Em nome do pai, da mãe e dos filhos

sábado, fevereiro 18, 2017

Eu não tenho filhos. [e dizem vocês, lá vem aquela chata, imprópria, com esta conversa outra vez]. Mas podia ter. Ainda não percebi (bem) se os tratamentos oncológicos me deixaram ou não infértil. Temporariamente ou ad eternum. Honestamente, prefiro pensar que sim. Até porque a ideia de ter filhos é bastante mais assustadora do que a possibilidade de não tê-los. Esse foge-que-é-urtiga não é um sentimento camuflado pela vergonha. Não tenho medo de dizê-lo. Nem de assumi-lo. Não sei se, tendo hipótese, daria uma boa mãe. Aceitável no contexto do lar não é uma classificação feliz. Atenção. As mães não precisam de ser excepcionais. Nem de fazer o pino. Nem tão pouco o mortal atrás encarpado. As mães precisam amar. Saudavelmente. E esse pequeno detalhe ad hoc representa umas olimpíadas diárias. Pé fora. Pé dentro. Da trave. Obviamente. De qualquer das formas, apesar da maternidade me parecer uma disciplina [muito] exigente, não lhe reconheço complicações demais que a assemelhem a um bicho de sete cabeças como muitas mulheres afirmam ser. Detesto exageros. Aprendi a refreá-los recentemente.

Falar é fácil. Reclamam vocês. E com razão. Costumo evitar pôr o bedelho em teorias que não domino. É um principio. Meu. Usado com bastante rigidez. Mas... de quando em vez meto. Fundo. [o que seria da vida se não infrigíssemos umas poucas leis pessoais]. Falo muito deste tema porque é simples: faz parte da minha vida (e é bastante comum às pessoas que me rodeiam, principalmente por causa das amizades com a mesma faixa etária). À medida que se vai crescendo somos confrontados, inevitavelmente, pelas leis da vida e pelo conforto que determinadas posições (nos) trouxeram. Conforto este que nos torna seres lamentavelmente (mais) egocêntricos. E comodistas. Mas atenção. O egocentrismo em nome próprio, com a utilização devida, nem sempre é sinónimo de palas-para-os-olhos-como-os-burros. Desde que a gente não magoe o outro é usar com a respectiva moderação que se lhe recomenda. Em todo o caso eu não vou falar só do que penso. Vou falar, em concreto, de uma estória. Tudo porque defendo uma corrente qualquer filosófica (e pedagógica) que diz mais ou menos isto: os filhos não são obstáculo para nada. [sim, se os tiver posso vir a mudar de opinião. mas espero que não]. Podem cair-me em cima com as vossas opiniões contrárias. Ou com as vossas estórias. Sintam-se à vontade. 

Já ouvi queixas de várias amigas mães nessa exacta situação. Já ouvi populares, desconhecidos e anónimos, reiterar o mesmo. O não fazer qualquer coisa que desejavam muito fazer por causa dos filhos [ou em nome dos filhos]. E é por eu achar que justificar-se assim é mais ou menos como entrar num beco sem saída (ou então passar o tempo a tentar morder o rabo sem o conseguir apanhar) que vos vou contar a estória da Roberta. A Roberta era minha estetecista em Lisboa. Tinha mais ou menos a idade da minha irmã mais velha. 36 quando a conheci. Em 2012-2013 por aí. Duas filhas pequenas. Uma ainda bebé de colo. Um marido. Uma casa para pagar mais as contas adjacentes. A Roberta era licenciada em Economia, mas na verdade não gostava muito da área em que se tinha formado. Aquilo com que ela sempre sonhara era ser esteticista. Como toda a gente, boa do juízo, a Roberta hesitou, várias vezes. E como toda a gente, boa do juízo, a Roberta jogou tudo pr'ó alto. Um dia despediu-se do trabalho [fixo] e inscreveu-se na escola de estética.

A estória, narrada pela própria, durou algumas depilações. Muitas unhas. E umas massagens. Um dia perguntei-lhe: Roberta até aqui tudo bem, mas falta uma peça ao puzzle. O que é que tu fizeste para poderes tirar o curso? É que parece tudo muito bonito, mas eu suspeito que não me estás a contar tudo... Claro que ela não estava a contar tudo. Ah, você quer saber o que é que eu fiz para poder pagar as contas e sustentar as minhas filhas enquanto estudava, é isso? Era diarista. Aqui chamam de empregada de limpeza, né? A Roberta era muito inteligente. Senti automaticamente uma grande empatia por ela. Admiração. Profunda. E genuína. Que coragem!

Voltei a esta estória porque recentemente ouvi alguém dizer que não ia atrás dos seus sonhos porque tinha (agora) uma filha... E os filhos não devem justificar nem a nossa falta de coragem nem a nossa falta de carácter. Há meios que justificam os fins, mas... os filhos, os filhos não deviam justificar falhas (nossas) tão grandes. Antes pelo contrário. Os filhos deviam ser a primeira razão para irmos atrás do que nos faz feliz. Nesse mesmo dia em que a Roberta me revelou a parte mais interessante da (sua) estória, ela também me disse: eu tive medo, claro que tive, mas eu devia isso às minhas filhas, sabe... Eu devia-lhes uma mãe inteira, feliz, um bom exemplo a seguir, foi por isso que não desisti e que avancei, mesmo tremendo. Vai dar errado não... Quando você quer, você arranja forma. Arranja mesmo. Eu não tenho filhos. Volto a dizer. Mas tenho algumas limitações impostas pela minha condição. Não gosto de usar a doença para bater no ceguinho. Nem gosto muito de repetir posições. Mas tudo serve um propósito. Não me venham com tretas. Que porra é que vocês enfiaram na cabeça que não conseguem fazer por causa de serem mães? Vá, atirem. [eu sou muito boa a encontrar soluções... para os outros].

Se eu vos contar como é que ela foi parar ao salão que eu frequentava vocês não acreditam... A proprietária encontrou-a no autocarro com os livros da escola debaixo do braço. Meteu conversa, gostou e convidou-a para trabalhar. [correu riscos (pequenos) obviamente. mas apostou ainda que os tivesse]. Há estórias incríveis, não há?! A Roberta não era só uma mera esteticista. Tornou-se minha amiga. Tinha (e espero que ainda tenha) uma energia contagiante. Perto dela era impossível não sentir boas vibrações. Diarista. 

Que nome tão bonito para quem vai atrás daquilo em que nunca deixou de pensar.

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2 comments

  1. Há mulheres que nos dão belos exemplos do que é ser mãe e mulher a tempo inteiro.
    Diarista.
    Uma bonita história, CC.
    Beijinhi

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    1. Mulheres que nos renovam a esperança.
      Beijinho Maria

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