Amaragem

segunda-feira, janeiro 09, 2017

Eu não escrevo desde que me conheço. Escrevo desde que a pulsão pelo existencialismo me seduziu. [maldita hora]. A infinita colecção de cadernos, brancos, sem linhas, começou por volta dos 14 anos. Foi nessa altura, a caminho do 9º ano, que decidi, depois de ter namorado outras opções, que aquilo que eu queria ser era jornalista. A partir daí, até ter terminado a faculdade, nunca tive dúvidas. [hoje, tenho algumas]. Obviamente.

Já fui jornalista de televisão. Já fui jornalista de rádio. Mas nunca fui jornalista de imprensa. [eu, que gosto mesmo de escrever]. A razão desse não-ser é resultado de várias coisas. Primeiro, das circunstâncias. Depois, do resto. Acho que nunca quis ou tentei ser jornalista de imprensa escrita por medo. [tem-se sempre muito medo daquilo que se gosta, de verdade]. E porque percebi, cedo, que o jornalismo era imperfeito. E tão pouco aquilo que eu tinha imaginado dele. É por isso que guardei a escrita para a poder exercer em liberdade, sem ter que sujeitá-la a um número certo de caracteres.

A televisão nunca me disse nada. Por isso, não é de estranhar que a 1ª vez que trabalhei em televisão, não o fiz em jornalismo, mas sim em produção. Já na altura da rádio me tinham tirado da informação, para me colocar, justamente, na produção. Eu sou, definitivamente, uma mulher de backstage. Gosto de criar coisas. Desenvolver conceitos. [contar estórias]. Ser a responsável pelo mise-en-scène dos dias. E da vida. Sou uma fazedora. Sempre fui. Serei, enquanto puder. Mesmo fora do jornalismo, foi essa a pele que vesti em todos os projectos aos quais me dediquei. Comprometi-me a ajudar outros na persecução dos sonhos deles. E acho que fiz um bom trabalho. [fizemos].

Ter-me dedicado aos sonhos dos outros foi divertido. [apesar de todos problemas e dores de cabeça que herdei]. Mas... ter-me dedicado, aos sonhos dos outros, durante alguns anos, fez-me pôr de lado algumas coisas que eu queria fazer. Em nome próprio. [a coragem que tinha para convencer os outros de que as coisas iam dar certo, não era a mesma que tinha quando os outros passavam a ser eu]. As zonas de (des)conforto são (bastante) difíceis de evitar. Não foi preciso ter adoecido para perceber isso, mas ter ficado doente tornou-o, mais nítido. Não sei quais são os planos Dele pr'a mim... mas vamos tentar chegar a um acordo. Benéfico. Para ambas as partes.

Isto tudo p'ra quê e porquê? É simples. Às vezes sinto que vocês vêm até aqui para ler a miúda-mulher que teve-tem cancro. E eu preciso chamar-vos à atenção, que para além disso, sou mais. Não sei se estou a ser justa. Se estou a chamar à atenção quem devo chamar. Naturalmente, quem precisa de sentir que é mais do que a doença, sou eu. Por isso me digo, [vos digo], que a escrita sempre me acompanhou. Principalmente, durante as maiores tempestades da minha vida. Certo. Mas também nos dias de amaragem. E de bonança. E é nisso que me quero, e preciso, focar.

A vida, no seu estado mais periclitante, continua. Mas eu não quero que os meus textos traduzam só isso. Quero (e preciso) que eles se dispam dos pesos e vistam outras peles. Acho que consigo fazer-vos rir. [e olhem que fazer rir é bem mais difícil do que fazer chorar]. Acho que consigo fazer uso do sarcasmo de uma forma própria. Acho que consigo brincar com a ironia, sem ofender. Não estranhem se daqui em diante aparecerem outras coisas nos meus textos que não só o cancro. Se agora, por força maior, tenho tempo, [reparem em como a ironia me resulta fácil], então vou experimentar um bocadinho de tudo aquilo que me apetece. E a escrita, como prolongamento, será também reflexo disso.

Gosto de pensar que a vossa lealdade é infinita, mas não posso exigir-vos isso. [ser-se leal é uma coisa complicada]. Desejo, que me leiam, independentemente das minhas dores. Desejo muito. E espero que se divirtam tanto quanto aquilo que eu acho que me vou divertir ao escrever sobre a vida (que existe) [fora dos corredores dos hospitais]. Ladies and gentlemans, may you please fasten your seat belts. [tinha jeitinho para aeromoça, não tinha?]. Não. Nem por isso.

Deixe um comentário

4 comments

  1. Os teus textos para mim são palavras de gente real, que passa por situações menos boas, mas também por situações que me fazem rir. Podes ter a certeza que não foste a doença a falar, mas sim uma mulher de coragem que enfrenta os touros pelos cornos!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada MotardWoman! As tuas palavras são muito reconfortantes!
      Às vezes, sinto-me demasiado colada a essa imagem. À imagem da doença. E às vezes, soou-me, a mim própria, demasiado esotérica, tipo mãe de santo. Vamos lá a animar este terreiro :P e começar o forró! Beijinhos

      Eliminar
  2. Leio-a há alguns anos e tudo o que li foi com muito gosto.
    Tive bons momentos de riso, de choro, de reflexão, de percepção do que é a vida dos outros contada pela CC, o cancro, que eu não entendia muito bem, porque nunca ninguém o descreveu tão bem, apesar de ter lido muito sobre este à medida que sabia de casos de pessoas que conheço, ou simplesmente, ler um cantinho tão realista e verdadeiro quanto este.
    Falar do cancro durante este tempo, e continue a falar, é uma aprendizagem, é pensar que um dia nos bate à porta e vamos ter a coragem de lutar e acima de tudo, na minha opinião, falar nele, cancro, sem preconceito.
    É fácil falar, escrever, eu sei, para quem está deste lado e, aparentemente, bem.
    Mas de um dia para o outro tudo acontece e exemplos como o da CC é uma lição para nós. P
    Para mim, é.
    I've fasten my belt.

    Kiss



    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada Maria :) Tenho-lhe muito carinho. Espero que o saiba.
      Beijinho enormeeeee

      Eliminar