A menina dança?

sexta-feira, fevereiro 10, 2017

Eu tenho uma amiga que gosta de dançar. Mas não dança. [pelo menos em público]. Proíbe-se de várias coisas. Em nome do corpo. Perfeitamente funcional. Mas imperfeito aos olhos... dela. Também não vai à praia. Durante o Verão. Nos horários habituais em que toda a gente vai. Não se despe em frente de estranhos. Nem no ginásio. Mas, pelo menos, (já) vai ao ginásio. Ela é uma mulher, (quarentona de primeira viagem), espectacular. Cheia de estória(s). Mas temo que não saiba disso. [ou não acredite nisso].

Eu já dancei muito. [gosto particularmente desta expressão porque me lembro sempre do "dancei" com sal e pimenta brasileiros]. Dançar, com as amigas, é dos melhores anti-depressivos naturais que a vida tem. Estranho, não é, como nos impedimos de fazer as coisas de que mais gostamos. Não dançamos. Não escrevemos. Não vamos à praia. Nem ao ginásio. Não choramos. Tudo em nome daquilo que deveríamos ser... e não somos. Ficções. Amargas. Com heróis desprovidos da condição humana a que todos estamos sujeitos.

Houve um tempo em que eu deixei de dançar. Eu. O tipo de pessoa que era capaz de dar um saltinho no meio da rua chocando os calcanhares. Deixei de dançar quando a vida me deixou de surpreender. [pera, não foi bem a vida que me deixou de surpreender, parêntesis]. Fui eu que me proibi de a sentir. Bad, bad, bad choice. Ainda bem que ela, por linhas e travessas, arranjou uma forma chocante de me (voltar a) surpreender. [gosto de pensar que sabe aquilo que está a fazer]. 

Quero levar esta minha amiga ao varão. Sim. Ouviram bem. Ao varão. Acredito no varão como terapia de muitas impossibilidades. [sorrir com os cantos dos lábios ao reler a última frase sff.]. Acredito em todas as terapias que nos devolvam a nós. E àquilo de que gostamos. Sejam elas quais foram. E acredito nas danças. Descoordenadas. Sem ritmo. E sem o talento da Bey. Nem toda a gente nasceu para pisar um palco, mas todos nascemos para dançar.

As pessoas sofrem muito por causa dos (seus) corpos. True story. Mas... proibirem-se de viver porque ele não segue os índices do IMC é apenas uma atitude muito... FDP (fora do formato). Lamento que quem aqui vem esteja [quase] sempre a ouvir mais-do-mesmo. Mas ontem comecei o dia no hospital, numa consulta de rotina, e até me deitar, de novo, cruzei-me com várias pessoas em sofrimento. E não. Não é porque estavam doentes. Fisicamente. A doença delas era outra. Mais anímica. Mais visceral. 

A minha psicóloga, com quem me relaciono há uns anos, (e de quem não abro mão), relembra-me, em quase todas as sessões, a necessidade, e os benefícios, de sermos viscerais. No bom sentido. Claro. E eu concordo bastante com ela. [embora tenha dificuldades práticas como toda a gente]. Não sermos felizes é o primeiro passo para adoecermos. Não dançarmos pode ser, efectivamente, um problema muito grave. Gravíssimo. A dança de cada um é a dança de cada um. Ritmos e estilos diferentes. O importante é não deixar de ir ao baile por causa do medo de pisar a pista. 

A auto-estima (e a confiança) são assim... uma faca de dois gumes. [bem afiadinhas]. Um obstáculo, tipo corrida com barreiras, e simultaneamente, um impulso, bastante responsáveis pela evolução da espécie humana. Um passo em frente. E outro atrás. Querem um conselho de quem já [se] abanou muito (mas ainda não quebrou)? Não se reprimam. Nem a vocês nem às vossas emoções. Pela vossa saúde (a sério). É um palco acidentado. É. Mas vale cada pisadela. Mesmo que seja ao lado. Por cima (dos pés) de alguém. Ou em cima dos vossos. 

All the single ladies, All the singles ladies, (All the singles ladies), Now put your hands up... 
E é isto. Entusiasmo-me demais. Que se lixe.

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2 comments

  1. YES!
    Adoro dançar e quando me lembro de dar um pé de dança aqui em casa, dou ( por vezes, pego na minha gata agarro-a a mim ou seguro as patas da frente e bailamos juntas).
    Nós, mulheres, damos valor aos momentos de convívio e quando é para a desbunda é para a desbunda, isto é, enquanto os homens ficam a um canto, copo na mão a conversar sabe-se lá o quê, elas, e falo pelo grupo da minha rua, já nos 50, quando vão a algum lado é para isto mesmo: relaxar e rir.

    "Dançar, com as amigas, é dos melhores anti-depressivos naturais que a vida tem.
    :)

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