se partir sempre da mesma base: isto é, deve-se, primeiro, descobrir o tamanho certo (costas e copas). Se vocês não o sabem, podem e devem, visitar duas lojas que se dedicam a aconselhar mulheres com essa finalidade - uma delas é a Dama de Copas, (Lisboa, Porto e Madrid), a outra é a Bra&Company, (Lisboa e Viseu). Eventualmente haverão mais, mas só conheço o serviço destas duas.

A Bra&Company, em particular, vende soutiens da Royce LingerieEsta marca inglesa é o que encontrei mais próximo daquilo que muitas mulheres desejam: soutiens sem aro confortáveis e bonitos. Ou no mínimo, actuais. Eles tem produtos muitos específicos para várias situações delicadas - cirurgia (estética, mastectomia, reconstrução); maternidade (gravidez e amamentação), adolescência (o primeiro soutien) e vida activa (desporto). Em Portugal, que eu saiba, a única marca a oferecer soluções 100% algodão é a Amoena. A Amoena é direccionada para mulheres mastectomizadas. Os soutiens deles estão adaptados para o uso de prótese mamária, mas pecam em relação à variedade de tamanhos e diversidade de modelos.


Não posso falar pelas mulheres mastectomizadas. Nem pelas grávidas. Ou recém-mamãs. Mas penso que (quase) todas concordarão comigo: os soutiens têm uma finalidade evidente (mesmo que a gente não goste muito de usá-los!). São ferramentas que, [inconscientemente], nos ajudam a abraçar a nossa feminilidade, mesmo quando não nos sentimos muito femininas... A sensação de perda de feminilidade não acontece apenas a quem perde o cabelo ou um peito. Acontece também a quem passa por transformações físicas muito grandes. É mais do que normal. Depois do tratamento intensivo, tornou-se impossível continuar a utilizar os soutiens antigos. (quando aumentamos de peso, a roupa interior é a primeira a dar sinal). Tive, forçosamente, que comprar novos soutiens. Passei de um 32F/FF para um 34FF/36F. 

Aquilo que as minhas clientes me diziam e que eu não entendia, percebo-a agora: o meu peito é muito mais pesado... Tanto que já equacionei, até, comprar um soutien de dormir. [os soutiens de dormir protegem o peito dos movimentos bruscos que possamos fazer durante o sono]. Os meus hábitos de consumo também mudaram. Optei por comprar soutiens de copa mole, (soutiens em tecido), em detrimento do que costumava utilizar antes, soutiens modaldos (com molde e forma). Tudo porque o tecido, se for elástico, adapta-se melhor às oscilações de volume do peito e nas fases hormonal e fisicamente pouco precisas essa é a opção mais segura. 

Apesar do cambalacho que são, não se assustem com as mudanças físicas que possam resultar dos tratamentos oncológicos. São duras. Obviamente. Mas também são uma boa oportunidade para porem em prática a vossa criatividade. Adaptar, adaptar, adaptar (lembram-se?!). E sim, se tiverem que construir um comboio de extensores para conseguir vestir os vossos soutiens, mais vale comprar novos. Pela vossa saúde. E muito mais.  

#avidacomoelaé

O Elogio Fúnebre (Moderno)

terça-feira, maio 16, 2017

(e.lo.gi:o) sm.
1. enunciação que exprime admiração, aprovação
2. discurso em favor ou louvor de alguém

Há uma sensação, estranha, que nenhuma pessoa que venha de comunicação gosta de sentir: a de ficar sem palavras. Tem-me acontecido muito. Ultimamente. Por isso mesmo, tenho escrito menos. Bastante menos. Porque não consigo exprimir (tudo) o que sinto. O que me dói. E por respeito. Também. Dos outros. E das dores que são deles. [o silêncio, sob todas as outras formas de manifestação, ainda me parece a melhor forma de respeito]. Eu, que às vezes só sei escrever na solidão e no recolhimento, não percebo, nem entendo a urgência das pessoas em quebrarem silêncios. Em "fazerem-se" presentes, forçosamente, em determinados momentos da vida dos outros. Momentos. Há silêncios, que tal como as palavras, têm um timing certo. [e há companhias que nos deixam mais sozinhos do que aquilo que já estamos].

Esta coisa do facebook ter virado diário pessoal indigna-me. (muito e muitas vezes). Não percebo porque é que as pessoas se fotografam nas urgências dos hospitais. (será que elas acham bonito? apropriado? será que elas imaginam o que é realmente estar doente? será que a primeira coisa em que elas pensam é "deixa-me lá fotografar a cor da pulseira"? really?). Não percebo porque é que as pessoas colocam "améns" nas fotografias que alguém, sem noção, pôs a circular na internet. (por muito que eu desejasse que essas "cadeias de oração" dessem certo, meus queridos, o vosso amén não faz a mínima diferença, nem cura, e duvido muito que console). Aliás, houve uma ou outra situação em que alguém os colocou nas fotos que eu partilhei durante o meu tratamento intensivo e, sinceramente, não gostei. Não gostei porque a fé não é isso. [eu acho que não é]. E portanto, não me parece de bom tom brincar com assuntos sérios. 

Não entendo porque é que as pessoas utilizam a palavra "cancro" para se referirem a situações que não a de doença. (com um léxico tão rico como o da língua portuguesa não lhes ocorre nada melhor? Tem mesmo de ser "cancro"? "o cancro da língua portuguesa". "o cancro da sociedade actual". não entendo). Não entendo porque é que as pessoas deixam "recados" baratos nos seus murais. Não entendo porque é que algumas pessoas lavam roupa suja nas redes sociais. Não entendo porque é deixam comentários maus e negativos. (epah senão faz diferença, nem é útil ao debate, então fica calado!). Não entendo porque é que escrevem nos murais de quem morreu. (quem morreu não vai ler). Nem entendo porque é que escrevem nos murais de quem perdeu alguém (existe uma opção no facebook chamada "mensagem privada" que é bastante útil). Vocês acham mesmo que comentários do tipo "Não acredito", "Vida injusta", "Como é que é possível", vão ajudar as famílias consternadas? Acham?!!

Acho importante lembrarmo-nos das pessoas. Homenageá-las da forma que elas gostariam. Mantê-las vivas através das nossas atitudes e dos nossos gestos. Escrevo muito sobre gente que perdi porque o que eu sei fazer é escrever e porque acho que dedicar-lhes um texto é das coisas mais bonitas que se pode fazer a alguém. (adoraria que alguém, um dia, se lembrasse de escrever sobre mim). Agora... inundar de posts perfis de facebook de pessoas que morreram, ou de pessoas a quem morreu alguém muito próximo, já acho um bocadinho demais. Um bocadinho bem grande. Ainda para mais porque nem sempre as pessoas que o fazem são pessoas próximas. Se eu ganhasse 100€ por cada pessoa que me enviou um pedido de amizade desde que eu fiquei doente, a minha conta bancária tinha engordado bastante. Se eu ganhasse 100€ por cada pessoa que me enviou um pedido de amizade e me vira a cara quando me vê na rua... ui ui ui. E isto, isto eu nunca hei-de compreender. E atenção, eu não estava à espera que essas pessoas fossem minhas amigas, eu estava à espera que essas pessoas fossem coerentes. 

Não foi por acaso que, quando uma amiga minha me foi visitar ao hospital e me ofereceu um caderno, eu me senti tentada a escrever umas pequenas notas sobre o meu próprio funeral. Não o fiz. Mas foi a primeira utilidade para a qual senti que o caderno serviria. Sempre gostei de deixar tudo organizado, porque é que o meu funeral haveria de ser excepção? E, se não me falha a memória, já o disse aqui em casa, se me acontecer alguma coisa apaguem tudo das redes sociais. Tudo. Não deixem rasto porque eu não quereria. E se me quiserem homenagear, olha bebam e comam, com prazer, porque é das coisas que eu mais gosto de fazer. E isso é quanto baste. Não precisa mais. É uma pena que as redes sociais sejam tão... (nem sei que palavra usar)... vazias?! Sim, pode ser. Vazias. Desprovidas de todo e qualquer sentimento. Cheias de tudo. E de nada.

De repente tudo é Tetra. Tudo é Fátima. Tudo é Salvador. (a sério, vocês gostam da canção? eu não! e isso não invalida que reconheça o talento dos irmãos Sobral). Mas a sério, foi preciso o Amar pelos Dois para pôr tudo a chorar?! Vocês não choram com outras coisas bastante mais bonitas (ou terríveis) do que a canção que ganhou a Eurovisão? Mesmo vindo das áreas de comunicação e marketing, não consigo compreender estes fenómenos das massas. Mais do que isso. Não consigo compreender a falta de personalidade de algumas pessoas. Mais. Não consigo compreender a falta de educação e respeito que a internet, infelizmente, promove. [a par com o desconhecimento e a desinformação]. Irónico, não é? 

#avidacomoelaé

O Tempo das Coisas

segunda-feira, maio 08, 2017

O meu afilhado, de 19 anos, teve um embate, recente, com a perda. A morte não é fácil para nenhum de nós, mas na adolescência pode ser mais complicada de sentir. Sentir. É com isso que me preocupo. Refugiou-se na negação. (tão válida para alguém de 20 como de 60). O episódio convocou-me a ser mais madrinha. Talvez pela primeira vez. A servir de abrigo (apesar das edificações que me sustentam, também elas, andarem vacilantes). Apoiei-o, apesar de eu própria não saber também lidar com ela, a morte. Mas não lhe omiti o óbvio: ia doer. No dia. Nos dias a seguir. Pontualmente. Um pouco. Durante toda a existência dele. Durante o tempo em que a memória, e o coração, não o traírem. 

A morte é um tema muito evitado pelos cuidadores. [como seria de esperar]. Aqueles que estão nas primeiras filas das trincheiras connosco fazem disso assunto proibido. E há que aceitar. Nos hospitais cruzamo-nos com muita gente, e quer queiramos quer não, acabamos por criar laços indestrutíveis, mesmo à distância. Não tem sido fácil, antes pelo contrário. Tem sido penoso. Bastante. Apesar dos hospitais serem descritos como assépticos, e obrigarem-nos a associá-los, na maioria das vezes, a ambientes frios, eu descobri uma coisa de que são capazes: colocam-nos, constantemente, em contacto com as nossas primeiras emoções. As mais legítimas. E isso... isso às vezes é bom.

Ainda assim, e pelas ideias que troco com os meus amigos na mesma situação, quase todos nós preferimos saber o que temos que saber. Incluindo a morte dos outros. Mesmo que doa. Mesmo que nos fique a apertar o peito durante muito tempo. Mesmo que nos destabilize e nos roube o chão em que vamos assentado a(s) nossa(s) esperança(s). Aliás, é essa a postura dos médicos e dos enfermeiros. A de dizê-lo. Mas, caramba... Ambos sabemos que, por dentro, encolhemo-nos de forma igual quando não queremos articular determinadas frases. 

Eu sei que não há forma de dar estas notícias. Nem de dar nem de receber. E muito menos de aceitar. Mas aquilo que eu peço sempre é que todos - sem excepção - sejam poupados ao sofrimento. (não sei se isso faz de mim uma boa católica ou não). Mas é esta crença (e fé) que ajuda a acalmar as minhas dores. Algumas pessoas - cuidadoras - já me confidenciaram que receiam dar este tipo de notícias para que nós - os que ainda estão por cá - não fiquemos a pensar que vamos ser o próximo. Pois. Talvez elas não saibam, nem vocês, mas a grande maioria dos doentes oncológicos acorda a pensar nisso e deita-se a pensar nisso, independentemente de tudo o que possa estar a acontecer à sua volta. 

É difícil escapar a esses pensamentos. Tal como é difícil fugir às evidencias (e maus-tratos) da perda. A vida ensinou-me que a negação não é o melhor caminho, por isso telefonei ao meu afilhado, (ele vive em Portugal continental) e chorei com ele, ao telefone. Tudo o que nos restava era isso: chorar os dois. E foi essa a mensagem que lhe passei. Existem momentos para tudo na vida, (ah ainda bem que existem!), e quando é para chorar, temo-lo que fazer com a mesma intenção - e finalidade - do riso. Aliviar. Tudo o que desejamos quando se nos aperta o peito é que alguém o abra. E o amacie.

Não há forma de torná-lo (mais) fácil.

#quimioterapiamaisleve

Enoxaparina Sódica

sábado, maio 06, 2017


Recentemente falei-vos (aqui neste post) sobre o(s) dilema(s) da quimioterapia. São muitos. Muitos mais do que aquilo que possamos imaginar. Nós, os pacientes oncológicos, não temos de lidar só com o processo do tratamento em si, como também temos de nos adaptar - e habituar - aos efeitos colaterais que ele provoca de uma forma rápida e pacífica. Isto se não quisermos enlouquecer à bruta. Os efeitos secundários da quimioterapia podem fazer-se sentir a vários níveis. Dependendo do grau em que se manifestam é (muito) provável que seja necessário fazer alguns ajustes em determinadas esferas da nossa vida e do nosso quotidiano. Recorrer a medicação para controlar, profilaticamente, intercorrências de várias naturezas é o mais comum. E voltamos ao tema dos químicos novamente. A tal estória do custo/benefício. Do que eles podem trazer. E do que eles podem levar.

A título de exemplo decidi mostrar-vos a minha barriga porque ela, de facto, ilustra muito bem aquilo de que decidi falar hoje. E porque é importante passar a mensagem a quem possa estar na mesma situação. Quando comecei o tratamento surgiram algumas complicações. Antes dos pacientes iniciarem a quimioterapia há (quase) sempre uma avaliação do seu estado de saúde geral à qual se segue um processo de preparação do corpo. A ideia é tentar equilibrar ao máximo tudo aquilo que a quimio irá desequilibrar posteriormente. No meu caso, em particular, nessa fase, foi-me detectado um trombo. Um trombo é basicamente um coágulo no sangue. Os coágulos no sangue podem impedir, justamente, o sangue de circular. É por isso que ninguém gosta deles. Principalmente se se desprendem e começam a viajar pela corrente sanguínea até por exemplo se alojarem noutros sítios, como é o caso dos pulmões. E aí a coisa complica-se. 

Qualquer pessoa, não só os pacientes oncológicos, pode desenvolver um trombo. Da mesma forma que nem todos os pacientes oncológicos os têm. É preciso esclarecer isto. Aliás, o tratamento de prevenção, feito à base de Enoxaparina Sódica, é utilizado normalmente em outras situações. Várias. Traumas ou cirurgia. Em pessoas com idade acima dos 40. Obesidade. Tabagismo. Situações de imobilidade prolongada. Cancro. Durante a gravidez e no pós-parto. Devido ao uso de pílulas anticoncepcionais ou terapia de reposição hormonal. Qualquer uma destas situações pode levá-la ou levá-lo a si a ter que utilizar Enoxaparina. As doses e a frequência das injecções serão definidas conforme o seu caso e as suas necessidades. (já tive períodos em que tinha de administrar 2 doses diárias, actualmente faço apenas uma).

O que a Enoxaparina vai (tentar) fazer é não deixar que o sangue coagule dentro dos vasos sanguíneos. É normalmente injectada por via subcutânea na gordura da barriga e pode ser feito em casa, sem necessidade de recorrer ao hospital. (isto se vocês se derem bem com agulhas). O corpo, depois, encarrega-se de absorvê-la. É normal que, ao fim de algum tempo, a zona da barriga comece a ficar cheia de nódoas negras. (tal não é a quantidade de injecções que uma pessoa tem de levar!). Não convém massajar, nem pressionar essas zonas. Se derem conta de umas pequenas bolinhas que se formam no local das picadas, podem colocar gelo para descongestionar. Nos casos em que já não há mais espaço disponível, ou em que a barriga já esteja demasiado massacrada podem mudar para as coxas ou os braços, mas antes disso consultem um médico ou um enfermeiro. As minhas meninas foram impecáveis a explicar-me todo o processo de administração, eu é que realmente não tenho muito talento para isto. Está visto.

Antes de terminar, queria apenas deixar mais uma ideia para discutir, em particular, com as meninas que me lêem. Uma vez que o trombo foi detectado antes de dar inicio ao processo de tratamento, os médicos associaram-no ao uso da pílula. (o método anticoncepcional que eu sempre usei desde os 18). Se calhar, a pílula não é assim tão boa, não concordam comigo? Isto de andarmos todos a alterar que nem doidos o ritmo natural do corpo tem muito que se lhe diga...