Isse tá a correr bem?

terça-feira, janeiro 17, 2017

O homenzinho, com o seu "boné da América", à moda terceirense, e camisa de flanela xadrez, entrou na sala do terror, [desculpem a descrição, mas ontem eu não estava muito católica quando fui ao hospital de dia fazer quimioterapia]. Deu-me um bom dia envergonhado e sentou-se no cadeirão ao meu lado. Tirou o telemóvel do bolso e avisou alguém, isto hoje é só lá pr'á uma e tal. [eram 11:30]. Arrumou-o. Olhou para mim. Olhou em frente. Olhou para mim. Olhou em frente. Ganhou coragem. E que tal, "isse" tá a correr bem? Na verdade, com a inquietação com que eu estava, apeteceu-me dizer-lhe "isse" é uma merda sinhô, mas sorri-lhe, com os olhos, e respondi está.

Notava-se-lhe a vontade, sincera, em partilhar. Fico farto destas consultas... Uma pessoa espera tante tempo, entra lá dentro (no consultório), e tá dois três minutos, nim siqué aquece lugar. Às vezes nem há muita conversa. Fala-se da bola. E óh dipois aqui... hoje é coisa p'ra duas horas. O dia fica logo meio ao contrário. Mas bom, não me dói nada. Isse é o principal. Também já penei o meu bocado. Tive lá fora 5 meses. Estou aqui há 3 anos. Tive dois AVCs. E foi eu e a minha mulhé ao mesmo tempe. E a sua esposa? A minha esposa já faleceu. E vive sozinho? Não. Tem dois piquenos. Um com 34 e outro com 24. Começou no esófago. E agora diz que é nos pulmões. O senhor fumava? [chutei-lhe]. Fumava. Ainda fuma? [hesitou antes de responder]. Fumo lá de vez em quando. Pr'a matar o desconsolo... C'mássim o mal já tá feito. Isse não presta mais. O tempo na tá muito bum hoje. Tá mau. Dizem que lá pr'a quarta-feira fica bom. Tem uma melhoria.

Este homenzinho trazia qualquer coisa de especial nele. Talvez a capacidade, [e a força], de dividir comigo um peso, que ontem, estava um bocadinho... mais pesado. Não lhe falei dos meus 9 meses. Era peso a mais. P'rós dois. Mas queria muito continar a vê-lo, nos próximos... anos. Sem dores. Obviamente. Como alguém me disse, "isse" é uma doença de paciência. [e de nervos]. Mas sobretudo paciência. Ninguém entra p'ra consulta calmo e sereno. É um exercício constante a luta contra a ansiedade. Talvez seja por isso que a gente fuma um cigarrinho de vez em quando, enquanto pergunta ao vizinho do lado, isse tá a correr bem? Sempre que falo com pessoas destas, (que me encostam a um canto e me fazem descer à terra), percebo que antes da doença não olhava c'moédade, [como é dado], para os outros. Não com a compaixão com que o faço agora. [e que quase todo o ser humano merece]. 

A enfermeira, que estava com ele, colocou-lhe a quimioterapia e ele voltou a resmungar sobre o tempo que ia ter de ficar à espera. Impaciente. Insatisfeito. Inquieto. Inconsolável. Disfarçadamente. [éramos dois a sentir o mesmo]. A enfermeira, que estava comigo, a retirar-me o cateter periférico para eu poder seguir viagem, (entrei às 09.00 saí às 12:00), comentou este senhor quando chega já vem com vontade de sair... 
E quem é que não chega (já) com vontade de sair?

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4 comments

  1. Um post tão doce!
    Quando se entra num laboratório para fazer análises de rotina, mal se entra já se quer sair, imagino a vossa ansiedade.

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    1. É muita. Por vezes, maior que nós próprios, parece que nos vai engolir.

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