A ginecologia de uma profissão

sexta-feira, janeiro 13, 2017

A respeito de só agora se ter voltado a organizar um congresso de jornalistas no nosso país, (18 anos depois do último), vou contar-vos uma estória, (baseada em factos verídicos), para vocês poderem perceber melhor o que é ser jornalista num país à beira mar plantado. [tanto quanto sei, nos outros países, a situação actual dos jornalistas é ligeiramente diferente]. Eu tinha pouco mais de 20 anos quando isto aconteceu, portanto não foi assim há tanto tempo... Foi pelo menos há menos tempo do que o tempo que levou alguém a denunciar a vida de prostituição a que estão sujeitos muitos jornalistas em Portugal. 

Eu trabalhava no Rádio Clube Português. Em Lisboa. E fui a uma consulta de rotina... na ginecologista. [escolhia-a no catálogo de médicos que o seguro de saúde me enviou para casa]. Entrei. Sentei-me. E a médica pediu-me a informação necessária para abrir a minha ficha de paciente. Depois disso, convidou-me a deitar-me na marquesa [não sei se existe outro nome técnico para aquele engenho fabuloso onde uma mulher se abre ao mundo]. Começou o exame. A senhora doutora estava entretida com os seus afazeres quando se lembrou de tirar a cabeça de onde a tinha enfiada e perguntar-me: "então, o que é que faz?"

Eu acho que os médicos, às vezes, e apenas alguns, têm uns desbloqueadores de conversa muito infelizes. Parti do principio que era uma pergunta sem rasteira, e respondi-lhe: "sou jornalista". A senhora doutora voltou a erguer a cabeça dos confins do universo, pr'a lá de onde se deu o big bang, olhou-me por cima dos seus semi-óculos transparentes, e exclamou com uma grandessíssima cara de enfado (para não lhe chamar desprezo): "ah, essas profissões modernas". Eu não quis responder-lhe à letra, não fosse ela espetar-me onde não devia. [convenhamos, eu não estava numa posição muito confortável]. Mas fiquei a pensar seriamente no caso. E na atitude. Até hoje.

Infelizmente, eu temo que o que esta senhora doutora pensa dos jornalistas possa ser, efectivamente, uma generalização do que pensam outras pessoas. Pessoas essas, sem distinção, para quem os jornalistas trabalham. Eu lamento, imenso, [a sério que lamento], ter desperdiçado a minha média de 17, escolhendo ser jornalista e não médica. Com mais um bocadinho de esforço, eu tinha chegado lá. Mas a questão... é que eu não queria passar a vida com a cabeça enfiada em sítios obscuros nem envolvida em questões cabeludas. No entanto, os jornalistas acabam, muitas vezes, em situações piores do que essas. E não percebo a diferença. [juro que não percebo]. Porque é que as profissões modernas não podem ser tão bem vistas, (e valorizadas), como as outras? Comuns. Necessárias. Importantes. Em última análise, é o moderno que move o mundo. E fá-lo avançar.

Eu não escolhi (nem estudei para) trazer bebés ao mundo. [verdade seja dita]. Escolhi estudar, e paguei as propinas do meu curso como qualquer outro estudante de outro curso qualquer, para poder fazer do mundo um lugar melhor para eles. Mas isso não é lá grande coisa, pois não? É apenas moderno. Demasiado romântico para ser levado a sério. Eu sei. No entanto... ainda bem que alguém se lembrou que as quengas de serviço estão cansadas.

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1 comments

  1. O post anterior está fantástico e digo-lhe, adorei o Obama como gostava de ir a um concerto da mulher das pernas mais belas do mundo.
    Depois, já fui aos EUA apenas porque a minha sobrinha viveu lá dois anos, aproveitei o convite que me fez, foi uma oportunidade.
    Agora, há 6 anos no Rio, acredita que não me apetece fazer 10 h de viagem?
    Nesta altura está cá em Portugal,regressa no próximo dia 6 de Fevereiro, já me falou em meter-me no avião e visitar aquela linda cidade, não vá regressar um dia ( quem me dera que ela regressasse já amanhã).
    Quanto a este fabuloso post, a médica seria, certamente, passada dos fusíveis.
    Os médicos consideram-se os senhores das profissões.

    Beijinho



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