Ragazza

sábado, janeiro 14, 2017

O que aconteceu foi isto. CC entra no supermercado. Assim pela fresca, cedinho, depois de ter ido ao hospital fazer as análises de rotina semanais. [uma entrada mais ou menos ao estilo do black friday, mas sem o mesmo nível de entusiasmo]. CC entra disfarçada de pinguim. Casaco. Cachecol. Gorro. E máscara. [calma minha gente, eu não ando a pensar no Carnaval, e se andasse, acreditem, havia de ter muito suor à mistura e dois ou três pés de samba]. A máscara é mais ou menos a distância de segurança que se deve manter das pessoas que espirram pulmões. Aliás, toda a gente, no seu perfeito juízo, (como se diz aqui na terra), devia usar máscara quando estivesse com bichezas potencialmente transmissíveis. [como vocês não usam, eu que tenho um sistema imunitário mais fraco, uso]. Para me proteger... porque a única coisa que vos posso transmitir é apenas o mau-feitio.

CC começa a correr nos corredores, tipo barata tonta. Espaços públicos dão-me ansiedade. Sempre me deram. É por isso que eu não sou muito de ir a manifestações sociais colectivas. Tipo concertos, festivais e seus derivados. [até teatro]. Sim, tenho medo de gente. [determinada gente]. E sim, sou anti-social. Bastante. E depois dos 30s, quando uma pessoa se vê a exercitar o pensamento baseado na quantidade de bactérias que as nabiças ou o abacate podem ter, é natural que os afrontamentos surjam. Foi uma maratona conseguir enfiar tudo dentro do cesto no menor espaço de tempo possível. Mas enfim, o exercício físico recomenda-se às pessoas na pré-menopausa. Nada como experimentar.

Lanço-me para a zona das caixas de pagamento e fico a aguardar na fila. Duas caixas abaixo dou com um amigo de adolescência. De óculos de sol. Em pleno supermercado. [sempre achei uma falta de educação as pessoas que se dirigem a outras de óculos de sol, mas vai na volta, o moço sofre de fotofobia e tem de andar assim]. Aceno-lhe. E ele retribui. Começa, entretanto, a falar comigo. Eu acho que fiquei meia surda desde que comecei a quimioterapia, mas os médicos garantem que não. Aproximei-me. Trocámos um dedo mindinho e meio de conversa. Sempre de óculos de sol. Ele. CC paga, depois de ter que dar o número de contribuinte à senhora da caixa três vezes. [a culpa não foi dela. a quimio também afecta a memória, para quem não sabe]. Agarra no saco, e alcança, feliz, a porta de saída. Papa mobil on the go e casa.

Alguns minutos mais tarde, CC recebe mensagem no telemóvel. Gostei de te ver [ok, tudo bem, aceitável a tentativa de ser simpático] apesar de só te ter visto os olhos [hummm, vá, benefício da dúvida em relação ao humor do jovem]. Podemos pensar que das várias interpretações possíveis, poderíamos estar diante de um convite, subtil, a um Carnaval antecipado. Hei, amigo, aqui no meu terreiro só samba quem eu quero. Mas isso é outra conversa. Decidi ser cordial (como só eu sei ser). Não te preocupes... ainda tenho dentes. Claro. Foi mais forte do que eu. E olhem que eu até corro para não ver pessoas, mas... elas atravessam-se no meu caminho. Passado algum tempo, nova mensagem. Continuas bonita. Os homens. E os seus timings. Perfeitos.

Há uns anos atrás, quando (ainda) existia a revista Ragazza (lembram-se?!), fiz um quizz daqueles muito parvos para descobrir onde é que ia encontrar o-homem-da-minha-vida. Querem saber qual foi o resultado? No supermercado, claro está! Eu não considerei irrealista e até acreditei na sua possível concretização. [oh, se não havia de acreditar]. Eu não gosto de supermercados. Mas gosto de comer. Aonde é que vão as pessoas que gostam de comer? Ao supermercado. Vêem... há uma força maior que conspira para que tudo faça sentido. Bom, para primeira tentativa, não correu assim tão mal. Da próxima vez que voltar a uma superfície comercial, vou considerar a hipótese de tomar um Prozac antes não vá o instinto de abalroar alguém com um carrinho de compras ser mais forte do que eu. Afinal de contas, está em jogo um conto de fadas.

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8 comments

  1. Vá, dá um desconto se vires alguém de oculos de sol e tal.....os meus são graduados e quando dou conta ando com eles dentro do supermercado, só por vejo melhor assim :).....

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  2. Respostas
    1. Obrigada Tatiana, pelo teu contributo na análise desta experiência sociológica de enorme importância :P Vá, uma benesse para distraídos que entram em lugares públicos com óculos de sol postos. Mas, cá entre nós, não achas que ele os podia ter tirado quando falou comigo? Faz-me impressão... Preciso sempre de bater o meu olho na pessoa, tipo assim, máquina RX dos aeroportos.

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    2. Podia sim, era deveras bem mais educado.... Mas encontros no supermercado é filme de domingo à tarde...eh eh eh

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    3. Verdadeiras telenovelas venezuelanas :P

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  3. Tens toda a razão. O rapaz podia e devia ter tirado os óculos. Risca já esse da lista!

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    1. Eram os mínimos exigidos :P Uiii... não há lista.
      Listas são para as eleições...
      Beijinhos

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  4. "... porque a única coisa que vos posso transmitir é apenas o mau-feitio."

    Ahahahaha!


    "

    " [sempre achei uma falta de educação as pessoas que se dirigem a outras de óculos de sol,"
    Odeioooooo!

    " Hei, amigo, aqui no meu terreiro só samba quem eu quero."

    Ahahahahahahah!

    " ista Ragazza (lembram-se?!), fiz um quizz daqueles muito parvos para descobrir onde é que ia encontrar o-homem-da-minha-vida. Querem saber qual foi o resultado? No supermercado, claro está!"

    Quiçá, CC, quiçá!
    (quero saber os pormenores)

    Sabe? Uma ex-colega de trabalho, em dias de sol, estava sempre de óculos em espaço fechado e o que mais me irritava, era vê-la falar com as pessoas com os óculos postos.
    Assim como me irrita ver qualquer funcionário de loja, de repartição pública, com os óculos de sol na cabeça.

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