Sim, aceito

segunda-feira, janeiro 16, 2017

Ao longo da minha vida eu divorciei-me de várias coisas. Cozinha. Ginásio. Livros. Não necessariamente por esta ordem. Entre outras. Há coisas que exigem muito de nós. [oh se não as há]. Tempo. Paciência. Entrega. Quando se combinam, entre si, estes três pós de perlimpimpim, consegue-se olhar para determinados assuntos litigiosos com outros olhos. E disposição. Quando nós fazemos coisas por obrigação, das quais não gostamos, corremos o sério risco de contaminar o resto, que nos resta, com esse mal-querer generalizado. [believe me]. Como diria o outro, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Temos que ser todos, um bocadinho, como Moisés. Separar águas. E seguir caminho. [nem sempre é fácil].

A parte boa dos divórcios é que a gente se pode casar outra vez!!! E eu, ao fim de alguns anos, reconciliei-me com os livros. Fui-me deixando dessas coisas porque não tinha tempo. [desculpa óbvia]. Nem estabilidade emocional e saúde mental para o fazer. Ler, para mim, não é algo que se possa fazer com leviandade. Ler é uma experiência e como todas as outras experiências, nós temos de a querer. Antes de eu adoecer, era o trabalho. Sobretudo o trabalho. O namorado. E a vida doméstica. As folgas eram destinadas a reabastecer o frigorífico e a casa com bens de primeira necessidade, e a tornar-me um ser humano, visualmente, mais apetecível [cabelo, unhas, depilação, etc]. Lia... uma ou duas revistas femininas e pouco mais [e deixei de as comprar porque não faziam parte do meu orçamento mensal]. Como diria uma amiga minha, de Lisboa, existem pessoas cujos maiores luxos são o equivalente a comprar um croissant simples no Eric Kaiser. Vidas.

Quando adoeci, as pessoas, ofereceram-me imensos livros. Uma outra amiga, entrou-me pelo quarto do hospital dentro com um saco de supermercado cheio de livros. Distribuí-os pelos colegas e disse-lhes depois vocês contam-me as estórias. Ela não ficou chateada. [não se preocupem]. Ela é daquelas que já assinou o contrato de casamento há muito tempo. Portanto, é na alegria e na tristeza... No bom e no mau feitio. Vale tudo. Livros de auto-ajuda é que não. Não leio. Não gosto. Não consumo. São incompatíveis com o meu ADN. Por isso é que é tão difícil uma pessoa continuar a namorar livros. Nunca se sabe se eles cumprem com aquilo que prometem... e se acrescentam alguma informação nova à já adquirida.

No entanto, antes de 2016 terminar, mesmo ali nos últimos dias de Dezembro, consegui ler 3 livros e começar um 4º. [tenho tempo, de sobra, e ainda não fiz as pazes nem com a cozinha nem com o ginásio]. Levei a coisa em frente. Modo desafio pessoal. Se eu podia ser uma pessoa mais ponderada, equilibrada e linear, podia... mas não era a mesma coisa. Sou de extremos. Ou se calhar não. Há quem consiga ler muito mais e em simultâneo. [o que é obra!]. Eu não gosto de misturar títulos. Tenho receio que uma pessoa a ler mais do que um livro ao mesmo tempo não consiga saborear completamente a mensagem de cada um. É um bocadinho como o vinho. 

O que se passa é que acho que me apaixonei por um livro... E está a custar-me terminá-lo. [são muitos divórcios no lombo, pah]. Ando a procrastinar a leitura das últimas 5 páginas porque sei que me vai deixar saudades. De repente, dei por mim a chorar com ele. E a rir com ele. E completamente siderada pela pessoa que o escreveu. E isso não acontecia há muito tempo. Queria explicar-vos isto em português, mas não consigo encontrar melhor expressão do que esta, first feelings. Que é mais ou menos sentir uma coisa que já se sentiu antes, mas como se fosse a primeira vez. Wow! Admirável mundo novo. Se calhar, a leitura é isso mesmo. A prova de que num mundo em que tudo, ou quase tudo, é reciclável, o sentir também o é. P'ra nossa grande alegria. 

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