Anjo da guarda, minha companhia

segunda-feira, fevereiro 20, 2017

Fui ao meu primeiro funeral [depois de ter adoecido]. Não é que não tenham morrido perto de mim entretanto. Morreram muitos. Mais que os esperados. Dizer que a morte não nos assusta pode parecer ingénuo. É suposto assustar-nos. E é bom que o faça. E que o cumpra. Talvez só assim aprendamos a valorizar o que temos, entre (as) mãos, entretanto. A morte nunca me causou (grande) impressão. Confesso. Nem quando era pequena e brincava no meio de uma empresa familiar funerária. Nem agora, que me vejo obrigada a tratá-la por tu. Embora não cause impressão, é de difícil tradução. [sempre o foi]. Acho que à medida que as fotos de rostos conhecidos se vão sucedendo nas campas percebemos quão frágil a nossa existência é... E como será duro viver a perda dos que fizeram parte de nós. E das nossas estórias.

Morreu-me o meu padrinho de baptismo. [uns bons anos depois da morte da minha madrinha]. Dizem os antigos que os padrinhos de baptismo deveriam, por norma, ser sempre mais novos que os pais da criança para poderem acompanhá-la, e apoiá-la, grande parte da vida. Todos sabemos que, às vezes, não é bem assim. Que a lei da vida não existe. E que contra ela nada podemos. E que alguns nos são roubados demasiado cedo. [independentemente da sua idade]. Da mesma forma que nós também podemos deixar este plano inclinado antes do expectável. Sinto-me um bocadinho órfã, tal como os meus primos... mesmo que a minha relação com o meu tio tenha sido mais distante do que próxima. Atrevo-me a falar de um homem que não conheci bem. Mas a vida é assim. Só conhecemos das pessoas aquilo que elas deixam. E o que nos esforçamos por. Longe das minhas memórias de infância fica-me a imagem de um homem que se adaptava com facilidade à vida. E às provações. Dela derivadas. Foi assim que enfrentou as contrariedades, incluindo um AVC que o deixou dependente da ajuda, e boa vontade, de terceiros.

Há uma resiliência anónima que me comove em determinadas pessoas. E a dele tinha tanto de bonita como de dolorosa. Foi um homem que aceitou a sua condição. E que lidou com ela como pôde. E que no meio de tudo o que não era perfeito, ainda levantava a mão da janela que o separava do mundo para dar os bons dias aos vizinhos da rua. Ou para arrancar um aceno de cabeça dos netos no trajecto casa-escola. Deus levou-o quando a vida se lhe podia complicar-se. Num dia de sol. [toda a gente devia morrer em dias de sol]. E a este Deus só podemos agradecer. E nada mais. 

Dói. Inevitavelmente. A evidência natural de que não somos nada. Não temos nada. Não levamos nada. A lembrança de que tudo acaba num sopro. Curto. E entre-acabado. E que os personagens que vão fazendo parte dos mesmos palcos por onde andamos, vão começando a deixar de dividi-los connosco. É estranho. Talvez, antes, não fosse tanto. Mas hoje, com mais consciência, e sensibilidade, sei que é. E nenhum de nós poderá dizer o contrário. Fica o carinho, envergonhado, indeclarado e sem jeito de quem me dava chocolates para adoçar a vida quando nenhum de nós sabia o que ela seria. [ainda não sei]. Mas a incerteza, simples, daqueles dias era diferente da de hoje. Ficam as tardes amenas sentados no muro da casa caiada, à espera do pão quente cozido no forno de lenha. Ficam os choros aflitos dos joelhos castigados nas escadas da rua. Ficam as conversas, rápidas e divertidas, das últimas visitas fugazes. Fica o brilho no olhar de quem sabe como viveu. E fica a esperança, que nunca se perdeu, de tudo poder ter sido como não foi.

Nem todos temos a sorte de sermos amados como queremos. Ou como achamos que deveríamos ser... 
Mas, talvez sonhar com isso seja a melhor forma de nos mantermos vivos... enquanto ainda cá estamos.
Padrinho. A benção. 

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2 comments

  1. Tal como um jogo a vida também tem as suas regras. E a regra nº1, do artigo nº1, da alínea nº1 é que o jogo tem um fim. À partida isto é tudo muito assustador. Mas não deveria ser esta regra a desculpa perfeita para nos fazer gostar do jogo e aproveitar cada um dos níveis? Acredito que sim. Mais. Acredito que no fim do jogo existe uma cadeira branca no meio de um jardim com uma tela gigante onde vamos ver em retrospectiva todos os níveis que passámos. E que antes de aparecer a pontução final, vão tirar uma foto. Se vier com sorriso é porque todos aqueles pontos valeram para Ca&$%/& !!!
    "Fica o brilho no olhar de quem sabe como viveu. E fica a esperança, que nunca se perdeu, de tudo poder ter sido como não foi.
    Nem todos temos a sorte de sermos amados como queremos. Ou como achamos que deveríamos ser...
    Mas, talvez sonhar com isso seja a melhor forma de nos mantermos vivos...", simplesmente divival.
    Agora bora lá por o marfim de fora e jogar :)

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