#vamos matar o bicho

Social (Media) Detox

sábado, janeiro 28, 2017

A vida tem-me demonstrado que existem determinadas alturas em que não saber, (ou fazer que não se sabe), pode ser, efectivamente, (mais) vantajoso. Não querer saber mais do que aquilo que eu (já) sabia foi a forma mais-perto-do-confortável que utilizei, (e ainda utilizo), para enfrentar a minha doença. A primeira coisa que prometi a mim mesma, no dia em que soube o diagnóstico, foi a de proibir-me de investigar o caso. Eu sou jornalista. Tenho a deformação de profissão de gostar de investigar. E sempre fui hipocondríaca. [e ansiosa vezes 1000]. Ora, esta combinação, quase perfeita, não é assim tão bonita quanto parece. Foi em nome dela que eu decidi proteger-me. Muito por causa do medo da informação... E do impacto que a mesma poderia ter (em mim). 

A verdade é que durante o tempo que estive em tratamento intensivo, na maioria das vezes internada, as redes sociais eram de facto uma companhia... e um meio de comunicação. [cheguei mesmo a dar cabo de duas baterias!]. No entanto, as coisas ou os desafios que requerem agora a minha atenção, ou o meu foco, são outros. Ando a braços com o processo de ganhar confiança, e coragem, para recuperar a minha vida. E isso, como vocês podem imaginar, não é nada fácil. Coisas tão simples como predispor-me a caminhar 20 metros exigem a mobilização de vários instrumentos físicos, psíquicos e emocionais. Nem sempre se consegue articular todos de uma forma harmoniosa... mas a ideia é conseguir caminhar esses 20 metros, custe o que custar. Ultrapassar medos é um exercício de paciência

Agora que a vida, se tornou mais urgente do que todas as outras coisas, tenho promovido cada vez mais o "desligamento" do mundo virtual (e das redes sociais). Se eu continuar sentada de sofá, a papar tudo o que circula na internet, então esses 20 metros nunca vão passar a 40 ou 60. Sim o Trump é presidente da América, mas a minha vida é mais importante do que isso. Podem baptizar este movimento com egoísmo, embora eu prefira chamá-lo de foco. São coisas diferentes. Ambas necessárias à nossa existência. Nem todos os que me seguem, lerão este post, simplesmente pelo facto de que ele não foi publicado no facebook. Uns porque não sabem como aqui chegar sem que o link seja lá colocado, outros porque não têm esse hábito. Para esses, se não está no facebook, é porque não existe. E é mais ou menos sobre essa ditadura, imprópria, que ando a tentar rebelar-me. [se é que me faço entender bem].

Os que me seguem, há mais tempo, devem lembrar-se da altura em que vivi sem televisão. [para quem só chegou agora, é este o post]. Sim. Sou eu. Loura. Se foi a opção mais inteligente? Tenho algumas dúvidas. Na altura foi um método, pouco ortodoxo, para conseguir viver sozinha. O que não faz muito sentido. Estando, (mais) sozinha, (do que nunca), o que eu precisava era de companhia... mas eliminei a televisão para aliviar o chorrilho de contas mensais. Recentemente, como passo mais tempo em casa, no quarto, e às vezes na cama, a minha mãe sugeriu que eu arranjasse uma televisão e eu voltei a rebelar-me contra tal sugestão (apesar de ter que admitir: é muito, mas mesmo muito, confortável, ter uma tv no quarto). A questão é simples: eu não quero passar mais tempo a ver a vida a passar [lá fora]. Por isso estou numa onda de desligar. Off. Para algumas coisas. E On para outras. E andamos assim. No switch. E o switch é bom. É verdadeiramente bom. Porque, sob a égide de todos os clichés, ao desligar-me de determinadas coisas, sinto mais vontade para me ligar a outras. Desconectar-para-reconectar. [com o que faz mais sentido].

Eu agradeço imenso a preocupação e o carinho que algumas pessoas têm vindo a demonstrar desde que revelei que estava doente. Revelei-o porque o blogue sempre foi um blogue sobre a minha vida e portanto, escrever funcionava bastante bem como terapia. No entanto, por exemplo, hoje em dia, se me afasto das redes sociais, recebo sempre uma ou outra mensagem com o intuito de avaliar o meu estado de saúde... e isso, às vezes, é destabilizador. [embora as pessoas possam não o saber]. É destabilizador porque eu passo a vida a avaliar o meu estado de saúde. Porque sempre que acordo tenho de me encher de coragem para pôr os pés no chão. Porque tenho de me dizer todos os dias, vá tu consegues... são só 20 metros e não te vai acontecer nada. Ou seja, a ansiedade dos outros não me ajuda. É por isso que eu escolho o Off. Como escolhi tantas outras coisas ao longo deste processo. Faz parte. Escolher continua a ser dos melhores direitos que nós temos.

Sempre que falo em redes sociais, lembro-me, bastante, do meu ex-namorado. Da batalha terrível que foi provar-lhe que uma foto, de nós os dois, juntos, no facebook não mudava em nada a nossa relação. Para ele sim. Para mim não. E portanto, não havendo foto de nós os dois juntos, não houve também relação (pr'a muito tempo). Eu não sou o tipo de pessoa que aprecie (e valorize) declarações públicas. P'ra mim é importante o que as pessoas são, de verdade, no dia a dia, pese a todas as fotos bonitas (ou não) que gostam de expor. Continuo a acreditar em coisas tão extintas como a felicidade indeclarável. E a solidariedade não comunicada. Tudo o que ultrapassar isso pode cair, facilmente, no extremo da vaidade. Ainda que nos faça bem, bastante bem, sermos vaidosos.

Há uma frase, com a qual me encontrei, no inicio desta (última) aventura, que me ficou. Your mind will always believe everything you tell it. Feed it faith. Feed it truth. Feed it with love. Eu sempre fui péssima em matéria de nutrição. Feliz, ou infelizmente, nenhum desses alimentos estão nas redes sociais. Switch mode is on.

#a vida aos 30

Pedigree

sábado, janeiro 21, 2017

Então é assim. Bebo 4 chás por dia. (por agora são estes os eleitos). Verde, Equinácea, Gengibre e Hibisco, e, Erva Príncipe. [a este último gosto de chamar-lhe chá de São Príncipe, sempre é mais romântico... é que erva Príncipe soa-me a daninho e... urtigas, ao pé da porta, a gente não quer!]. Não sei muito bem para que é que, na realidade, eles servem... mas diz que são bons porque evitam o envelhecimento das células, previnem infecções e inflamações, e ainda dão um ligeiro conforto quando estamos meias desarranjadas do estômago. [o de Gengibre e Hibisco uma pessoa não pode abusar porque ele levanta a pressão arterial]. Tem esse inconveniente. Assim como o Verde. São verdadeiras poções mágicas. Para além dos chás, bebo ainda entre 1.5l a 2l de água e um batido de abacate e toranja, (que sabe a laranja azeda...muitooo azeda), recomendado pelo nutricionista de um ginásio nos subúrbios de Odivelas onde anda um amigo meu. [a parte dos "subúrbios de Odivelas" é só mesmo para gozar com o meu amigo]. O batido, esse, serve para limpar o fígado

Por falar em bebedeiras (ou estados letárgicos). Andava a tomar, também, uns drops para dormir. [é que à noite a máquina trabalha em sobre-esforço como vocês sabem]. Mas eles acabaram-se. E eu decidi ver como é que a coisa se dava. [até porque o fígado precisa de descanso desta vida (da droga)]. Oh la la, loucas são as noites. Especialmente nos dias em que faço a quimioterapia intravenosa. Um shot de Vincristina equivale a uma noitada no Lux... até ao meio-dia. Não havia de sair de lá muito bonita. [no mínimo, de gatinhas]. Mas voltava, em grande, aos velhos tempos dos after-hours. Gatas. Gatinhas. Gatinhar. Outro dia consegui fazer pr'aí uns 20 squats! Aqueles agachamentos, muito jeitosos, posição-sanita? Isso mesmo. A ideia era encontrar uns jeans entre a colecção inteira de calças de ganga da minha mãe. Foram 4 tentativas. [o que dá uma média de 5 squats por cada uma, nada mau!]. Para fecharem falta assim... a mesma distância que separa os ilhéus das Cabras. [para quem estiver interessado em conhecer o ilhéu das Cabras, de longe, clique aqui]. Portanto a ir para o Lux, só de leggings... e leggings, lamento informar-vos, não é sequer roupa. Por falar em roupa, continuo a usar extensores nos soutiens. Já consigo, retirá-los, por 60 minutos, mas a mais não me obriguem. As nossas amigas, ao fim de 9 meses, sem suporte, ainda não alcançam os joelhos. [como é que é possível?!]. Hip hip hurra! Hip hip hurra!

O cabelo, está a crescer, a bom ritmo, pelo corpo todo. Isso. Nas respectivas partes em que vocês estão a pensar, igualmente. Esse facto provoca umas comichões inconvenientes. E indiscretas. Acho que até tenho mais cabelo agora do que antes, sinceramente. Posso até imitar a Madonna, se me apetecer. Just do it. E ainda, no outro dia, dei com umas suíças, enormes, assim à beto do Ribatejo, 'tão a ver? P'ró que eu estava guardada. Contudo, a parte de cima, tipo a crista, em tempos, do rico filho Cristiano Ronaldo, não casa muito bem com as suíças dos betos do Ribatejo. Pareço um traçado... mas de elevado pedigree. Suponho que o crescimento, feroz, dos pêlos, se deva, também, ao facto de ter parado com a pílula. [nada que fizesse assim muita falta para falar a verdade]. Apesar de não ter período, garanto-vos que tenho TPM. Crises acentuadíssimas. Umas 3x ao dia. So far, so good. Ah, mesmo que não me maquilhe, ando com blush natural. Suis generis. Sim, umas belas de umas rosáceas, que se exacerbam mais perante os afrontamentos. [e confrontamentos]. Chegam a ser tantos que ando sempre com os óculos meios embaciados. Sempre fui uma mulher de calores. E com calores. Menos nos pés. E nas mãos. Mãos frias, coração quente. Querem ver?

Ora bem e mais? Cuspo, alimentos, quando me dou conta que passam 30 minutos da data final do prazo de validade. [não é etiqueta, é mesmo paranóia]. E ando sempre com um desinfectante anti-bacteriano dentro da mala. Ele há as pessoas que andam com preservativos. [e acho muito bem]. E ele há as pessoas que não conseguem fazer xixi nas casas de banho públicas. Tenho a bóia abdominal pintalgada de nódoas negras. Bastantes. Por causa da Enoxparina, uma injecçãozita diária para diluir o sangue, nada de especial. E tenho de escrever bilhetinhos, tipo com o que vou fazer nos 5 minutos a seguir, porque, por norma, assim que penso, logo me esqueço. Uma boa candidata ao Alzheimer, mas não pr'a já... se for possível. Ainda quero escrever dois ou três livros de memórias. [se não der para escrever, basta-me lembrar delas, enquanto forem boas].

A parte boa, ou não, é que estou drugs free por uma semana. 
Nem sei como é que vai ser a sensação de estar limpa outra vez. Sol de pouca dura. 
[mas a gente aproveita. todas as primaveras. antecipadas. mesmo fora d'época]. 

#notas da redacção

A noite em que Marcelo não tirou selfies

sexta-feira, janeiro 20, 2017

Ainda não vos tinha falado do (nosso) Presidente da República. Faço-o hoje. Não o conheço nem de longe nem de perto, mas... adoro-o. Há várias coisas que lhe invejo. De uma forma saudável. A disponibilidade, visível e palpável, com que nos surpreende todos os dias. [não sei aonde vai buscar tanta energia... e onde recicla, continuamente, a sua predisposição, quase inata, para ouvir]. A capacidade de ser dar aos outros. Não importa quem. O ballet, meticulosamente elegante, através do qual rodopia quando entra em águas turvas. O não receio de ser como é.  Um homem pouco fã de protocolos. Etiquetas. E rótulos. [I've got my eyes on you... não (nos) desiluda(s)].  

Esta coisa de estar debaixo dos holofotes e ser cabeça de cartaz de muitos leads jornalísticos não é pêra doce (com certeza). Não seria, de todo, coisa p'ra mim. Basta-me as inúmeras vezes que dou a cabeça ao talho por escrever o que escrevo, aqui. E isso nem tem comparação. No entanto, como já disse, em outras ocasiões, quem dá a cabeça ao talho por alguma coisa, tem o seu quê de mérito. Terá sempre. E foi ao ler esta noticia sobre Marcelo que me apeteceu tirar dois segundos para vos dizer isto: ainda gosto mais dele por causa da nobreza da sua humildade. Um homem que podia ter a ambição de mudar o mundo, [quem é que nunca a teve?], dá corpo (e robustez) aos headlines da imprensa porque conseguiu convencer dois sem-abrigo a passarem uma noite fora das ruas, gélidas, de Lisboa. 

Se calhar a melhor campanha em que o Presidente da República podia alguma vez ter entrado é mesmo esta. A das coisas simples. Dos afectos. Dos gestos. Sobretudo os gestos. Marcelo trouxe para a política portuguesa o porta estandarte da sensibilidade e... há muito que os portugueses precisavam disso. Desejavam isso. Queriam isso. Sem cair no exagero dos esoterismos baratos. Utilizei o exemplo do Presidente, por ele encerrar em si todas estas coisas que me parecem importantes sinalizar... mas podia ter recorrido a outras pessoas. Não tão iluminadas, (vá), mas suficientemente comprometidas a fazer o mesmo: mudar a vida do próximo. Nem que esse próximo seja apenas um. Um num dia. Um numa semana. Um num mês. Um no ano. Esse uno é uma partícula tão importante quanto o conjunto de átomos de que o resto do mundo é composto... Essencialmente porque assinala o zero. E porque quando se começa, e se trabalha para fazer a diferença, começa-se daí mesmo. Do zero.

Acho que às vezes nos amedrontamos com a enormidade dos números. Dos plurais. Dos múltiplos. Vivemos, agoniados, colados às estatísticas. E aos resultados (numéricos). Esperamos que sejam eles a validar-nos. E isso é tão, mas tão errado... Quando eu trabalhei na loja de soutiens e cuecas, eu era obrigada a apresentar bons resultados. Mas verdade seja dita, o comercialismo não faz parte do meu ADN. Nunca fez. Eu esforçava-me para apresentar bons resultados porque era isso que me pediam. Agora se vocês me perguntarem onde é que eu ia buscar ânimo para esquecer a foice, mercantilista, encostada às goelas, eu respondo-vos que o ia buscar à fonte. Às clientes. Em particular, àquelas que me diziam que eu lhes tinha mudado a(s) vida(s). Não raras vezes, eu pensava nisso, no absurdo que isso podia representar: como é que um soutien pode mudar assim tanto a vida de uma pessoa? A resposta é simples: nós não sabemos do que é que as pessoas precisam. Nem podemos partir do principio que sabemos. Mas devemos partir do principio, que não podendo mudar o mundo (todo), talvez possamos ajudar alguém... mesmo sem dar-nos conta. 

Uma amiga minha, com quem vivi, e que já tinha trabalhado no comércio (bem) antes de mim deu-me um conselho, bastante sábio, quando me meti na aventura da lingerie. Ela disse-me: as pessoas quando saem, de manhã, de casa, vão sempre à procura de alguma coisa. É exactamente o mesmo quando entram numa loja. É completamente verdade. Nós vivemos concentrados na supressão das nossas necessidades, embora nos esqueçamos delas, regularmente. No entanto, não nos podemos esquecer, também, que não somos só uma fonte de necessidades. Podemos ser os pingos de chuva pelos quais alguém espera... e esse cruzamento, feliz, entre tempestades, deixa razões de sobra para valorizarmos a nossa existência. E a dos outros. Eu pensei, durante muito tempo, que não precisava assim tanto das minhas clientes. Nem das minhas colegas. Nem das pessoas que se esforçavam para entrar no meu mundo. Fechado pr'a obras. Pensei errado. 

Marcelo faz-nos olhar para as pequenas coisas. Do seu jeito próprio. Pertinente. Entusiasta. Penso que apesar da idade, e do vasto currículo profissional, vê-se-lhe no rosto o óbvio: ele (ainda) não se cansou das pessoas. Ele (ainda) tem esperança. E (ainda) acredita na superação. E no bem. Sobre o mal. E tomara que todos nós tivéssemos a serenidade (e a inteligência) que ele parece ter para entender o quanto isso é importante. 

#a vida aos 30

Dos impasses burocráticos da vida

quinta-feira, janeiro 19, 2017

Estava aqui a pensar... Em quê? Nos 30s. [sempre pensei muito neles, não se nota?]. Apesar de existirem muitas idades difíceis na vida de uma mulher, os 30s, parecem-me, sem dúvida, uma das mais complicadas. Concordam comigo ou nem por isso? E, eu já pensava isto antes de me ter acontecido o que aconteceu. De qualquer das formas, não sinto, nem estabeleço, relação directa entre uma coisa e a outra. O meu cancro não veio piorar os meus 30s. Gosto de pensar que não. Veio, sim, chocalhar com as coisas... Mas quem é que não precisa de um bom chocalhanço de vez em quando? Olhem, eu precisava, e muito. No entanto, não leiam isto como a apologia da doença, porque, obviamente, não o é.

Lancei o desafio às minhas amigas mais próximas. Pessoas com quem gosto, genuinamente, de conversar. São todas extremamente diferentes e é nisso que reside a riqueza das nossas trocas de ideias. Perguntei-lhes que confrontos interiores é que os 30s lhes tinham trazido e elas puseram a boca no trombone. A primeira ideia que ficou foi a de portas a fecharem-se. E é verdade. Por exemplo, na área profissional. No acesso a programas de incentivo. No requerimento de apoios financeiros. Os 30s são um grande impasse burocrático. Portanto, está na altura de lembrar quem olha para eles como um critério de selecção, que os 30s são os novos 20s, um bocadinho inflacionados. Convenhamos, não se pode oferecer o mesmo a uma pessoa de 25 e de 30. Afinal de contas, são 5 anos de diferença, a ralar no bem bom da vida. Isso deve contar para qualquer coisinha. Chama-se acknowledge. E é mais caro que a ingenuidade dos 20s. [ingenuidade boa... e em certa medida, nostálgica]. Os 30s podem tornar-nos mais cinzentões, mas olhem para mim... Ainda não desisti do Pulitzer. Just kidding.

Depois vieram as questões formais. Chapa 5. Insensatas. O modo e estilo de vidas. O estado civil. O relógio biológico. A descida, abrupta, do colagénio. Digo insensatas porque, porventura, não vale a pena perdermos muito tempo a pensar nelas. Bom, não é bem isto. Pensar até podemos pensar, mas não devemos viver carrascos delas. Eu acho que os 30s são particularmente difíceis porque são, por excelência, a idade das categorias. Tudo tem de caber numa determinada gaveta. Tudo tem de ter um fit perfeito. [quando se trata de roupa, convém que tenha]. E os 30s também são padrastos. Se não forem os outros, a pressionarem-nos para escolher uma divisão, somos nós a enfiarmo-nos no armário. Resumindo, ganha-se a noção, amarga, de que se perdeu, efectivamente, uma parte da liberdade. Isso até pode nem ser verdade. [espero bem que não!]. Mas que acontece, acontece. Até aos melhores.

E de repente, o curso da estória mudou. As minhas amigas começaram a falar dos ganhos. Mais dos ganhos do que das perdas. Dos benefícios que os 30s tinham trazido. E eu comecei a prestar muita atenção àquilo que elas iam dizendo. De facto, ninguém chega aos 30s em boa forma. A escalada até lá, é assim, um bocadinho, como atingir o sopé do Evereste, mas com uma diferença bastante demarcada dos 20s. Aos 30 sabe-se, melhor, aonde se põe os pés. E se os queremos pôr. E isso é uma clarividência muito, muito feliz. Podem existir alguns erros pelo caminho. [esses vão sempre fazer parte da caminhada]. Mas à medida que sentimos a pressão de ir atrás do flow convencional das massas, (a par e passo da carneirada), também começamos a sentir a necessidade, premente, de seguir o que vem lá do fundinho das nossas entranhas. E as nossas entranhas fizeram-se para muitas coisas. Não são apenas, edificações orgânicas, pré-concebidas, para a maternidade. E também não vos digo isto apenas, e tão só, porque a fertilidade pode ter os dias contados para mim. Desde que comecei a escrever que sempre o defendi.

Fiquei tão orgulhosa das minhas meninas! Inchada de tanto orgulho. Não só porque as conheço. E porque sei o que tem sido os últimos anos das vidas delas. Mas também porque lhes vejo mais fortes do que aquilo que eram antes. E se calhar, as idades vindouras vão ser sempre isso. Grandes turbulências, que servem, em parte, para restaurar as melhores capacidades (e dons) que temos. No fim disto tudo, sabem o que é que eu acho? Acho, muito sinceramente, que aos 30, uma mulher não deve (ter de) pedir desculpa por aquilo que lhe apetecer mandar à merda. Não tem mesmo. Não tem de justificar-se. Muito menos perante aqueles que não lhe dizem nada.

Os 30s também nos aproximam mais do espelho. Do reflexo. Da verdade. Começamos a ganhar uma consciência diferente. Do mundo. E de nós. Começamos a aceitar-nos. Como gente de carne e osso. Imperfeita. Começamos a perceber que talvez seja mais importante perdoar-nos os nossos erros do que perdoarmos os dos outros. E começamos a perceber que também precisamos deles. Que nenhum homem ou mulher é uma ilha. Encerrados em si mesmos. Dizem que é isto o crescer. A maturidade. Talvez não se distancie muito... na verdade. Os meus 30s começaram à pouco tempo e vocês não imaginam de quantas formas eu já os vi (e vivi), mas, para vos ser sincera, aos dias de hoje, (re)monto o puzzle todo de forma diferente. Nem tudo o que foi mau, foi mau. E essa é, definitivamente, a melhor parte de envelhecer. O tempo é mesmo o melhor remédio. 
One day at time

#a vida aos 30

Tudo por uma boa história

quarta-feira, janeiro 18, 2017

A propósito deste livro, (que a Wook ou a Esfera dos Livros podiam, amavelmente, enviar-me para casa), lembrei-me de uma estória minha, jornalística e... fatídica. Aconteceu muitos anos antes de eu me ter enfiado numa loja a vender soutiens. [isso deve querer dizer qualquer coisa, certo?]. Deram-me um trabalho para fazer. E lá fui eu à "cata" das respectivas personagens que iriam compor o ramalhete. Tinha de falar com várias pessoas, portanto comecei a corrente energética do bem pelos... amigos-dos-amigos. [mas os amigos-dos-amigos nem sempre safam a malta]. Tive de contactar alguns desconhecidos. Pseudo-desconhecidos. [já vão entender porquê]. Troquei uns emails, aqui e ali, e claro... fiz mal o trabalho de casa. [também já vão perceber porquê].

Marquei data e hora para uma entrevista e quando cheguei ao local... tam tam tam tam... descobri que o entrevistado era um affair, juvenil, de uma noite. Meu, claro. Mas... acalmem-se lá suas beatas indignadas. O que é que vocês acham que "affair-juvenil-de-uma-noite", A.M, (antes do novo milénio), significa? Vocês não percebem nada disto.  Ou então já não se lembram. Eu recordo-vos. Significa, acima de todas as outras "ló-ku-ras", dançar um slow, daqueles bem entra p'ra dentro, (de emoção, obviamente!), na pista claustrofóbica da discoteca mais suis generis que alguma vez vocês possam ter imaginado. [sim, incluía bolas de espelhos na decoração]. Significa também a declaração óbvia de segundas intenções. Regadas a Vodka Smirnoff. Ambas terríveis. Outra vez? [vocês hoje estão mesmo impossíveis]. Para que fique claro, de uma vez por todas, as minhas segundas intenções eram nóbeis. Disse-lhe, ao ouvido, ainda vou ganhar um Pulitzer. Talvez seja por isso que as minhas relações nunca deram muito certo... Tudo eu, tudo eu, tudo eu. 

E ali estava, diante dele, o Pulitzer. Em pessoa. Enfiado numa saia-justa. [eu juro que me vou chatear convosco]. Saia-justa. A situação. Não a minha roupa. Com trabalho eu não brinco. [era bom que fosse (totalmente) verdade]. Começámos a falar com cordialidade. No registo politicamente correcto. Sem dar bandeira... Porque na realidade, ela já tinha sido dada, não é verdade? Bem dizia um professor meu, da faculdade, que a gente não devia nunca apagar contactos. Por acaso, acho que nem lhe cheguei a pedir o dele, (o do affair), mas que nos podem valer muito a pena, lá isso podem. Nem que seja para nos poupar um pouco de dignidade. Os 30s são lixados. [ora se não são]. Uma pessoa corre o risco de olhar para trás e perceber que virou anedota.

A culpa disto tudo foi da mãe dele. Sim, da mãe dele. A mãe do filho. A senhora não devia ver telenovelas. [não via de certeza]. Se o affair-juvenil-de-uma-noite A.M se chamasse Diego, Santiago, Enzo, Kévim ou Cristiano uma pessoa não se esquecia dele, assim, com tanta facilidade. Por acaso vocês sabem quantos João Pedros e Pedro Miguéis existem em Portugal? [por acaso havia um Pedro Miguéis assim p'ró conhecido... cantava uns slows manhosos, em português, daqueles (que não) entra(m) pr'a dentro, não se lembram?]. As mães a (auto)flagelarem as minhas relações... desde que imaginaram uma pessoa, como eu, no mundo. Um dia a gente ajusta contas suas delatoras. E esqueçam lá, o vosso nome, no discurso de agradecimento do Pulitzer. [cá se fazem, cá se pagam]. Tenho dito.

#vamos matar o bicho

Isse tá a correr bem?

terça-feira, janeiro 17, 2017

O homenzinho, com o seu "boné da América", à moda terceirense, e camisa de flanela xadrez, entrou na sala do terror, [desculpem a descrição, mas ontem eu não estava muito católica quando fui ao hospital de dia fazer quimioterapia]. Deu-me um bom dia envergonhado e sentou-se no cadeirão ao meu lado. Tirou o telemóvel do bolso e avisou alguém, isto hoje é só lá pr'á uma e tal. [eram 11:30]. Arrumou-o. Olhou para mim. Olhou em frente. Olhou para mim. Olhou em frente. Ganhou coragem. E que tal, "isse" tá a correr bem? Na verdade, com a inquietação com que eu estava, apeteceu-me dizer-lhe "isse" é uma merda sinhô, mas sorri-lhe, com os olhos, e respondi está.

Notava-se-lhe a vontade, sincera, em partilhar. Fico farto destas consultas... Uma pessoa espera tante tempo, entra lá dentro (no consultório), e tá dois três minutos, nim siqué aquece lugar. Às vezes nem há muita conversa. Fala-se da bola. E óh dipois aqui... hoje é coisa p'ra duas horas. O dia fica logo meio ao contrário. Mas bom, não me dói nada. Isse é o principal. Também já penei o meu bocado. Tive lá fora 5 meses. Estou aqui há 3 anos. Tive dois AVCs. E foi eu e a minha mulhé ao mesmo tempe. E a sua esposa? A minha esposa já faleceu. E vive sozinho? Não. Tem dois piquenos. Um com 34 e outro com 24. Começou no esófago. E agora diz que é nos pulmões. O senhor fumava? [chutei-lhe]. Fumava. Ainda fuma? [hesitou antes de responder]. Fumo lá de vez em quando. Pr'a matar o desconsolo... C'mássim o mal já tá feito. Isse não presta mais. O tempo na tá muito bum hoje. Tá mau. Dizem que lá pr'a quarta-feira fica bom. Tem uma melhoria.

Este homenzinho trazia qualquer coisa de especial nele. Talvez a capacidade, [e a força], de dividir comigo um peso, que ontem, estava um bocadinho... mais pesado. Não lhe falei dos meus 9 meses. Era peso a mais. P'rós dois. Mas queria muito continar a vê-lo, nos próximos... anos. Sem dores. Obviamente. Como alguém me disse, "isse" é uma doença de paciência. [e de nervos]. Mas sobretudo paciência. Ninguém entra p'ra consulta calmo e sereno. É um exercício constante a luta contra a ansiedade. Talvez seja por isso que a gente fuma um cigarrinho de vez em quando, enquanto pergunta ao vizinho do lado, isse tá a correr bem? Sempre que falo com pessoas destas, (que me encostam a um canto e me fazem descer à terra), percebo que antes da doença não olhava c'moédade, [como é dado], para os outros. Não com a compaixão com que o faço agora. [e que quase todo o ser humano merece]. 

A enfermeira, que estava com ele, colocou-lhe a quimioterapia e ele voltou a resmungar sobre o tempo que ia ter de ficar à espera. Impaciente. Insatisfeito. Inquieto. Inconsolável. Disfarçadamente. [éramos dois a sentir o mesmo]. A enfermeira, que estava comigo, a retirar-me o cateter periférico para eu poder seguir viagem, (entrei às 09.00 saí às 12:00), comentou este senhor quando chega já vem com vontade de sair... 
E quem é que não chega (já) com vontade de sair?

#a vida aos 30

Sim, aceito

segunda-feira, janeiro 16, 2017

Ao longo da minha vida eu divorciei-me de várias coisas. Cozinha. Ginásio. Livros. Não necessariamente por esta ordem. Entre outras. Há coisas que exigem muito de nós. [oh se não as há]. Tempo. Paciência. Entrega. Quando se combinam, entre si, estes três pós de perlimpimpim, consegue-se olhar para determinados assuntos litigiosos com outros olhos. E disposição. Quando nós fazemos coisas por obrigação, das quais não gostamos, corremos o sério risco de contaminar o resto, que nos resta, com esse mal-querer generalizado. [believe me]. Como diria o outro, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Temos que ser todos, um bocadinho, como Moisés. Separar águas. E seguir caminho. [nem sempre é fácil].

A parte boa dos divórcios é que a gente se pode casar outra vez!!! E eu, ao fim de alguns anos, reconciliei-me com os livros. Fui-me deixando dessas coisas porque não tinha tempo. [desculpa óbvia]. Nem estabilidade emocional e saúde mental para o fazer. Ler, para mim, não é algo que se possa fazer com leviandade. Ler é uma experiência e como todas as outras experiências, nós temos de a querer. Antes de eu adoecer, era o trabalho. Sobretudo o trabalho. O namorado. E a vida doméstica. As folgas eram destinadas a reabastecer o frigorífico e a casa com bens de primeira necessidade, e a tornar-me um ser humano, visualmente, mais apetecível [cabelo, unhas, depilação, etc]. Lia... uma ou duas revistas femininas e pouco mais [e deixei de as comprar porque não faziam parte do meu orçamento mensal]. Como diria uma amiga minha, de Lisboa, existem pessoas cujos maiores luxos são o equivalente a comprar um croissant simples no Eric Kaiser. Vidas.

Quando adoeci, as pessoas, ofereceram-me imensos livros. Uma outra amiga, entrou-me pelo quarto do hospital dentro com um saco de supermercado cheio de livros. Distribuí-os pelos colegas e disse-lhes depois vocês contam-me as estórias. Ela não ficou chateada. [não se preocupem]. Ela é daquelas que já assinou o contrato de casamento há muito tempo. Portanto, é na alegria e na tristeza... No bom e no mau feitio. Vale tudo. Livros de auto-ajuda é que não. Não leio. Não gosto. Não consumo. São incompatíveis com o meu ADN. Por isso é que é tão difícil uma pessoa continuar a namorar livros. Nunca se sabe se eles cumprem com aquilo que prometem... e se acrescentam alguma informação nova à já adquirida.

No entanto, antes de 2016 terminar, mesmo ali nos últimos dias de Dezembro, consegui ler 3 livros e começar um 4º. [tenho tempo, de sobra, e ainda não fiz as pazes nem com a cozinha nem com o ginásio]. Levei a coisa em frente. Modo desafio pessoal. Se eu podia ser uma pessoa mais ponderada, equilibrada e linear, podia... mas não era a mesma coisa. Sou de extremos. Ou se calhar não. Há quem consiga ler muito mais e em simultâneo. [o que é obra!]. Eu não gosto de misturar títulos. Tenho receio que uma pessoa a ler mais do que um livro ao mesmo tempo não consiga saborear completamente a mensagem de cada um. É um bocadinho como o vinho. 

O que se passa é que acho que me apaixonei por um livro... E está a custar-me terminá-lo. [são muitos divórcios no lombo, pah]. Ando a procrastinar a leitura das últimas 5 páginas porque sei que me vai deixar saudades. De repente, dei por mim a chorar com ele. E a rir com ele. E completamente siderada pela pessoa que o escreveu. E isso não acontecia há muito tempo. Queria explicar-vos isto em português, mas não consigo encontrar melhor expressão do que esta, first feelings. Que é mais ou menos sentir uma coisa que já se sentiu antes, mas como se fosse a primeira vez. Wow! Admirável mundo novo. Se calhar, a leitura é isso mesmo. A prova de que num mundo em que tudo, ou quase tudo, é reciclável, o sentir também o é. P'ra nossa grande alegria. 

#a vida aos 30

Ragazza

sábado, janeiro 14, 2017

O que aconteceu foi isto. CC entra no supermercado. Assim pela fresca, cedinho, depois de ter ido ao hospital fazer as análises de rotina semanais. [uma entrada mais ou menos ao estilo do black friday, mas sem o mesmo nível de entusiasmo]. CC entra disfarçada de pinguim. Casaco. Cachecol. Gorro. E máscara. [calma minha gente, eu não ando a pensar no Carnaval, e se andasse, acreditem, havia de ter muito suor à mistura e dois ou três pés de samba]. A máscara é mais ou menos a distância de segurança que se deve manter das pessoas que espirram pulmões. Aliás, toda a gente, no seu perfeito juízo, (como se diz aqui na terra), devia usar máscara quando estivesse com bichezas potencialmente transmissíveis. [como vocês não usam, eu que tenho um sistema imunitário mais fraco, uso]. Para me proteger... porque a única coisa que vos posso transmitir é apenas o mau-feitio.

CC começa a correr nos corredores, tipo barata tonta. Espaços públicos dão-me ansiedade. Sempre me deram. É por isso que eu não sou muito de ir a manifestações sociais colectivas. Tipo concertos, festivais e seus derivados. [até teatro]. Sim, tenho medo de gente. [determinada gente]. E sim, sou anti-social. Bastante. E depois dos 30s, quando uma pessoa se vê a exercitar o pensamento baseado na quantidade de bactérias que as nabiças ou o abacate podem ter, é natural que os afrontamentos surjam. Foi uma maratona conseguir enfiar tudo dentro do cesto no menor espaço de tempo possível. Mas enfim, o exercício físico recomenda-se às pessoas na pré-menopausa. Nada como experimentar.

Lanço-me para a zona das caixas de pagamento e fico a aguardar na fila. Duas caixas abaixo dou com um amigo de adolescência. De óculos de sol. Em pleno supermercado. [sempre achei uma falta de educação as pessoas que se dirigem a outras de óculos de sol, mas vai na volta, o moço sofre de fotofobia e tem de andar assim]. Aceno-lhe. E ele retribui. Começa, entretanto, a falar comigo. Eu acho que fiquei meia surda desde que comecei a quimioterapia, mas os médicos garantem que não. Aproximei-me. Trocámos um dedo mindinho e meio de conversa. Sempre de óculos de sol. Ele. CC paga, depois de ter que dar o número de contribuinte à senhora da caixa três vezes. [a culpa não foi dela. a quimio também afecta a memória, para quem não sabe]. Agarra no saco, e alcança, feliz, a porta de saída. Papa mobil on the go e casa.

Alguns minutos mais tarde, CC recebe mensagem no telemóvel. Gostei de te ver [ok, tudo bem, aceitável a tentativa de ser simpático] apesar de só te ter visto os olhos [hummm, vá, benefício da dúvida em relação ao humor do jovem]. Podemos pensar que das várias interpretações possíveis, poderíamos estar diante de um convite, subtil, a um Carnaval antecipado. Hei, amigo, aqui no meu terreiro só samba quem eu quero. Mas isso é outra conversa. Decidi ser cordial (como só eu sei ser). Não te preocupes... ainda tenho dentes. Claro. Foi mais forte do que eu. E olhem que eu até corro para não ver pessoas, mas... elas atravessam-se no meu caminho. Passado algum tempo, nova mensagem. Continuas bonita. Os homens. E os seus timings. Perfeitos.

Há uns anos atrás, quando (ainda) existia a revista Ragazza (lembram-se?!), fiz um quizz daqueles muito parvos para descobrir onde é que ia encontrar o-homem-da-minha-vida. Querem saber qual foi o resultado? No supermercado, claro está! Eu não considerei irrealista e até acreditei na sua possível concretização. [oh, se não havia de acreditar]. Eu não gosto de supermercados. Mas gosto de comer. Aonde é que vão as pessoas que gostam de comer? Ao supermercado. Vêem... há uma força maior que conspira para que tudo faça sentido. Bom, para primeira tentativa, não correu assim tão mal. Da próxima vez que voltar a uma superfície comercial, vou considerar a hipótese de tomar um Prozac antes não vá o instinto de abalroar alguém com um carrinho de compras ser mais forte do que eu. Afinal de contas, está em jogo um conto de fadas.

#notas da redacção

A ginecologia de uma profissão

sexta-feira, janeiro 13, 2017

A respeito de só agora se ter voltado a organizar um congresso de jornalistas no nosso país, (18 anos depois do último), vou contar-vos uma estória, (baseada em factos verídicos), para vocês poderem perceber melhor o que é ser jornalista num país à beira mar plantado. [tanto quanto sei, nos outros países, a situação actual dos jornalistas é ligeiramente diferente]. Eu tinha pouco mais de 20 anos quando isto aconteceu, portanto não foi assim há tanto tempo... Foi pelo menos há menos tempo do que o tempo que levou alguém a denunciar a vida de prostituição a que estão sujeitos muitos jornalistas em Portugal. 

Eu trabalhava no Rádio Clube Português. Em Lisboa. E fui a uma consulta de rotina... na ginecologista. [escolhia-a no catálogo de médicos que o seguro de saúde me enviou para casa]. Entrei. Sentei-me. E a médica pediu-me a informação necessária para abrir a minha ficha de paciente. Depois disso, convidou-me a deitar-me na marquesa [não sei se existe outro nome técnico para aquele engenho fabuloso onde uma mulher se abre ao mundo]. Começou o exame. A senhora doutora estava entretida com os seus afazeres quando se lembrou de tirar a cabeça de onde a tinha enfiada e perguntar-me: "então, o que é que faz?"

Eu acho que os médicos, às vezes, e apenas alguns, têm uns desbloqueadores de conversa muito infelizes. Parti do principio que era uma pergunta sem rasteira, e respondi-lhe: "sou jornalista". A senhora doutora voltou a erguer a cabeça dos confins do universo, pr'a lá de onde se deu o big bang, olhou-me por cima dos seus semi-óculos transparentes, e exclamou com uma grandessíssima cara de enfado (para não lhe chamar desprezo): "ah, essas profissões modernas". Eu não quis responder-lhe à letra, não fosse ela espetar-me onde não devia. [convenhamos, eu não estava numa posição muito confortável]. Mas fiquei a pensar seriamente no caso. E na atitude. Até hoje.

Infelizmente, eu temo que o que esta senhora doutora pensa dos jornalistas possa ser, efectivamente, uma generalização do que pensam outras pessoas. Pessoas essas, sem distinção, para quem os jornalistas trabalham. Eu lamento, imenso, [a sério que lamento], ter desperdiçado a minha média de 17, escolhendo ser jornalista e não médica. Com mais um bocadinho de esforço, eu tinha chegado lá. Mas a questão... é que eu não queria passar a vida com a cabeça enfiada em sítios obscuros nem envolvida em questões cabeludas. No entanto, os jornalistas acabam, muitas vezes, em situações piores do que essas. E não percebo a diferença. [juro que não percebo]. Porque é que as profissões modernas não podem ser tão bem vistas, (e valorizadas), como as outras? Comuns. Necessárias. Importantes. Em última análise, é o moderno que move o mundo. E fá-lo avançar.

Eu não escolhi (nem estudei para) trazer bebés ao mundo. [verdade seja dita]. Escolhi estudar, e paguei as propinas do meu curso como qualquer outro estudante de outro curso qualquer, para poder fazer do mundo um lugar melhor para eles. Mas isso não é lá grande coisa, pois não? É apenas moderno. Demasiado romântico para ser levado a sério. Eu sei. No entanto... ainda bem que alguém se lembrou que as quengas de serviço estão cansadas.

#notas da redacção

P.s - I love you

quarta-feira, janeiro 11, 2017


A América nunca me seduziu. Da minha bucket list não fazem parte as selfies no Central Park, nem os copos de café XL do Starbucks. [apesar de eu gostar MUITO de café]. Eu nunca fui à América. Aquela parte da canção dos Azeitonas, Mulher tu sabes o quanto eu te amo| O quanto eu gosto de ti| Nem que eu morra aqui| Se um dia eu não te levo à América| Nem que eu leve a América até ti... nunca ninguém ma cantou. Eu sou mais mediterrâneo. E está óptimo... porque, entrar, num avião, e ficar lá fechada 10 horas, acho que nunca mais me apanham nessa. Aliás, nem sei quando é que me apanham num avião. [stress pós-traumático].

A eleição de Barack Obama para 44º presidente dos Estados Unidos da América faz parte das minhas memórias. Das mais excitantes. Lembro-me de tentar contornar o sono, na ânsia de saber se a América seria capaz de eleger o primeiro afro-americano para o cargo. Só descobri no dia seguinte. Sussurrei um damn it. [com sotaque terceirense]. Crescia um sonho. Com ele. Obama. Como motor. E protagonista.

Não sei se ele foi bom ou mau para a América porque eu não vivi lá. A mim, directamente, ele não me fez nada. [embora, tenha, interferido, em muitas decisões que acabaram por dizer respeito a todos nós]. Eu olho mais para o Obama como homem e não como presidente. E como homem, posso dizer-vos que quase me apaixonei por ele. Primeiro, pelo facto dele ser canhoto. [eu também sou]. Achei logo que tínhamos muito em comum. Depois, a forma, sincera, com que ele sempre deixou Michelle brilhar. E terceiro, a naturalidade que lhe sai pelos poros, mesmo quando tudo é estratégia ou campanha de marketing. [sim, não raras vezes me imaginei uma Olivia Pope pronta para salvar o presidente da América dos maiores escândalos]. Sonhar não custa. E foi isso que Obama nos deu. Vos deu. Penso eu.

Emocionei-me ao ver o último discurso dele enquanto presidente. [mas, também, eu emociono-me com tudo até com o Alta Definição]. E imagino que para a audiência presente também tenha sido muito difícil conter as lágrimas. Obama é daqueles homens interessantes com quem apetece conversar largas horas. [e eu gostava muito de tê-lo feito]. Era isso e assistir a um concerto da Tina Turner. Recordo-me de várias coisas que ele fez e que andaram nas bocas do mundo, como aquela foto em que ele se deita no chão da sala oval para brincar com uma criança, mas há uma em particular, que me enternece o coração.

Não sei se vocês conhecem o Humans of New York, [se não conhecem cliquem aqui]. O Humans of New York é um projecto fotográfico em que Brandon Staton apanha estranhos na rua, fotografa-os, e conta as suas estórias, ou o que sentem naquele fragmento de tempo. Uma vez Brandon fotografou uma jovem, e transcreveu para o facebook o que ela lhe disse. Uma das coisas que ela lhe confidenciou é que se sentia feia e que não encaixava neste mundo. Obama respondeu: you're beautiful. Aliás, os comentários do presidente tornaram-se um habitué na página de Brandon. Estratégia? Provavelmente. Boa? Sem sombra de dúvida.

Penso que ele não precisava disto para chegar mais perto dos seus eleitores. [não é disso que se trata]. Para isso ele tinha as visitas, os comícios, as festas, as conferências de imprensa. Os americanos não precisavam disto. De um comentário numa caixa de facebook para conhecer melhor o seu presidente. Mas... O mundo. O mundo precisava. O mundo precisava muito disto. E Obama fê-lo. Enquanto humano... de Nova Iorque e de todo o resto. Estou cheia de saudades. Muitas. Por várias coisas. Pela nostalgia que arruma sempre a um canto a despedida das pessoas que nos inspiram. [e pela possibilidade de eu nunca vir a ser uma Olivia Pope]. Sim. Porque se até agora eu não cruzei o atlântico para salvar Mr. President, não é daqui pr'a frente que o vou fazer. 

Lets make America great again? Eu diria que ela foi apetecível [e fabulosa] até agora, mas o senhor que lhe segue é que sabe. Esperemos. Para ver. E antes que eu me esqueça: Obama, I love you.
P.s - I will always do.

Foto: ©REUTERS/Kevin Lamarque
[na última visita de Obama à base das Lajes]

#notas da redacção

Democracia

terça-feira, janeiro 10, 2017

Morreu um homem. Um homem, que provavelmente, teve outras causas que não o uso indevido da internet. Para mim a política é coiso, como vocês devem saber [se (ainda) não sabem, leiam isto]. A política é. Mas as pessoas não. E o homem que morreu foi uma pessoa. Boa ou má, depende de cada um de vocês. Mas a subjectividade do adjectivo com que o caracterizam não lhe retira a condição de pessoa.

Eu tenho sérios problemas com a invenção do Sr.º Zuckerberg. [sérios]. Agrada-me que ela tenha proporcionado reencontros entre pais e filhos, irmãos, amigos e que tenha sido o veículo mais rápido para dar voz a várias iniciativas louváveis, mas não me agrada (nada) que tenha vindo expor a mediocridade humana. Dizem que é assim nas democracias. Por isso, temo que tenha de aceitá-lo.

Faz-me confusão que toda a gente tenha algo a dizer sobre tudo. Sobre a camada de ozono, o buraco negro, a vida em Marte. Faz-me confusão que as pessoas que tenham algo a dizer sobre este homem, [ou sobre outras pessoas], façam parte de um grupo de gente que não sabe distinguir a diferença entre "concelho" e "conselho". Nos cursos de marketing a diferença é clara: o facebook serve para promover e vender. E, na minha opinião, devia-se ficar por aí. E não querendo, parecer, uma ditadora, também se deviam fazer uns testes, tipo acesso ao código de estrada, a quem o quisesse usar... Apenas e só, para limitar o respectivo uso indevido.

Mas bom, não há legislação. E se houvesse, nós com certeza saberíamos como contorná-la. Oh, se não saberíamos. Eu ainda sou do tempo, em que os magníficos professores de português que eu tive, me obrigavam a ir de dicionário para as aulas. Mandavam-me sublinhar as palavras que desconhecia e em seguida procurá-las no livro gordo, pejado de letras pequenas. Foi assim que nasceu o meu gosto pela pesquisa. Primeiro pelas palavras. Depois pelos factos. Mais tarde pelas estórias. Eram um desafio. Ainda hoje o são. Os livros, que leio, continuam cheios de palavras sublinhadas. Nunca mais me saiu do corpo esta mania. [mania boa].

Faz-me imensa confusão que as pessoas precisem de se amigar umas às outras sem se conhecerem. Faz-me imensa confusão que as pessoas precisem de dizer o quanto são felizes e bem sucedidas. Faz-me imensa confusão que falem de quem não conhecem. Faz-me imensa confusão que exerçam a crítica e o elogio falsos. Faz-me imensa confusão que um ecrã de computador se tenha tornado mais importante do que a vida. E sim. Eu tenho um blogue porque sim. [e porque faz parte do meu trabalho]. E mando as postas de pescada que me apetece. Quando me apetece. E o Sr.º Zuckerberg não me deixa apagar a minha página pessoal do facebook porque eu tenho a página do CC. [caso contrário, o facebook, para mim, já era]. Portanto, não sei, se perceberam a ideia. Is overrated. (não sabem o que significa?! vão ao dicionário!)

Morreu um homem. Cuja única referência que eu tenho dele é o facto do meu pai usar o seu bom nome para baptizar indivíduos com bochechas frondosas. Um homem que provavelmente fez muitas coisas más. Mas, que para além delas, também era amado por alguns. Não é isso que todos nós somos? Gente que comete erros, mas não se resume apenas aos seus erros? Não sei se a democracia com que Mário Soares sonhava era esta. A das pessoas que escrevem hoje, no facebook, "morreu um grande ladram". Ou então, a das pessoas que dizem, "já devia ter ido á sinquenta anos". Lamento que o social se tenha tornado um lugar de culto do ódio. Lamento. Mesmo.

#vamos matar o bicho

Amaragem

segunda-feira, janeiro 09, 2017

Eu não escrevo desde que me conheço. Escrevo desde que a pulsão pelo existencialismo me seduziu. [maldita hora]. A infinita colecção de cadernos, brancos, sem linhas, começou por volta dos 14 anos. Foi nessa altura, a caminho do 9º ano, que decidi, depois de ter namorado outras opções, que aquilo que eu queria ser era jornalista. A partir daí, até ter terminado a faculdade, nunca tive dúvidas. [hoje, tenho algumas]. Obviamente.

Já fui jornalista de televisão. Já fui jornalista de rádio. Mas nunca fui jornalista de imprensa. [eu, que gosto mesmo de escrever]. A razão desse não-ser é resultado de várias coisas. Primeiro, das circunstâncias. Depois, do resto. Acho que nunca quis ou tentei ser jornalista de imprensa escrita por medo. [tem-se sempre muito medo daquilo que se gosta, de verdade]. E porque percebi, cedo, que o jornalismo era imperfeito. E tão pouco aquilo que eu tinha imaginado dele. É por isso que guardei a escrita para a poder exercer em liberdade, sem ter que sujeitá-la a um número certo de caracteres.

A televisão nunca me disse nada. Por isso, não é de estranhar que a 1ª vez que trabalhei em televisão, não o fiz em jornalismo, mas sim em produção. Já na altura da rádio me tinham tirado da informação, para me colocar, justamente, na produção. Eu sou, definitivamente, uma mulher de backstage. Gosto de criar coisas. Desenvolver conceitos. [contar estórias]. Ser a responsável pelo mise-en-scène dos dias. E da vida. Sou uma fazedora. Sempre fui. Serei, enquanto puder. Mesmo fora do jornalismo, foi essa a pele que vesti em todos os projectos aos quais me dediquei. Comprometi-me a ajudar outros na persecução dos sonhos deles. E acho que fiz um bom trabalho. [fizemos].

Ter-me dedicado aos sonhos dos outros foi divertido. [apesar de todos problemas e dores de cabeça que herdei]. Mas... ter-me dedicado, aos sonhos dos outros, durante alguns anos, fez-me pôr de lado algumas coisas que eu queria fazer. Em nome próprio. [a coragem que tinha para convencer os outros de que as coisas iam dar certo, não era a mesma que tinha quando os outros passavam a ser eu]. As zonas de (des)conforto são (bastante) difíceis de evitar. Não foi preciso ter adoecido para perceber isso, mas ter ficado doente tornou-o, mais nítido. Não sei quais são os planos Dele pr'a mim... mas vamos tentar chegar a um acordo. Benéfico. Para ambas as partes.

Isto tudo p'ra quê e porquê? É simples. Às vezes sinto que vocês vêm até aqui para ler a miúda-mulher que teve-tem cancro. E eu preciso chamar-vos à atenção, que para além disso, sou mais. Não sei se estou a ser justa. Se estou a chamar à atenção quem devo chamar. Naturalmente, quem precisa de sentir que é mais do que a doença, sou eu. Por isso me digo, [vos digo], que a escrita sempre me acompanhou. Principalmente, durante as maiores tempestades da minha vida. Certo. Mas também nos dias de amaragem. E de bonança. E é nisso que me quero, e preciso, focar.

A vida, no seu estado mais periclitante, continua. Mas eu não quero que os meus textos traduzam só isso. Quero (e preciso) que eles se dispam dos pesos e vistam outras peles. Acho que consigo fazer-vos rir. [e olhem que fazer rir é bem mais difícil do que fazer chorar]. Acho que consigo fazer uso do sarcasmo de uma forma própria. Acho que consigo brincar com a ironia, sem ofender. Não estranhem se daqui em diante aparecerem outras coisas nos meus textos que não só o cancro. Se agora, por força maior, tenho tempo, [reparem em como a ironia me resulta fácil], então vou experimentar um bocadinho de tudo aquilo que me apetece. E a escrita, como prolongamento, será também reflexo disso.

Gosto de pensar que a vossa lealdade é infinita, mas não posso exigir-vos isso. [ser-se leal é uma coisa complicada]. Desejo, que me leiam, independentemente das minhas dores. Desejo muito. E espero que se divirtam tanto quanto aquilo que eu acho que me vou divertir ao escrever sobre a vida (que existe) [fora dos corredores dos hospitais]. Ladies and gentlemans, may you please fasten your seat belts. [tinha jeitinho para aeromoça, não tinha?]. Não. Nem por isso.

#vamos matar o bicho

Geringonça (hein?!)

quinta-feira, janeiro 05, 2017

E pronto. É isto. Uma pessoa dá uma hipótese ao discernimento [e bom gosto] dos portugueses e eles, prevaricam contra a carta branca que se lhes alforriou, dando um tiro nos pés. Geringonça. Eleita palavra do ano. 2016. [valha-nos Deus]. Cumprindo a tradição da elegância e glamour de outros precedentes ("esmiuçar" em 2009, "vuvuzela" em 2010, "entroikado" em 2012). 

Não sei que vos diga. Para mim, Geringonça, é o (mesmo) que é para a Maria Leal. [não viram a entrevista do 5 para a Meia-Noite? deviam ter visto. grande Maria. grande Filomena. em vez disso andavam todos nos copos]. É coiso. Isso mesmo coiso. A Maria Leal disse que a política, para ela, era coiso. And I totally agree. Mas, vamos lá esmiuçar a coisa. De todas as explicações que aparecem no dicionário para Geringonça, aquela que me parece melhor é esta: aparelho ou mecanismo de construção complexa. No entanto, quando penso em Geringonça, visualmente, penso numa máquina, difícil de operar. E esse é o único ponto de vista que pode fazer apropriar-me da palavra que os portugueses elegeram como palavra do ano.

2016 foi exactamente isso. Um ano difícil de operar. De onde muito de nós queríamos saltar. Assim tipo Brexit. Para um honroso 3º lugar. [mas, apesar das dificuldades, podemos chamar-lhe coisas mais bonitas, não podemos?]. Portanto, soltem as vuvuzelas e comecem a fazer barulho. À campeão mesmo. 2º lugar que afinal foi 1º. [mas não ao pé de mim, está bem?]. A mim, também me pediram para eleger uma palavra. Tchanaaam! Eu já tinha a coisa assim mais ou menos preparada, portanto, não foi difícil de escolher, nem foi precisa a ajuda do público. [nem a eloquência do tio Paulinho (Portas)].

Posso assegurar-vos que a palavra que escolhi é uma coisa tão difícil de operar quanto o é a dita Geringonça [que boa parte dos portugueses, entroikados, nem deve conhecer]. E também posso adiantar-vos que a Geringonça não tem contribuído lá grande coisa para o exercício pleno da (minha) palavra. Tem sido preciso muito combustível e muito óleo nas dobradiças para fazer esta máquina andar. [sem coligações].


Simples. Não é? A minha palavra do ano, (2016), não podia ser outra. Quando o fotógrafo me desafiou a escrever na ardósia, ficaram todos muito expectantes. Demorei 2 segundos. Virei o quadro para a câmara fotográfica. Vi-lhes alguma decepção no rosto. Eu que escrevo tanto, disse tão pouco. [será que é assim tão pouco?]. Não há Geringonça maior do que esta. Assim, de repente, não me parece uma palavra boa apenas para o ano que ficou para trás. Parece-me, também, uma excelente palavra para 2017. Comecemos pelo fim. 
Por aqui, já estamos habituados.

#a vida aos 30

Helena Isabel

quarta-feira, janeiro 04, 2017

Diz que a passagem de ano foi no sofá. [nestas idades, quando não se tem fígado decente, e quando se consome drogas, variadas, ao desbarato, mais vale não cometer excessos, porque em excesso, ando eu, o ano todo]. Não havendo nada melhor para ver, caí na tentação de sintonizar o canal 4. [que eu tanto adoro]. E, enquanto o relógio não confirmava que eu, efectivamente, tinha conseguido chegar a 2017, decidi dar uma hipótese aos portugueses. Sim. Aos portugueses. Porque em relação aos programas do canal e à Teresa Guilherme já estamos conversados. [ah, não se lembram. eu recordo-vos. está tudo aqui].

Diz que este último reality-show(o secret story 6), foi dos piorzinhos. [tão piorzinho, que já ponderam substituir a Teresinha pela Tininha]. Outro amor de perdição que eu tenho. Portanto, se for, realmente, para continuar na mesma direcção, parece-me que estão, de facto, no bom caminho. A única pessoa que lucra com a troca é obviamente a Micaela Oliveira que vai ter de puxar muito pela cabeça para fazer mais 3 mil vestidos transparentes. [a Teresinha até tentou, mas não resultou]. No entanto, não nos desviemos da questão principal.

Ganhou a Helena Isabel. E, mesmo sem ter seguido o programa, [e não digo isto para parecer iluminada], ela era, sem dúvida, a minha preferida. No entanto, as audiências de Domingo à noite da ilustre autora do CC foram todas para o The Voice Portugal. [que, nesta edição, não surpreendeu horrores, e que se a produção não fizer nada, bate no piorzinho qualquer dia]. Infelizmente, no The Voice Portugal, o meu preferido não ganhou. Reconheço o esforço e dedicação do Fernando Daniel. A música corre-lhe nas veias, mas ele é demasiado Tony Carreira para mim. Criança que fui e homem que sou, e nada mudou. [além de me soar fanhoso quando o vejo nas entrevistas]. A gente embirra sempre com quem não gosta. Estava a torcer pelo Francisco Murta. [estava a torcer tanto que até votei!]. Eu sou assim... Porque, como diziam os sábios, quem não sente não é filho de boa gente.

Aos sábados à noite, estou vidrada no Shark Tank. Não por causa dos negócios, (que não são negócios), que aparecem por lá, mas sim por causa dos tubarões. Que também não são tubarões porque, pelo que ouvi dizer, não investem (realmente) nada. Mas adoro. Volto a reforçar a ideia. Adoro. O João Rafael Koehler. Ele vai directo ao assunto. Todos vão. Mas ele vai de uma forma tipo penso rápido. Zás! Já foste(s). Quando o homem fala, os pseudo-empresários que lá vão entram em modo manequim-challenge. Ninguém mexe. É bom demais para se perder.

Bom dado, que agora, os leitores já conhecem as minhas rotinas televisivas... Ah, é verdade. Esqueci-me das Kardashians. [nada como ser eclético, minha gente]. É um reality show, sem qualificação possível, mas esse eu sigo. [a verdade, eu digo sempre]. Ora então, voltemos ao princípio. Ganhou a Helena Isabel. E a coisa ficou um bocado definida logo de inicio... o que tramou os planos da produção. A TVI aposta muito no fazer render o peixe... e perde por isso. Ainda assim, eu queria manifestar o meu profundo agrado para com os portugueses. [pelo menos os que votaram na Helena Isabel]. Foi a candidata mais votada de todos os programas do género. Porquê? Ora meus amigos... porque foi, literalmente, a primeira mulher, não transexual, com tomates, a entrar na casa. 

Os vencedores nunca agradam a toda a gente. [acontece o mesmo com os programas de televisão]. E com as apresentadoras e apresentadores. Agora quem anda por aí a dizer que a Miss Helena Isabel tem falta de personalidade, está com certeza, um bocadinho equivocado. [e nisto, tenho de dar a mão à palmatória, e concordar com o Quintino...o que eu nunca pensaria vir a fazer]. Falta de personalidade é seguir a matilha e... Esta mulher, cheira-se ao longe. Tem perfil de líder e não de subordinada. [dentro das suas fragilidades naturais]. Se calhar foi por isso que nem a produção, nem os adversários, nem a própria Teresa, deram conta dela, mas ela... deu conta de todos. Que sirva de lição.

#uma açoriana em lisboa

XII

terça-feira, janeiro 03, 2017

Para lerem o artigo com melhor resolução, podem aceder ao site do Açoriano Oriental, clicando aqui.

#a vida aos 30

(Re)soluções de ano novo

segunda-feira, janeiro 02, 2017

Ora bem... Combinar, melhor, sem dúvida, a cor das cuecas com a do soutien. [a batuta, óbvia, dos conjuntos, não se fez para mim]. I was born to be wild. Choquem-se caros leitores. Logo eu, que trabalhei tanto tempo como consultora de lingerie. [até cheguei a ser responsável pela secção da cueca!]. Meus amigos, quando vocês, nas vossas vidas, chegarem a responsáveis pela secção da cueca, pára tudo! [vocês não vão querer outra coisa]. Mas, como muita gente me disse, (e ainda diz), "Deus dá as batalhas mais difíceis aos seus melhores soldados". Não aprendi nada com a das cuecas. Sou um flop. [digno de um Óscar].

Deixar de beber (tanto) bagaço. [o fígado está um bocado despachado]. Se soubesse que ia precisar dele, no futuro, 100% operacional, juro que o tinha poupado durante as crises existenciais da adolescência. [que duraram até pouco antes dos 30s]. Agora eu e o álcool (man)temos uma relação de cão e gato... Ups, enganei-me. É mesmo só de gato. Porque tal como os gatos, no que toca a álcool, eu só posso molhar a língua. Upa Upa. Se ficar melhor, estraga. [não mexe mais, pleaseeee]. Esta última parte foi a sério.

Atingir, finalmente, o objectivo de uma vida: as sobrancelhas da Frida Kahlo. [está quase! não fosse eu ter lapidado, ao longo do tempo, com a minha mão esquerda, metade dos pêlos mais importantes]. A Frida Kahlo para mim, não só é uma das mulheres mais inspiradoras da História, como também é um ícone de estilo. [vão lá enfiar flores na cabeça como ela enfiava e digam-me quem é que tem ou não tem atitude]. Será que ela combinava a cor das cuecas com a do soutien? Não me parece senhora disso. Frida rocks!

Transformar-me num unicórnio. [and slap all the bitches in the house]. Isto porque há que rentabilizar a crina, branca, que me está a nascer no meio da testa. E corno por corno, ao menos que seja um, assim... em grande. Aliás, sempre gostei de póneis. E de cavalos. [não sei porque é que me lembrei disto]. Um dos sonhos da minha vida era ter um... Mas, tal como não tenho jeito para combinar a cor das cuecas com a do soutien, também não tenho jeito, nenhum, para a equitação. Eu é mais saltar paredes por atalhos e maus caminhos. ["sempre que a hemoglobina me quiser"]. É que levantar uma perninha exige, actualmente, tanto esforço como correr uma maratona. Por falar em sonhos... também quis ser patinadora artística. [mas esta conversa fica para outro dia]. Artista eu sou. E patinado também tenho patinado. Mas ainda não patinei de vez. LOL. [piada fácil mesmo a pedi-las].

Escrever sem ironia, sarcasmo, ou figuras de estilo da minha própria auto-recriação. [esta é a (re)solução das (re)soluções]. Tão difícil como combinar cuecas e soutiens. Passemos à frente. A atalhar caminho. Parar de escrever português do Brasil quando me comunico com alguém que está no Brasil. [esta coisa de imitar o Ricardo Pereira, irrita-me um bocado]. Mas é mais forte do que eu. Sempre foi. Peço sempre desculpa porque podem pensar que é a gozar, mas não é. Os brasileiros tem uma forma de falar que é foda. E eu sei lá... identifico-me. Caraca!

Conseguir cantar a letra de uma música, do principio ao fim, sem ter feito uma versão nova da própria. [naaaa não vos vou dizer o que é que eu cantava antes de descobrir que o refrão desse grande hit dos Soca Boys era "follow the leader"]. Nunca foi boa ovelha. Não gosto muito de ir atrás de ninguém. Nem que ninguém venha atrás de mim. Só se for gente boa, se não... tenho de desmontar do unicórnio para um tête-à-tête. Acabar o Siddhartha. [até agora (ainda) não percebi porra nenhuma do livro]. E o Arquipélago do Joel Neto. [bem que a Terra-Chã podia ser mais pequena, aqueles Dois Caminhos têm cabo de mim].

Vá, digam lá, vocês achavam que isto ia ser um post sério, não achavam?! As (re)soluções de ano novo são como os pensos higiénicos da Ausonia. Não havendo outros, melhores, uma pessoa tinha de se conformar... e passar o dia a disfarçar. [ainda bem que inventaram o termo "slim" senão, ainda hoje, estaríamos numa baita de uma saia-justa]. Sejam fazedores. Sim, como o gajo, ou gaja, que inventou os pensos higiénicos slim. Ele, (ou ela), não deve ter escrito na lista de (re)soluções de ano novo "inventar penso higiénico confortável para as mulheres, compatível com o uso de leggings opacas". Inventou e pronto. É isso. Inventem. E concretizem. [ou vou ter de desmontar outra vez do unicórnio, no meu fato de patinadora artística, para chocalhar com vocês um bocado?!].

P.s - a Frida também era moça de bigodes, não era?