Social (Media) Detox

sábado, janeiro 28, 2017

A vida tem-me demonstrado que existem determinadas alturas em que não saber, (ou fazer que não se sabe), pode ser, efectivamente, (mais) vantajoso. Não querer saber mais do que aquilo que eu (já) sabia foi a forma mais-perto-do-confortável que utilizei, (e ainda utilizo), para enfrentar a minha doença. A primeira coisa que prometi a mim mesma, no dia em que soube o diagnóstico, foi a de proibir-me de investigar o caso. Eu sou jornalista. Tenho a deformação de profissão de gostar de investigar. E sempre fui hipocondríaca. [e ansiosa vezes 1000]. Ora, esta combinação, quase perfeita, não é assim tão bonita quanto parece. Foi em nome dela que eu decidi proteger-me. Muito por causa do medo da informação... E do impacto que a mesma poderia ter (em mim). 

A verdade é que durante o tempo que estive em tratamento intensivo, na maioria das vezes internada, as redes sociais eram de facto uma companhia... e um meio de comunicação. [cheguei mesmo a dar cabo de duas baterias!]. No entanto, as coisas ou os desafios que requerem agora a minha atenção, ou o meu foco, são outros. Ando a braços com o processo de ganhar confiança, e coragem, para recuperar a minha vida. E isso, como vocês podem imaginar, não é nada fácil. Coisas tão simples como predispor-me a caminhar 20 metros exigem a mobilização de vários instrumentos físicos, psíquicos e emocionais. Nem sempre se consegue articular todos de uma forma harmoniosa... mas a ideia é conseguir caminhar esses 20 metros, custe o que custar. Ultrapassar medos é um exercício de paciência

Agora que a vida, se tornou mais urgente do que todas as outras coisas, tenho promovido cada vez mais o "desligamento" do mundo virtual (e das redes sociais). Se eu continuar sentada de sofá, a papar tudo o que circula na internet, então esses 20 metros nunca vão passar a 40 ou 60. Sim o Trump é presidente da América, mas a minha vida é mais importante do que isso. Podem baptizar este movimento com egoísmo, embora eu prefira chamá-lo de foco. São coisas diferentes. Ambas necessárias à nossa existência. Nem todos os que me seguem, lerão este post, simplesmente pelo facto de que ele não foi publicado no facebook. Uns porque não sabem como aqui chegar sem que o link seja lá colocado, outros porque não têm esse hábito. Para esses, se não está no facebook, é porque não existe. E é mais ou menos sobre essa ditadura, imprópria, que ando a tentar rebelar-me. [se é que me faço entender bem].

Os que me seguem, há mais tempo, devem lembrar-se da altura em que vivi sem televisão. [para quem só chegou agora, é este o post]. Sim. Sou eu. Loura. Se foi a opção mais inteligente? Tenho algumas dúvidas. Na altura foi um método, pouco ortodoxo, para conseguir viver sozinha. O que não faz muito sentido. Estando, (mais) sozinha, (do que nunca), o que eu precisava era de companhia... mas eliminei a televisão para aliviar o chorrilho de contas mensais. Recentemente, como passo mais tempo em casa, no quarto, e às vezes na cama, a minha mãe sugeriu que eu arranjasse uma televisão e eu voltei a rebelar-me contra tal sugestão (apesar de ter que admitir: é muito, mas mesmo muito, confortável, ter uma tv no quarto). A questão é simples: eu não quero passar mais tempo a ver a vida a passar [lá fora]. Por isso estou numa onda de desligar. Off. Para algumas coisas. E On para outras. E andamos assim. No switch. E o switch é bom. É verdadeiramente bom. Porque, sob a égide de todos os clichés, ao desligar-me de determinadas coisas, sinto mais vontade para me ligar a outras. Desconectar-para-reconectar. [com o que faz mais sentido].

Eu agradeço imenso a preocupação e o carinho que algumas pessoas têm vindo a demonstrar desde que revelei que estava doente. Revelei-o porque o blogue sempre foi um blogue sobre a minha vida e portanto, escrever funcionava bastante bem como terapia. No entanto, por exemplo, hoje em dia, se me afasto das redes sociais, recebo sempre uma ou outra mensagem com o intuito de avaliar o meu estado de saúde... e isso, às vezes, é destabilizador. [embora as pessoas possam não o saber]. É destabilizador porque eu passo a vida a avaliar o meu estado de saúde. Porque sempre que acordo tenho de me encher de coragem para pôr os pés no chão. Porque tenho de me dizer todos os dias, vá tu consegues... são só 20 metros e não te vai acontecer nada. Ou seja, a ansiedade dos outros não me ajuda. É por isso que eu escolho o Off. Como escolhi tantas outras coisas ao longo deste processo. Faz parte. Escolher continua a ser dos melhores direitos que nós temos.

Sempre que falo em redes sociais, lembro-me, bastante, do meu ex-namorado. Da batalha terrível que foi provar-lhe que uma foto, de nós os dois, juntos, no facebook não mudava em nada a nossa relação. Para ele sim. Para mim não. E portanto, não havendo foto de nós os dois juntos, não houve também relação (pr'a muito tempo). Eu não sou o tipo de pessoa que aprecie (e valorize) declarações públicas. P'ra mim é importante o que as pessoas são, de verdade, no dia a dia, pese a todas as fotos bonitas (ou não) que gostam de expor. Continuo a acreditar em coisas tão extintas como a felicidade indeclarável. E a solidariedade não comunicada. Tudo o que ultrapassar isso pode cair, facilmente, no extremo da vaidade. Ainda que nos faça bem, bastante bem, sermos vaidosos.

Há uma frase, com a qual me encontrei, no inicio desta (última) aventura, que me ficou. Your mind will always believe everything you tell it. Feed it faith. Feed it truth. Feed it with love. Eu sempre fui péssima em matéria de nutrição. Feliz, ou infelizmente, nenhum desses alimentos estão nas redes sociais. Switch mode is on.

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4 comments

  1. Não está nada mal essa versão Terceirense do Karaté Kid :) Para hipocondríaca 20 metros parece-me ser uma boa meta! Acredito piamente que a vida é cheia de metas, e que são elas que nos dão a pica necessária para por os pés no cháo todos os dias. Mesmo quando 20 parecem 100. Mesmo quando o tempo teima em não trazer a meta para perto. Não te esqueças que a rosa mota tb cortou a meta e não ia propriamente bem depilada :) wax on, wax off

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    1. As metas podem ser boas, e ainda que ambíguas, a verdade é que dão (algum) sentido à nossa existência. Não estou tão preocupada com o atingi-las, estou mais focada no começá-las. Por mim, a meta não precisa de estar perto ;) Só quero caminho. É q.b.

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  2. "Your mind will always believe everything you tell it. Feed it faith. Feed it truth. Feed it with love."

    Tão bonita, tão assertiva, tão doce.
    Basta querermos.
    Por outros motivos, esta frase vai para alguém que precisa dela.

    Um abraço

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    1. É verdade. Esquecemo-nos, quase todos os dias, de nos "alimentarmos" como deve ser. Não podemos negligenciar o que damos de comer à nossa alma.
      Outro para si Maria.

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