Dos impasses burocráticos da vida

quinta-feira, janeiro 19, 2017

Estava aqui a pensar... Em quê? Nos 30s. [sempre pensei muito neles, não se nota?]. Apesar de existirem muitas idades difíceis na vida de uma mulher, os 30s, parecem-me, sem dúvida, uma das mais complicadas. Concordam comigo ou nem por isso? E, eu já pensava isto antes de me ter acontecido o que aconteceu. De qualquer das formas, não sinto, nem estabeleço, relação directa entre uma coisa e a outra. O meu cancro não veio piorar os meus 30s. Gosto de pensar que não. Veio, sim, chocalhar com as coisas... Mas quem é que não precisa de um bom chocalhanço de vez em quando? Olhem, eu precisava, e muito. No entanto, não leiam isto como a apologia da doença, porque, obviamente, não o é.

Lancei o desafio às minhas amigas mais próximas. Pessoas com quem gosto, genuinamente, de conversar. São todas extremamente diferentes e é nisso que reside a riqueza das nossas trocas de ideias. Perguntei-lhes que confrontos interiores é que os 30s lhes tinham trazido e elas puseram a boca no trombone. A primeira ideia que ficou foi a de portas a fecharem-se. E é verdade. Por exemplo, na área profissional. No acesso a programas de incentivo. No requerimento de apoios financeiros. Os 30s são um grande impasse burocrático. Portanto, está na altura de lembrar quem olha para eles como um critério de selecção, que os 30s são os novos 20s, um bocadinho inflacionados. Convenhamos, não se pode oferecer o mesmo a uma pessoa de 25 e de 30. Afinal de contas, são 5 anos de diferença, a ralar no bem bom da vida. Isso deve contar para qualquer coisinha. Chama-se acknowledge. E é mais caro que a ingenuidade dos 20s. [ingenuidade boa... e em certa medida, nostálgica]. Os 30s podem tornar-nos mais cinzentões, mas olhem para mim... Ainda não desisti do Pulitzer. Just kidding.

Depois vieram as questões formais. Chapa 5. Insensatas. O modo e estilo de vidas. O estado civil. O relógio biológico. A descida, abrupta, do colagénio. Digo insensatas porque, porventura, não vale a pena perdermos muito tempo a pensar nelas. Bom, não é bem isto. Pensar até podemos pensar, mas não devemos viver carrascos delas. Eu acho que os 30s são particularmente difíceis porque são, por excelência, a idade das categorias. Tudo tem de caber numa determinada gaveta. Tudo tem de ter um fit perfeito. [quando se trata de roupa, convém que tenha]. E os 30s também são padrastos. Se não forem os outros, a pressionarem-nos para escolher uma divisão, somos nós a enfiarmo-nos no armário. Resumindo, ganha-se a noção, amarga, de que se perdeu, efectivamente, uma parte da liberdade. Isso até pode nem ser verdade. [espero bem que não!]. Mas que acontece, acontece. Até aos melhores.

E de repente, o curso da estória mudou. As minhas amigas começaram a falar dos ganhos. Mais dos ganhos do que das perdas. Dos benefícios que os 30s tinham trazido. E eu comecei a prestar muita atenção àquilo que elas iam dizendo. De facto, ninguém chega aos 30s em boa forma. A escalada até lá, é assim, um bocadinho, como atingir o sopé do Evereste, mas com uma diferença bastante demarcada dos 20s. Aos 30 sabe-se, melhor, aonde se põe os pés. E se os queremos pôr. E isso é uma clarividência muito, muito feliz. Podem existir alguns erros pelo caminho. [esses vão sempre fazer parte da caminhada]. Mas à medida que sentimos a pressão de ir atrás do flow convencional das massas, (a par e passo da carneirada), também começamos a sentir a necessidade, premente, de seguir o que vem lá do fundinho das nossas entranhas. E as nossas entranhas fizeram-se para muitas coisas. Não são apenas, edificações orgânicas, pré-concebidas, para a maternidade. E também não vos digo isto apenas, e tão só, porque a fertilidade pode ter os dias contados para mim. Desde que comecei a escrever que sempre o defendi.

Fiquei tão orgulhosa das minhas meninas! Inchada de tanto orgulho. Não só porque as conheço. E porque sei o que tem sido os últimos anos das vidas delas. Mas também porque lhes vejo mais fortes do que aquilo que eram antes. E se calhar, as idades vindouras vão ser sempre isso. Grandes turbulências, que servem, em parte, para restaurar as melhores capacidades (e dons) que temos. No fim disto tudo, sabem o que é que eu acho? Acho, muito sinceramente, que aos 30, uma mulher não deve (ter de) pedir desculpa por aquilo que lhe apetecer mandar à merda. Não tem mesmo. Não tem de justificar-se. Muito menos perante aqueles que não lhe dizem nada.

Os 30s também nos aproximam mais do espelho. Do reflexo. Da verdade. Começamos a ganhar uma consciência diferente. Do mundo. E de nós. Começamos a aceitar-nos. Como gente de carne e osso. Imperfeita. Começamos a perceber que talvez seja mais importante perdoar-nos os nossos erros do que perdoarmos os dos outros. E começamos a perceber que também precisamos deles. Que nenhum homem ou mulher é uma ilha. Encerrados em si mesmos. Dizem que é isto o crescer. A maturidade. Talvez não se distancie muito... na verdade. Os meus 30s começaram à pouco tempo e vocês não imaginam de quantas formas eu já os vi (e vivi), mas, para vos ser sincera, aos dias de hoje, (re)monto o puzzle todo de forma diferente. Nem tudo o que foi mau, foi mau. E essa é, definitivamente, a melhor parte de envelhecer. O tempo é mesmo o melhor remédio. 
One day at time

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1 comments

  1. Muito bom,CC.
    Os meus trinta não foram em nada diferentes do que a CC e as suas amigas estão a viver.

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