Democracia

terça-feira, janeiro 10, 2017

Morreu um homem. Um homem, que provavelmente, teve outras causas que não o uso indevido da internet. Para mim a política é coiso, como vocês devem saber [se (ainda) não sabem, leiam isto]. A política é. Mas as pessoas não. E o homem que morreu foi uma pessoa. Boa ou má, depende de cada um de vocês. Mas a subjectividade do adjectivo com que o caracterizam não lhe retira a condição de pessoa.

Eu tenho sérios problemas com a invenção do Sr.º Zuckerberg. [sérios]. Agrada-me que ela tenha proporcionado reencontros entre pais e filhos, irmãos, amigos e que tenha sido o veículo mais rápido para dar voz a várias iniciativas louváveis, mas não me agrada (nada) que tenha vindo expor a mediocridade humana. Dizem que é assim nas democracias. Por isso, temo que tenha de aceitá-lo.

Faz-me confusão que toda a gente tenha algo a dizer sobre tudo. Sobre a camada de ozono, o buraco negro, a vida em Marte. Faz-me confusão que as pessoas que tenham algo a dizer sobre este homem, [ou sobre outras pessoas], façam parte de um grupo de gente que não sabe distinguir a diferença entre "concelho" e "conselho". Nos cursos de marketing a diferença é clara: o facebook serve para promover e vender. E, na minha opinião, devia-se ficar por aí. E não querendo, parecer, uma ditadora, também se deviam fazer uns testes, tipo acesso ao código de estrada, a quem o quisesse usar... Apenas e só, para limitar o respectivo uso indevido.

Mas bom, não há legislação. E se houvesse, nós com certeza saberíamos como contorná-la. Oh, se não saberíamos. Eu ainda sou do tempo, em que os magníficos professores de português que eu tive, me obrigavam a ir de dicionário para as aulas. Mandavam-me sublinhar as palavras que desconhecia e em seguida procurá-las no livro gordo, pejado de letras pequenas. Foi assim que nasceu o meu gosto pela pesquisa. Primeiro pelas palavras. Depois pelos factos. Mais tarde pelas estórias. Eram um desafio. Ainda hoje o são. Os livros, que leio, continuam cheios de palavras sublinhadas. Nunca mais me saiu do corpo esta mania. [mania boa].

Faz-me imensa confusão que as pessoas precisem de se amigar umas às outras sem se conhecerem. Faz-me imensa confusão que as pessoas precisem de dizer o quanto são felizes e bem sucedidas. Faz-me imensa confusão que falem de quem não conhecem. Faz-me imensa confusão que exerçam a crítica e o elogio falsos. Faz-me imensa confusão que um ecrã de computador se tenha tornado mais importante do que a vida. E sim. Eu tenho um blogue porque sim. [e porque faz parte do meu trabalho]. E mando as postas de pescada que me apetece. Quando me apetece. E o Sr.º Zuckerberg não me deixa apagar a minha página pessoal do facebook porque eu tenho a página do CC. [caso contrário, o facebook, para mim, já era]. Portanto, não sei, se perceberam a ideia. Is overrated. (não sabem o que significa?! vão ao dicionário!)

Morreu um homem. Cuja única referência que eu tenho dele é o facto do meu pai usar o seu bom nome para baptizar indivíduos com bochechas frondosas. Um homem que provavelmente fez muitas coisas más. Mas, que para além delas, também era amado por alguns. Não é isso que todos nós somos? Gente que comete erros, mas não se resume apenas aos seus erros? Não sei se a democracia com que Mário Soares sonhava era esta. A das pessoas que escrevem hoje, no facebook, "morreu um grande ladram". Ou então, a das pessoas que dizem, "já devia ter ido á sinquenta anos". Lamento que o social se tenha tornado um lugar de culto do ódio. Lamento. Mesmo.

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