A noite em que Marcelo não tirou selfies

sexta-feira, janeiro 20, 2017

Ainda não vos tinha falado do (nosso) Presidente da República. Faço-o hoje. Não o conheço nem de longe nem de perto, mas... adoro-o. Há várias coisas que lhe invejo. De uma forma saudável. A disponibilidade, visível e palpável, com que nos surpreende todos os dias. [não sei aonde vai buscar tanta energia... e onde recicla, continuamente, a sua predisposição, quase inata, para ouvir]. A capacidade de ser dar aos outros. Não importa quem. O ballet, meticulosamente elegante, através do qual rodopia quando entra em águas turvas. O não receio de ser como é.  Um homem pouco fã de protocolos. Etiquetas. E rótulos. [I've got my eyes on you... não (nos) desiluda(s)].  

Esta coisa de estar debaixo dos holofotes e ser cabeça de cartaz de muitos leads jornalísticos não é pêra doce (com certeza). Não seria, de todo, coisa p'ra mim. Basta-me as inúmeras vezes que dou a cabeça ao talho por escrever o que escrevo, aqui. E isso nem tem comparação. No entanto, como já disse, em outras ocasiões, quem dá a cabeça ao talho por alguma coisa, tem o seu quê de mérito. Terá sempre. E foi ao ler esta noticia sobre Marcelo que me apeteceu tirar dois segundos para vos dizer isto: ainda gosto mais dele por causa da nobreza da sua humildade. Um homem que podia ter a ambição de mudar o mundo, [quem é que nunca a teve?], dá corpo (e robustez) aos headlines da imprensa porque conseguiu convencer dois sem-abrigo a passarem uma noite fora das ruas, gélidas, de Lisboa. 

Se calhar a melhor campanha em que o Presidente da República podia alguma vez ter entrado é mesmo esta. A das coisas simples. Dos afectos. Dos gestos. Sobretudo os gestos. Marcelo trouxe para a política portuguesa o porta estandarte da sensibilidade e... há muito que os portugueses precisavam disso. Desejavam isso. Queriam isso. Sem cair no exagero dos esoterismos baratos. Utilizei o exemplo do Presidente, por ele encerrar em si todas estas coisas que me parecem importantes sinalizar... mas podia ter recorrido a outras pessoas. Não tão iluminadas, (vá), mas suficientemente comprometidas a fazer o mesmo: mudar a vida do próximo. Nem que esse próximo seja apenas um. Um num dia. Um numa semana. Um num mês. Um no ano. Esse uno é uma partícula tão importante quanto o conjunto de átomos de que o resto do mundo é composto... Essencialmente porque assinala o zero. E porque quando se começa, e se trabalha para fazer a diferença, começa-se daí mesmo. Do zero.

Acho que às vezes nos amedrontamos com a enormidade dos números. Dos plurais. Dos múltiplos. Vivemos, agoniados, colados às estatísticas. E aos resultados (numéricos). Esperamos que sejam eles a validar-nos. E isso é tão, mas tão errado... Quando eu trabalhei na loja de soutiens e cuecas, eu era obrigada a apresentar bons resultados. Mas verdade seja dita, o comercialismo não faz parte do meu ADN. Nunca fez. Eu esforçava-me para apresentar bons resultados porque era isso que me pediam. Agora se vocês me perguntarem onde é que eu ia buscar ânimo para esquecer a foice, mercantilista, encostada às goelas, eu respondo-vos que o ia buscar à fonte. Às clientes. Em particular, àquelas que me diziam que eu lhes tinha mudado a(s) vida(s). Não raras vezes, eu pensava nisso, no absurdo que isso podia representar: como é que um soutien pode mudar assim tanto a vida de uma pessoa? A resposta é simples: nós não sabemos do que é que as pessoas precisam. Nem podemos partir do principio que sabemos. Mas devemos partir do principio, que não podendo mudar o mundo (todo), talvez possamos ajudar alguém... mesmo sem dar-nos conta. 

Uma amiga minha, com quem vivi, e que já tinha trabalhado no comércio (bem) antes de mim deu-me um conselho, bastante sábio, quando me meti na aventura da lingerie. Ela disse-me: as pessoas quando saem, de manhã, de casa, vão sempre à procura de alguma coisa. É exactamente o mesmo quando entram numa loja. É completamente verdade. Nós vivemos concentrados na supressão das nossas necessidades, embora nos esqueçamos delas, regularmente. No entanto, não nos podemos esquecer, também, que não somos só uma fonte de necessidades. Podemos ser os pingos de chuva pelos quais alguém espera... e esse cruzamento, feliz, entre tempestades, deixa razões de sobra para valorizarmos a nossa existência. E a dos outros. Eu pensei, durante muito tempo, que não precisava assim tanto das minhas clientes. Nem das minhas colegas. Nem das pessoas que se esforçavam para entrar no meu mundo. Fechado pr'a obras. Pensei errado. 

Marcelo faz-nos olhar para as pequenas coisas. Do seu jeito próprio. Pertinente. Entusiasta. Penso que apesar da idade, e do vasto currículo profissional, vê-se-lhe no rosto o óbvio: ele (ainda) não se cansou das pessoas. Ele (ainda) tem esperança. E (ainda) acredita na superação. E no bem. Sobre o mal. E tomara que todos nós tivéssemos a serenidade (e a inteligência) que ele parece ter para entender o quanto isso é importante. 

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1 comments

  1. Fico sem palavras ( mas com tanto para escrever) quando leio estes seus belos textos.

    Beijinho

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