#vamos matar o bicho

Pagas tu ou pago eu?

terça-feira, fevereiro 21, 2017

Malta, vamos pôr a mão na consciência, sim?! Dois minutos do vosso (precioso) tempo. Não mais. [vou contar-vos uma estória que se repete muitas vezes]. Eu desloco-me todas as semanas até ao hospital da minha área de residência. São mais ou menos 25kmx2. Uma ida e uma volta... por vezes multiplicadas por mais dois ou mais três, conforme as vezes que são precisas lá ir. Enquanto doente oncológica eu tenho direitos. Como por exemplo o direito de usufruir do transporte hospitalar providenciado pelo próprio hospital. [neste caso o Hospital de Santo Espírito em Angra do Heroísmo, Ilha Terceira]. Por vontade e decisão próprias eu não o utilizo. E passo a explicar porquê.

O tratamento de quimioterapia a que estou sujeita fragiliza, e baixa, as defesas do meu sistema imunitário. Como meio de prevenção, e protecção, evito o contacto com outras pessoas nas fases mais periclitantes. É por causa disso que não me convém (nada) estar perto de pessoas que (involuntariamente) possam ser portadoras de vírus ou bactérias [todos vocês são, doentes ou não]. Mas... mesmo que eu não tivesse este pequeno pormenor acoplado ao meu estilo de vida actual, eu não utilizaria à mesma o transporte cedido pelo hospital. (até precisar é claro). Prefiro ir no meu carro. [embora às vezes seja necessária a presença de um co-piloto nos dias menos capazes]. Eu não tenho rendimentos (do trabalho dependente). Actualmente. E infelizmente a gasolina paga-se. Mas quando não houver dinheiro para a comprar, há sempre um penico onde mijar. (lembram-se dessa grande ideia empreendedora que uma dita telenovela brasileira introduziu há uns anos atrás? nada como testar).

Nos dias de tratamento, exames e consultas, eu tenho direito, também, a uma refeição e lanche dependendo do tempo que os mesmos demorem. Por norma não como aquilo, que por direito, me oferecem. É verdade, o menu hospitalar nem sempre faz as delícias (e os desejos) do doente, mas não é só (por) isso. Prefiro levar de casa. Ou comprar. [se bem que evito comer por fora pelas mesmas razões acima descritas. nunca confiando. pelo menos por agora]. E sinto-me bem assim. Contribuindo de uma forma que me parece bastante justa, prática e honesta para a economia (e poupança) de uma entidade pública. Neste caso regional. E é sobretudo sobre isso que versa o meu texto de hoje. Sobre o desperdício de recursos. E a falta de bom senso... de algumas pessoas. Não querendo dizer com isto que as minhas virtudes são maiores que as vossas. Claro que não.

Os doentes oncológicos têm direitos sim. Mas é simplesmente ridículo dizerem que, aqueles que sobrevivem, ficam com a vida feita. Nunca ouvi uma barbaridade tão absurda como esta. Absurda e... descabida.  Não ousem sequer pensar que esses direitos, que nos são atribuídos, servem para enriquecermos [até porque a riqueza é algo bastante mais caro do que o património (e os bens) materiais]. Infelizmente a desinformação e a ignorância humanas só desencadeiam generalizações baratas contra as quais temos de lutar incessantemente. Tomara que tudo fosse uma questão de tempo. Provisória como outras coisas demais. Caso seja do vosso interesse obter mais informação sobre os direitos dos doentes oncológicos podem fazê-lo aqui [Laço], aqui [Onco+] e aqui [Liga Portuguesa contra o Cancro].

Para usufruir desses direitos, o doente tem que requerer um atestado de incapacidade multi-usos atribuído, em Junta Médica, pelo Delegado de Saúde da respectiva área de residência da pessoa. [é mais ou menos nesta fase burocrática que eu me encontro]. Apesar das leis existirem... elas valem o que valem. Quem nunca teve o azar de precisar de contratar um advogado não sabe a sorte que tem... tenho dito. Faz-se de tudo com as leis. Assim. Mesmo. À laia de pegas. Dá-se-lhes sempre a volta. Torna-se flexível aquilo que não é. Acrescentam-se vírgulas. Muitas. E discrimina-se, sem qualquer pudor, e sem qualquer esforço, aqueles que por sorte, (ou azar), nasceram fora dela. O nosso sistema social é de facto... surpreendente. Se for doente oncológico, [o que eu desejo sinceramente que não seja], veja lá se escolhe uma das subsecções de doença que (já) vêem contempladas na legislação. Caso contrário, a lei, para si, não existe. Nem a lei. Nem a protecção social. 

Eu saí da faculdade em 2006. E sempre trabalhei. E sempre contribuí para a máquina do Estado Social. [na qual ainda acredito pese a todas as circunstâncias]. Dois anos no estrangeiro. Incluídos. Até 2016. Quando tive de parar por força maior. Eu não reclamo nada. A não ser aquilo a que tenho direito. Mais do que isso dispenso. De boa vontade. Dispenso os transportes. As refeições. As consultas de rotina fora da agenda, apertada, que já tenho por imposição. Enquanto me for permitido eu subsisto com o que tenho. Até se acabar. E é a respeito disso que convido todos vocês a reflectirem. Sem ressentimentos. E sem críticas. Longe disso. [agora vivemos numa época em que temos de nos justificar sobre tudo. e sobre nada. até um espirro. incontrolado]. Mas com urgências.

Nós criticamos levianamente as instituições. [e atenção... acho muito bem que o façamos quando não nos restam outras saídas]. Muitas pessoas, com vidas completamente inimagináveis, vivem dependentes delas. Umas por assumptiva necessidade. Outras porque o modus operandis se lhes colou à pele. Os recursos custam dinheiro. Custam profissionais. Custam voluntários. E custam bens e matérias-primas. Muitos. Fazer com que as estruturas resultem e sejam eficazes também é um dever nosso enquanto cidadãos. [pelo menos aqueles que estejam interessados em deixar um legado melhor aos seus filhos]. Assim sendo, queixem-se menos. [só quando tiverem dores, ok?]. 

Deixem, em primeira instância, os recursos pro bono que existem para aqueles que efectivamente precisam... e não podem, como muitos de nós, levar comida de casa ou deslocar-se num carro próprio. O Estado Social não se faz só dos descontos que cada um de nós lá enfia todos os meses. [e olhem que eu tenho razões, mais do que suficientes, para estar de candeias às avessas com os juristas todos deste país]. A sociedade, mais do que o estado, também se faz do respeito, (e discernimento), público que todos nós deveríamos ter uns pelos outros. Chega de carochinhas, sim?! Querem ajudar... Façam-se úteis.

#a vida aos 30

Anjo da guarda, minha companhia

segunda-feira, fevereiro 20, 2017

Fui ao meu primeiro funeral [depois de ter adoecido]. Não é que não tenham morrido perto de mim entretanto. Morreram muitos. Mais que os esperados. Dizer que a morte não nos assusta pode parecer ingénuo. É suposto assustar-nos. E é bom que o faça. E que o cumpra. Talvez só assim aprendamos a valorizar o que temos, entre (as) mãos, entretanto. A morte nunca me causou (grande) impressão. Confesso. Nem quando era pequena e brincava no meio de uma empresa familiar funerária. Nem agora, que me vejo obrigada a tratá-la por tu. Embora não cause impressão, é de difícil tradução. [sempre o foi]. Acho que à medida que as fotos de rostos conhecidos se vão sucedendo nas campas percebemos quão frágil a nossa existência é... E como será duro viver a perda dos que fizeram parte de nós. E das nossas estórias.

Morreu-me o meu padrinho de baptismo. [uns bons anos depois da morte da minha madrinha]. Dizem os antigos que os padrinhos de baptismo deveriam, por norma, ser sempre mais novos que os pais da criança para poderem acompanhá-la, e apoiá-la, grande parte da vida. Todos sabemos que, às vezes, não é bem assim. Que a lei da vida não existe. E que contra ela nada podemos. E que alguns nos são roubados demasiado cedo. [independentemente da sua idade]. Da mesma forma que nós também podemos deixar este plano inclinado antes do expectável. Sinto-me um bocadinho órfã, tal como os meus primos... mesmo que a minha relação com o meu tio tenha sido mais distante do que próxima. Atrevo-me a falar de um homem que não conheci bem. Mas a vida é assim. Só conhecemos das pessoas aquilo que elas deixam. E o que nos esforçamos por. Longe das minhas memórias de infância fica-me a imagem de um homem que se adaptava com facilidade à vida. E às provações. Dela derivadas. Foi assim que enfrentou as contrariedades, incluindo um AVC que o deixou dependente da ajuda, e boa vontade, de terceiros.

Há uma resiliência anónima que me comove em determinadas pessoas. E a dele tinha tanto de bonita como de dolorosa. Foi um homem que aceitou a sua condição. E que lidou com ela como pôde. E que no meio de tudo o que não era perfeito, ainda levantava a mão da janela que o separava do mundo para dar os bons dias aos vizinhos da rua. Ou para arrancar um aceno de cabeça dos netos no trajecto casa-escola. Deus levou-o quando a vida se lhe podia complicar-se. Num dia de sol. [toda a gente devia morrer em dias de sol]. E a este Deus só podemos agradecer. E nada mais. 

Dói. Inevitavelmente. A evidência natural de que não somos nada. Não temos nada. Não levamos nada. A lembrança de que tudo acaba num sopro. Curto. E entre-acabado. E que os personagens que vão fazendo parte dos mesmos palcos por onde andamos, vão começando a deixar de dividi-los connosco. É estranho. Talvez, antes, não fosse tanto. Mas hoje, com mais consciência, e sensibilidade, sei que é. E nenhum de nós poderá dizer o contrário. Fica o carinho, envergonhado, indeclarado e sem jeito de quem me dava chocolates para adoçar a vida quando nenhum de nós sabia o que ela seria. [ainda não sei]. Mas a incerteza, simples, daqueles dias era diferente da de hoje. Ficam as tardes amenas sentados no muro da casa caiada, à espera do pão quente cozido no forno de lenha. Ficam os choros aflitos dos joelhos castigados nas escadas da rua. Ficam as conversas, rápidas e divertidas, das últimas visitas fugazes. Fica o brilho no olhar de quem sabe como viveu. E fica a esperança, que nunca se perdeu, de tudo poder ter sido como não foi.

Nem todos temos a sorte de sermos amados como queremos. Ou como achamos que deveríamos ser... 
Mas, talvez sonhar com isso seja a melhor forma de nos mantermos vivos... enquanto ainda cá estamos.
Padrinho. A benção. 

#a vida aos 30

Em nome do pai, da mãe e dos filhos

sábado, fevereiro 18, 2017

Eu não tenho filhos. [e dizem vocês, lá vem aquela chata, imprópria, com esta conversa outra vez]. Mas podia ter. Ainda não percebi (bem) se os tratamentos oncológicos me deixaram ou não infértil. Temporariamente ou ad eternum. Honestamente, prefiro pensar que sim. Até porque a ideia de ter filhos é bastante mais assustadora do que a possibilidade de não tê-los. Esse foge-que-é-urtiga não é um sentimento camuflado pela vergonha. Não tenho medo de dizê-lo. Nem de assumi-lo. Não sei se, tendo hipótese, daria uma boa mãe. Aceitável no contexto do lar não é uma classificação feliz. Atenção. As mães não precisam de ser excepcionais. Nem de fazer o pino. Nem tão pouco o mortal atrás encarpado. As mães precisam amar. Saudavelmente. E esse pequeno detalhe ad hoc representa umas olimpíadas diárias. Pé fora. Pé dentro. Da trave. Obviamente. De qualquer das formas, apesar da maternidade me parecer uma disciplina [muito] exigente, não lhe reconheço complicações demais que a assemelhem a um bicho de sete cabeças como muitas mulheres afirmam ser. Detesto exageros. Aprendi a refreá-los recentemente.

Falar é fácil. Reclamam vocês. E com razão. Costumo evitar pôr o bedelho em teorias que não domino. É um principio. Meu. Usado com bastante rigidez. Mas... de quando em vez meto. Fundo. [o que seria da vida se não infrigíssemos umas poucas leis pessoais]. Falo muito deste tema porque é simples: faz parte da minha vida (e é bastante comum às pessoas que me rodeiam, principalmente por causa das amizades com a mesma faixa etária). À medida que se vai crescendo somos confrontados, inevitavelmente, pelas leis da vida e pelo conforto que determinadas posições (nos) trouxeram. Conforto este que nos torna seres lamentavelmente (mais) egocêntricos. E comodistas. Mas atenção. O egocentrismo em nome próprio, com a utilização devida, nem sempre é sinónimo de palas-para-os-olhos-como-os-burros. Desde que a gente não magoe o outro é usar com a respectiva moderação que se lhe recomenda. Em todo o caso eu não vou falar só do que penso. Vou falar, em concreto, de uma estória. Tudo porque defendo uma corrente qualquer filosófica (e pedagógica) que diz mais ou menos isto: os filhos não são obstáculo para nada. [sim, se os tiver posso vir a mudar de opinião. mas espero que não]. Podem cair-me em cima com as vossas opiniões contrárias. Ou com as vossas estórias. Sintam-se à vontade. 

Já ouvi queixas de várias amigas mães nessa exacta situação. Já ouvi populares, desconhecidos e anónimos, reiterar o mesmo. O não fazer qualquer coisa que desejavam muito fazer por causa dos filhos [ou em nome dos filhos]. E é por eu achar que justificar-se assim é mais ou menos como entrar num beco sem saída (ou então passar o tempo a tentar morder o rabo sem o conseguir apanhar) que vos vou contar a estória da Roberta. A Roberta era minha estetecista em Lisboa. Tinha mais ou menos a idade da minha irmã mais velha. 36 quando a conheci. Em 2012-2013 por aí. Duas filhas pequenas. Uma ainda bebé de colo. Um marido. Uma casa para pagar mais as contas adjacentes. A Roberta era licenciada em Economia, mas na verdade não gostava muito da área em que se tinha formado. Aquilo com que ela sempre sonhara era ser esteticista. Como toda a gente, boa do juízo, a Roberta hesitou, várias vezes. E como toda a gente, boa do juízo, a Roberta jogou tudo pr'ó alto. Um dia despediu-se do trabalho [fixo] e inscreveu-se na escola de estética.

A estória, narrada pela própria, durou algumas depilações. Muitas unhas. E umas massagens. Um dia perguntei-lhe: Roberta até aqui tudo bem, mas falta uma peça ao puzzle. O que é que tu fizeste para poderes tirar o curso? É que parece tudo muito bonito, mas eu suspeito que não me estás a contar tudo... Claro que ela não estava a contar tudo. Ah, você quer saber o que é que eu fiz para poder pagar as contas e sustentar as minhas filhas enquanto estudava, é isso? Era diarista. Aqui chamam de empregada de limpeza, né? A Roberta era muito inteligente. Senti automaticamente uma grande empatia por ela. Admiração. Profunda. E genuína. Que coragem!

Voltei a esta estória porque recentemente ouvi alguém dizer que não ia atrás dos seus sonhos porque tinha (agora) uma filha... E os filhos não devem justificar nem a nossa falta de coragem nem a nossa falta de carácter. Há meios que justificam os fins, mas... os filhos, os filhos não deviam justificar falhas (nossas) tão grandes. Antes pelo contrário. Os filhos deviam ser a primeira razão para irmos atrás do que nos faz feliz. Nesse mesmo dia em que a Roberta me revelou a parte mais interessante da (sua) estória, ela também me disse: eu tive medo, claro que tive, mas eu devia isso às minhas filhas, sabe... Eu devia-lhes uma mãe inteira, feliz, um bom exemplo a seguir, foi por isso que não desisti e que avancei, mesmo tremendo. Vai dar errado não... Quando você quer, você arranja forma. Arranja mesmo. Eu não tenho filhos. Volto a dizer. Mas tenho algumas limitações impostas pela minha condição. Não gosto de usar a doença para bater no ceguinho. Nem gosto muito de repetir posições. Mas tudo serve um propósito. Não me venham com tretas. Que porra é que vocês enfiaram na cabeça que não conseguem fazer por causa de serem mães? Vá, atirem. [eu sou muito boa a encontrar soluções... para os outros].

Se eu vos contar como é que ela foi parar ao salão que eu frequentava vocês não acreditam... A proprietária encontrou-a no autocarro com os livros da escola debaixo do braço. Meteu conversa, gostou e convidou-a para trabalhar. [correu riscos (pequenos) obviamente. mas apostou ainda que os tivesse]. Há estórias incríveis, não há?! A Roberta não era só uma mera esteticista. Tornou-se minha amiga. Tinha (e espero que ainda tenha) uma energia contagiante. Perto dela era impossível não sentir boas vibrações. Diarista. 

Que nome tão bonito para quem vai atrás daquilo em que nunca deixou de pensar.

#os açores para não-açorianos

Onde é que se podem ver baleias?

quinta-feira, fevereiro 16, 2017

Ora, se em tempos o nosso Portugalzinho à beira-mar plantado ficou conhecido como o país dos 3Fs (futebol, fado e Fátima)... os Açores poderiam, perfeitamente, fazer estória como o arquipélago dos 3Vs (vacas, verde e vulcões)... não fossem as baleias estragar [ou embelezar] a mnemónica paradisíaca. Consideremo-las uma mais-valia. Das mais importantes para o turismo e economias locais. Para além das variadíssimas atracções que as ilhas açorianas oferecem, a possibilidade de vestir a pele de um destemido Ismael, embarcando numa versão semi-rígida do The Pequod em busca do terrível e temido monstro Moby Dick é, sem sombra de dúvida, o ponto alto de uma odisseia na Macaronésia. Não o fazemos por menos. Andar (quase) dentro de baleias... e vulcões é uma das nossas especialidades.

Provavelmente, em 1851, ano em que foi publicado originalmente o romance, Herman Melville, o seu autor, não imaginava que a caça à baleia viria a ser uma actividade proibida anos mais tarde. Exactamente em 1987. [3 anos depois de ter vindo ao mundo a pessoa que vos escreve]. Um passado recente. Mais recente que passado. A tradição baleeira nos Açores, beneficiada em grande parte pela proximidade da Crista Média Atlântica, (uma cordilheira submarina que se estende no leito dos oceanos atlântico e árctico), foi o ganha-pão de muitos ilhéus durante mais de um século. Especialmente no Pico. A caça à baleia de outros tempos reconverteu-se naquilo que é hoje a indústria do whale watching [observação de cetáceos]. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades (ou as consciências). E ainda bem.

Apesar do Pico aparecer na História intimamente ligado à actividade baleeira, os mamíferos de que falamos podem ser vistos vistos em todos as ilhas dos Açores, (todas!), sendo que actualmente o arquipélago é considerado um dos maiores santuários de baleias do mundo e um ecossistema com características únicas. Só para vos dar uma ideia do espectáculo natural que podem presenciar... Entre espécies residentes e migratórias, comuns ou raras, podem avistar-se mais de 20 tipos diferentes de cetáceos (um número que corresponde a um terço do total de espécies existentes). Diamante em bruto. A essência, conjunta, das 9 ilhas reunidas numa pedra. Preciosa.

Apesar da eloquência romântica deste texto, eu nunca vi baleias. [shame on me]. Mas já avistei golfinhos. [na travessia Terceira-São Jorge, a bordo do antigo Cruzeiro das Ilhas, uma embarcação minorca, hoje em inactivo, pouco recomendável a marinheiros de primeira viagem]. E sim, isso pode acontecer-vos. Apesar delas existirem, e em grande número, não é garantia de que apareçam quando vocês cá estiverem. Ou quando a meteorologia permitir saídas para o mar. Contrariedades ocasionais do temperamento açoriano a que tem de se submeter quem nos visita. Ainda assim, nem tudo está perdido. Há quem diga, para remediar o caso, que 5 golfinhos fazem uma baleia. [eu não confiava muito em que o diz]. Mas serve de consolo.

#notas da redacção

It's great... you know

terça-feira, fevereiro 14, 2017

Corre por aí um sururu, (até à data por confirmar), que o actual presidente dos Estados Unidos quer comprar a Terceira. [sim, a ilha]. Diz que a oferta está entre os 20 e os 45 mil milhões de euros, dependendo da zona marítima incluída. Isto de comprar ilhas (e oferecer ilhas) parece que está na moda. Há um excêntrico português que já o fez. O próprio do Cristiano Ronaldo (e o felizardo do Jorge Mendes, empresário do jogador, que recebeu uma ilha grega privada como oferta de casamento). Há fulanos com sorte.

Então, a ser verdade esta falsa-notícia (anedótica), Donald Trump lembrou-se, por usucapião, que a Terceira lhe pertencia. Sim. Ele não está interessado apenas na base das Lajes. Ele quer a ilha toda. Eu até apostava que a ideia dele fosse aproveitar terreno para fazer o closet da Melania, mas... ninguém do mundo da(s) moda(s) quer vestir a primeira dama americana. What a shame. A base das Lajes é assim um caso bicudo de se resolver. Todos a querem. [mas ninguém sabe muito bem para quê, ou sabem mas...não o revelam]. A possibilidade de fazermos parte da América, assim tipo uma Cuba ao largo de Miami, é interessante... na medida em que fazendo parte dos States nós não teríamos de pagar portes de envio dos produtos que comprássemos (nem teríamos de esperar que os mesmos fossem libertados pela alfândega). Win-win.

Mas... a coisa complica. Diz que os chineses também andam ao barulho. E também andam interessados na base militar. Não sei se ria não sei se chore. Com os americanos nós estaríamos, sem dúvida, mais enturmados. Fatos treino e barrigas grandes. Done. Com os chineses não sei... A gente não é de andar com os olhos meios fechados nem gosta lá muito de comer pato. É mais alcatras. Levaríamos mais tempo para nos sentirmos em casa. [efectivamente]. Melhor, melhor era a gente não ser de ninguém. Nem mesmo de Portugal. É isso. Eu voto na independência. (já que a autonomia, para os açorianos, vale o que vale).

A base das Lajes será sempre um pedaço de terra muito disputado. E muito conveniente. Conhecem aquele ditado popular americano que diz qualquer coisa como isto: once you go (...) you never come back?! É mais ou menos o que as Lajes representam. Uma minoria racial de que muitos se esqueceram, mas... que todos adoram. [é. há coisas difíceis de olvidar]. Anda cá Trump. As Briandas Pereira da ilha estão prontas para soltar os touros e mandar-te de volta para casa. (sim, nos Açores, as mulheres não brincam em serviço). 

Terceira first. America second.

#notas da redacção

Tricampeão

sábado, fevereiro 11, 2017


Gosto muito do Porto. [sempre gostei]. E nunca o escondi. É uma das minhas cidades-fetiche. Afrodisíaca. Muito. Pr'a alma. Lembro-me de dois ou três momentos em que ponderei uma vida mais a norte. Acabou por não acontecer. [mas gostava (muito) de tê-lo feito]. Diz-se que aquilo que a gente não vive nos martela o juízo. É verdade. Deve ser por isso que o Porto é o Porto... mas não só. Sempre que lá vou sinto coisas que não sinto em Lisboa. É outra energia. Bastante compatível com a minha. Mesmo pondo de lado as francesinhas e o vinho. Há parelhas que não resultam tão bem, apesar das suas diferenças.

No Porto ninguém se perde. Ou melhor, ninguém se sente perdido. Eu, pelo menos, nunca me senti. [vocês não imaginam como é difícil encontrar uma cidade onde as pessoas não se perdem]. Ninguém faz cerimónia. Ninguém se reserva... muito. E é disso que eu gosto. Da facilidade com que se faz amigos. Do trato despreocupado. E das ligações simples. Digam o que disserem, esta autenticidade, peculiar, já não é o cartaz de Lisboa. [tenho dúvidas se alguma vez o foi]. A capital de Portugal é a memória de um passado, castiço e popular, misturada com uma enorme fusão de origens. O Porto, por outro lado, mantém o mistério e o charme de sempre. E eu gosto muito de namoros destes.

Há quem não entenda muito bem os portuenses. Há quem lhes atribua uma fama que não me parece a generalização mais correcta. Comparo-os muito aos espanhóis. [peço desculpa pela ousadia]. Vivi em Espanha dois anos. Foi-me muito difícil encaixar na cultura de nuestros hermanos. Relacionei-me mais com estrangeiros do que com espanhóis. Apesar da prepotência a que podiam chegar, os espanhóis que conheci, tinham uma forma muito própria de viver as (suas) cidades e o chão que lhes pertencia. Coisa que os portugueses não fazem nem com muita garra nem com muita gana... a não ser, lá está, o pessoal do norte. 

Verdade seja dita. Ou feita. Nomeado três vezes para melhor destino europeu. Vencedor nas três vezes em que foi nomeado. Sendo a escolha deste ano, 2017, a mais unânime até à data. Não sou, com certeza, a única humana melindrada pelo encanto do Porto. O vencedor do Melhor Destino Europeu 2017 recolheu votos de 174 países. Com toda a legitimidade que se lhe reconhece. O Porto deixa marcas. E isso deve-se às pessoas que fazem dele o que ele é. [e eu tenho a sorte de algumas serem minhas amigas].

Não me espanta que o Porto e Lisboa já tenham ganho esta votação. Não me espanta nada que o Porto seja tricampeão. [estava a conter-me mas não consegui]. Entristece-me sim que os Açores, o único representante português do concurso de 2016, tenham ficado em 5º lugar. A insularidade (ainda) não é suficientemente forte para romper barreiras. Mas os açorianos, tal como os portuenses, são gente do bem. Sem cerimónias. Porventura um bocadinho menos charmosos... mas não menos interessantes. Bib'ó Puorto! Carago.

#a vida aos 30

A menina dança?

sexta-feira, fevereiro 10, 2017

Eu tenho uma amiga que gosta de dançar. Mas não dança. [pelo menos em público]. Proíbe-se de várias coisas. Em nome do corpo. Perfeitamente funcional. Mas imperfeito aos olhos... dela. Também não vai à praia. Durante o Verão. Nos horários habituais em que toda a gente vai. Não se despe em frente de estranhos. Nem no ginásio. Mas, pelo menos, (já) vai ao ginásio. Ela é uma mulher, (quarentona de primeira viagem), espectacular. Cheia de estória(s). Mas temo que não saiba disso. [ou não acredite nisso].

Eu já dancei muito. [gosto particularmente desta expressão porque me lembro sempre do "dancei" com sal e pimenta brasileiros]. Dançar, com as amigas, é dos melhores anti-depressivos naturais que a vida tem. Estranho, não é, como nos impedimos de fazer as coisas de que mais gostamos. Não dançamos. Não escrevemos. Não vamos à praia. Nem ao ginásio. Não choramos. Tudo em nome daquilo que deveríamos ser... e não somos. Ficções. Amargas. Com heróis desprovidos da condição humana a que todos estamos sujeitos.

Houve um tempo em que eu deixei de dançar. Eu. O tipo de pessoa que era capaz de dar um saltinho no meio da rua chocando os calcanhares. Deixei de dançar quando a vida me deixou de surpreender. [pera, não foi bem a vida que me deixou de surpreender, parêntesis]. Fui eu que me proibi de a sentir. Bad, bad, bad choice. Ainda bem que ela, por linhas e travessas, arranjou uma forma chocante de me (voltar a) surpreender. [gosto de pensar que sabe aquilo que está a fazer]. 

Quero levar esta minha amiga ao varão. Sim. Ouviram bem. Ao varão. Acredito no varão como terapia de muitas impossibilidades. [sorrir com os cantos dos lábios ao reler a última frase sff.]. Acredito em todas as terapias que nos devolvam a nós. E àquilo de que gostamos. Sejam elas quais foram. E acredito nas danças. Descoordenadas. Sem ritmo. E sem o talento da Bey. Nem toda a gente nasceu para pisar um palco, mas todos nascemos para dançar.

As pessoas sofrem muito por causa dos (seus) corpos. True story. Mas... proibirem-se de viver porque ele não segue os índices do IMC é apenas uma atitude muito... FDP (fora do formato). Lamento que quem aqui vem esteja [quase] sempre a ouvir mais-do-mesmo. Mas ontem comecei o dia no hospital, numa consulta de rotina, e até me deitar, de novo, cruzei-me com várias pessoas em sofrimento. E não. Não é porque estavam doentes. Fisicamente. A doença delas era outra. Mais anímica. Mais visceral. 

A minha psicóloga, com quem me relaciono há uns anos, (e de quem não abro mão), relembra-me, em quase todas as sessões, a necessidade, e os benefícios, de sermos viscerais. No bom sentido. Claro. E eu concordo bastante com ela. [embora tenha dificuldades práticas como toda a gente]. Não sermos felizes é o primeiro passo para adoecermos. Não dançarmos pode ser, efectivamente, um problema muito grave. Gravíssimo. A dança de cada um é a dança de cada um. Ritmos e estilos diferentes. O importante é não deixar de ir ao baile por causa do medo de pisar a pista. 

A auto-estima (e a confiança) são assim... uma faca de dois gumes. [bem afiadinhas]. Um obstáculo, tipo corrida com barreiras, e simultaneamente, um impulso, bastante responsáveis pela evolução da espécie humana. Um passo em frente. E outro atrás. Querem um conselho de quem já [se] abanou muito (mas ainda não quebrou)? Não se reprimam. Nem a vocês nem às vossas emoções. Pela vossa saúde (a sério). É um palco acidentado. É. Mas vale cada pisadela. Mesmo que seja ao lado. Por cima (dos pés) de alguém. Ou em cima dos vossos. 

All the single ladies, All the singles ladies, (All the singles ladies), Now put your hands up... 
E é isto. Entusiasmo-me demais. Que se lixe.

#a vida aos 30

Gosto de ti, porra!

domingo, fevereiro 05, 2017

Sempre fui picuinhas com os números. Muitos pares. [em detrimento dos ímpares]. Preferências. Pouco exactas. Nunca tive uma boa relação com a matemática... mas sempre me deixei seduzir, inconscientemente, por equações difíceis (e complexas). Apesar de ter escolhido letras [e palavras], as datas (aleatórias) nunca deixaram de me surpreender. Todos os dias somos agentes de várias operações. Somar. Dividir. Subtrair. Ou multiplicar. [para ser simples]. E há tanto de mágico numa conta, bem resolvida, como num poema, ou numa frase, bem sentidos.

Este Fevereiro, habitado por ventos fortes, e ondas maiores, traz-me alguns números à memória... e ao peito. E de repente percebo, como me desfiz, naturalmente, das implicâncias (e das superstições) com (determinados) algarismos. Ontem. Ontem a brisa desgovernada dos últimos dias serenou. O céu encheu-se de luz e as pedras da calçada de calor. As casas da cidade vestiram-se de sombra(s). Sombras típicas de uma tarde de Primavera. Onde tudo floresce. Outra vez. Angra (só) minha. [e de mais ninguém]. Perdoem-me a vaidade. 

Números. Hoje. Gosto de todos. Sem seriação. Aprendi-o. [sobretudo no (último) ano que passou]. Mas, voltemos a ontem. 365 dias depois do dia em que descobri que podia morrer mais cedo do que o previsto. Ali estava eu, numa rua, da minha ilha, apoiada na cal branca de uma casa. A olhar lá para cima. [para o infinito]. Deixei o sol pousar em mim. [sem combatê-lo]. Levemente. Aninhou-se na minha pele. Forte. Como quem abraça e não magoa. E intenso. Obrigou-me a fechar os olhos. E a senti-lo. Apenas. A dispor-me. A deixá-lo. Beijar-me. E a entregar-me. A um prazer único. Estar viva.

Há muito tempo que não me sentia assim. [e não consigo colocar em palavras o assim]. Confesso. Há muito tempo que não me deixava levar. Há muito tempo que não me sentia perto do inteira. Tenho andado, por aí, a recolher os meus destroços, mas ontem... Ontem senti que o desastre que havia em mim era uma incógnita bonita. Uma incógnita. Aquecida pelo sol de um dia de inverno. No meio do atlântico. Norte. Que viagem. Que... grande viagem.

(Ainda) posso morrer. [podemo-lo todos]. Mas são os entretantos que importam. Gosto tanto de ti, porra! 
Gosto mesmo de ti... you little bitchieGosto imenso de ti. E se calhar, até ontem, não sabia quanto.

#os açores para não-açorianos

Olha, e os aviões, aterram no mar?

sexta-feira, fevereiro 03, 2017


Amigas. Eu tenho as melhores do mundo. Juro que tenho. [embora não pareça]. A pessoa, que me indagou tal coisa, foi a mesma, que ao contar-me a estória (anedótica) do parto do filho, me disse que quando "a" cortaram, pensou que era a unha do dedo do recém-nascido... "a" arranhá-la. É com este tipo de pessoas que eu me dou. [bom, tanto na amizade, como no amor, temos que perdoar certas coisinhas, little tiny ones, não é verdade?]. A moça devia pensar que ia de férias para o Hawai. [há por aí uns certos jornalistas, mais afortunados do que eu, que garantem haver semelhanças entre ambos os destinos]. Acuse-se, sff., quem já tenha molhado o rabinho nos dois lados. A gerência [da colectividade] agradece. Os surfistas, de serviço, podem inclusive mandar fotos em tronco nu, se bem o entenderem. [é que antigamente eu não fazia bem o trabalho de casa, mas... agora já faço]. 

Prosseguindo. Eu não consultei todos os anais da História mundial, mas à data de hoje, posso garantir-vos que não é prática, nem costume, os aviões que vêm para os Açores, aterrarem no mar. [mais descansaditos?]. Se não conseguirem dar com a ilha, (isso sim, acontece com alguma frequência quando está nevoeiro), ou se não conseguirem aterrar com o vento, (o pão nosso de cada dia), vocês ganham, literalmente, uma viagem de ida... e volta, sem terem tocado com os pés em chão açoriano. Mas, se (ainda) não sabem, ficam a saber: tempos houve em que a Pan-Am, sim a Pan-Am, "o palácio dos ares", amarava ao largo da Horta, no Faial. O Faial fica mais ou menos aqui ao lado, de frente para o Pico e é uma das 5 ilhas que constituem o grupo central, o maior do arquipélago. Infelizmente, para um açoriano fica ligeiramente mais barato ir a Lisboa do que visitar outra ilha... vá se lá saber porquê.

O Faial tem a chancela de ilha cosmopolita. Primeiro por causa dos veleiros e dos seus donos, solitários, que se apaixonaram pelos Açores, e quiçá, pelos olhos (e formas voluptuosas) de alguma donzela açoriana. Segundo, por causa dos biólogos, que também se apaixonaram por outro tipo de... baleias. Perdão, espécie. E terceiro, os geólogos, que vieram mesmo só para comer terra. [nada contra]. Já lá não vou há muitos anos, mas cosmopolitices à parte, quero acreditar que o Faial ainda é um dos últimos redutos do mundo onde se pode beber um gin, caseiro, sem cuspir de 5 em 5 segundos folhas de zimbro e sem ser preciso andar com um camaroeiro, dentro do copo, a pescar frutos dos bosques e paus de canela. Less is more. Portanto, não foi à toa, que os Clippers, [Boeing 341], da Pan-Am amararam à frente da baía da Horta, a meio das suas viagens transatlânticas. Foi isso e a escassez de autonomia. [mas não pensem nesses pormenores agora].

Não se sintam retraídos em marcar umas férias nos Açores. Como é do conhecimento geral, o clima das ilhas é bastante temperamental. Um verdadeiro serial killer quadripolar. Num único dia pode experimentar-se as idiossincrasias próprias de cada estação do ano. Portanto... basta vocês rezarem muito para aterrarem na Primavera ou no Verão, mesmo que tenham resolvido viajar em Novembro ou Fevereiro. Se nada disso resultar, e se forem daquelas pessoas que têm pânico de voar, (como eu tenho), o meu conselho é um e um só: droguem-se. Muito. E sorriam para o passageiro do lado. Nunca se sabe quando é que a gente precisa de uma mãozinha (amiga) para acalmar os nervos. [e limpar os suores frios].

Olha, e é preciso levar biquíni? A esta altura do campeonato todos vocês já perceberam que a minha amiga tem sérios problemas com geografia, não já? E com calendários. Tendo em conta que ela me visitou em finais de Novembro, e que na minha humilde casa não há piscina interior aquecida, eu diria que o biquíni é relativamente dispensável. No entanto, há quem aposte no choque térmico como uma [óptima] terapia contra o reumatismo. Logo, se vocês forem pessoas, afoitas, cheias de vontade em est(r)alar (com) o esqueleto, não se esqueçam de trazer o biquíni convosco. [ou algo que se pareça com dada as modernices que por aí se vêem]. Um aparte. O topless e o nudismo ainda não são muito bem vistos nos Açores. Quer dizer, bem vistos até são... não são é praticados, com regularidade (e pacificidade), mas sobre estas frescuras... a gente conversa outro dia.

Se ainda não estão convencidos quanto à parte dos aviões não aterrarem no mar, e uma vez que as viagens marítimas não são opção, [não existem transitários a operar na área do transporte de passageiros... e se houvessem, levavam mais ou menos 3 dias para cá chegar], o último recurso é interpolarem um requerimento à (vossa) companhia aérea de eleição para trazerem o colete salva-vidas... insuflado. 
Não deve ser confortável. Mas deve ser, teoricamente, reconfortante.
Mi casa es su casa.

#notas da redacção

Quintas-feiras

quinta-feira, fevereiro 02, 2017

Os terceirenses têm fama de (só) gostarem de festa. [é um bocadinho verdade]. Essa fama, bastante popular, e quiçá até secular, deu mote a uma premissa (fundamental) sobre o arquipélago: os Açores são 8 ilhas e 1 parque de diversões. [diz-se por aí]. Talvez não trabalhemos tanto quanto os outros. [os das outras ilhas]. Mas pelamo-nos por uma boa festa. Ou pelo menos, vibramos bastante, na espera. Dela. E é isso que em parte nos define. A forma como ebulimos. Lentamente. A par da curiosidade, pequenina, que trazemos ao peito. 

Sim. Curiosidade. Para quem vive nas ilhas, a curiosidade nem sempre é motor propulsor de (grandes) viagens (pessoais). Às vezes é tão somente o hobby preferido das vizinhas da rua. Apesar de tudo continuo a crer que se não fôssemos, curiosos por natureza, não seríamos maiores que a ilha. Temos de sê-lo. Quase por obrigação. Mas, artisticamente falando, conseguimos transformar uma obrigação, indispensável à sobrevivência dos ilhéus, numa competência quase inata. Subtilmente natural. É a curiosidade que nos leva mais longe. A pôr o pé fora das zonas de conforto. [cómodas]. 

Curiosamente, o facebook, acordou-vos hoje a todos, celebrando o dia dos amigos. O que bateu certo com o calendário festeiro da Terceira. Hoje, por cá, comemora-se, com pompa e circunstância o dia dos amigos. [e não acaba por aqui]. Nas 4 quintas-feiras que antecedem o Carnaval, celebra-se, como manda a lei, o dia dos amigos, o dia das amigas, o dia dos compadres e o dia das comadres... até chegarmos ao Carnaval. Data em que o teatro popular e a sátira social invadem os palcos da ilha. Eu não sou grande fã de datas pornográficas. Não gosto de celebrar coisas por obrigação. Estes dias tornam-se pornográficos porque, ao sabor das massas, camuflam, muitas vezes, a verdadeira intenção da data. Mas fora essas implicaçõeszinhas individuais, somos festa. Somos cultura.

Sobre o dia dos amigos no facebook, sabe-se apenas que a 4 de Fevereiro de 2015, o Sr.º Zuckberg anunciou que era o dia de celebrar os amigos e desde então, o aniversário do facebook tem sido assim comemorado. Este ano o dia mudou, aparecendo dois dias mais cedo e não se sabe (ainda) o razão para tal. Que algum terceirense tenha dito ao Zuckberg que na Terceira havia festa... duvido muito, mas que veio a calhar, lá isso veio.  [é caso para dizer que serviu-nos como uma luva]. Curiosamente, (lá está), o dia 4 de Fevereiro não é só o dia dos amigos. Nem do facebook. É também o dia mundial da luta contra o cancro. É também o dia em que saí da Terceira e cheguei a Lisboa. Com o coração na boca. E nas mãos. A matemática da vida é,  de facto, muito engraçada. 

Datas (e números) à parte, uma coisa é certa, (e os terceirenses até se safam muito bem a esse respeito): o importante é celebrarmos. Comemorarmos. Festejarmos. Cada pequena vitória. Cada nova oportunidade.
Vamos embora p'ra festa?

#vamos matar o bicho

Pequenos grandes nadas

quarta-feira, fevereiro 01, 2017

Fiz depilação. Meia perna. Muito a medo. Podia ser uma coisa banal como todas as outras que fazem parte do universo feminino... mas dadas as circunstâncias dos últimos meses, (quase um ano), teve outro peso. Leve. [smiley!]. A quimioterapia levou-me o cabelo, (várias vezes), e os pêlos. Do corpo todo. [menos os dos bigodes]. Agora que as dosagens de manutenção são mais fracas do que as do tratamento intensivo, voltaram a nascer. [o nosso corpo é de facto a melhor máquina que nós temos]. A capacidade de se regenerar é surpreendente.

Não acredito que a perda de cabelo seja a única responsável por nos sentirmos menos femininas durante o processo de tratamento. O cabelo não. A (ideia de) perda sim. Acho que é o facto de (nos) vermos vedadas algumas possibilidades aquilo que nos faz sentir mais limitadas. E impotentes. Estive um ano sem pintar as unhas, sem usar maquilhagem, sem fazer depilação e sem mais uns extras. Fez-me confusão. Confesso que fez. Porque não sendo um exercício indispensável à minha existência, tornou-se um hábito e uma rotina entranhados em mim. E isso é que é, verdadeiramente, o mais complicado: a impossibilidade das coisas que nos caracterizaram

Sempre gostei de ter as unhas arranjadas. E com cor. Sempre pintei o cabelo. Com regularidade. Sempre fiz os possíveis para sair de casa de cara lavada. E com batom. E apesar de ter umas quantas amigas que não se depilam no Inverno, (como é que é possível?!), eu sempre me depilei o ano inteiro. Com chuva ou sol. Não foi estranho não fazê-lo. Foi mais estranho não poder fazê-lo. [conseguem perceber a diferença?]. E o motivo pelo qual não podia fazê-lo.

Voltar a estes pequenos nadas, aos poucos, é um processo novo. [totalmente novo]. Uma pessoa quando se desabitua de alguma coisa, leva algum tempo para se habituar, a ela, de novo. É a questão do hábito. E de desconstruir o medo. Sim. Medo. Medo de que a pele faça reacção alérgica. E por aí fora. Portanto, sempre que consigo fazer uma dessas coisas, ligeiramente insignificantes para quem nunca se viu privado delas, sinto-me feliz. E orgulhosa. Por quanto me custou perdê-las. E por quanto me custa, actualmente, reavê-las. Esta fase é, apesar de tudo, boa, mas simultaneamente, exigente. É preciso sangue frio. Todos os dias. E (muita) calma. 

Tudo na nossa vida se resume um pouco à falácia que é o controlo. [não é verdade?]. Tomamos por certas várias coisas (principalmente as que julgamos que conseguimos controlar). E, às vezes, só para repensarmos um bocadinho o sistema todo em que vivemos, há algo que nos mostra que isso não é assim tão linear quanto parece ser. Fazer depilação é fácil, quando se faz todos os meses. Quando é parte da rotina. Fazer depilação no meu contexto não é assim tão simples. Ou tão leviano.

O engraçado é pensar que o era quando eu achava que tinha controlo sobre as coisas. Essas coisas. E outras. Quando eu pagava à esteticista para me infligir uma dor, desnecessária, em nome do que eu considerava um exercício de beleza. Ou seja, o poder que nós achamos que temos pode ser um grande entrave à valorização (real) das coisas. Apesar de não ser nada fácil, [palavra de CC], o certo é que (con)vivendo, lado a lado, com a iminência da perda, aprendemos a reavaliar tudo. E a distribuir os pesos de forma diferente. O poder pode ser enganador, [bastante], mas a sua ambiguidade, palpável, é também a forma, primeira, de recuperarmos a confiança. Que bom, que a vida, tal como o (nosso) corpo, não param nunca de nos surpreender. I'm amazed!