Pagas tu ou pago eu?

terça-feira, fevereiro 21, 2017

Malta, vamos pôr a mão na consciência, sim?! Dois minutos do vosso (precioso) tempo. Não mais. [vou contar-vos uma estória que se repete muitas vezes]. Eu desloco-me todas as semanas até ao hospital da minha área de residência. São mais ou menos 25kmx2. Uma ida e uma volta... por vezes multiplicadas por mais dois ou mais três, conforme as vezes que são precisas lá ir. Enquanto doente oncológica eu tenho direitos. Como por exemplo o direito de usufruir do transporte hospitalar providenciado pelo próprio hospital. [neste caso o Hospital de Santo Espírito em Angra do Heroísmo, Ilha Terceira]. Por vontade e decisão próprias eu não o utilizo. E passo a explicar porquê.

O tratamento de quimioterapia a que estou sujeita fragiliza, e baixa, as defesas do meu sistema imunitário. Como meio de prevenção, e protecção, evito o contacto com outras pessoas nas fases mais periclitantes. É por causa disso que não me convém (nada) estar perto de pessoas que (involuntariamente) possam ser portadoras de vírus ou bactérias [todos vocês são, doentes ou não]. Mas... mesmo que eu não tivesse este pequeno pormenor acoplado ao meu estilo de vida actual, eu não utilizaria à mesma o transporte cedido pelo hospital. (até precisar é claro). Prefiro ir no meu carro. [embora às vezes seja necessária a presença de um co-piloto nos dias menos capazes]. Eu não tenho rendimentos (do trabalho dependente). Actualmente. E infelizmente a gasolina paga-se. Mas quando não houver dinheiro para a comprar, há sempre um penico onde mijar. (lembram-se dessa grande ideia empreendedora que uma dita telenovela brasileira introduziu há uns anos atrás? nada como testar).

Nos dias de tratamento, exames e consultas, eu tenho direito, também, a uma refeição e lanche dependendo do tempo que os mesmos demorem. Por norma não como aquilo, que por direito, me oferecem. É verdade, o menu hospitalar nem sempre faz as delícias (e os desejos) do doente, mas não é só (por) isso. Prefiro levar de casa. Ou comprar. [se bem que evito comer por fora pelas mesmas razões acima descritas. nunca confiando. pelo menos por agora]. E sinto-me bem assim. Contribuindo de uma forma que me parece bastante justa, prática e honesta para a economia (e poupança) de uma entidade pública. Neste caso regional. E é sobretudo sobre isso que versa o meu texto de hoje. Sobre o desperdício de recursos. E a falta de bom senso... de algumas pessoas. Não querendo dizer com isto que as minhas virtudes são maiores que as vossas. Claro que não.

Os doentes oncológicos têm direitos sim. Mas é simplesmente ridículo dizerem que, aqueles que sobrevivem, ficam com a vida feita. Nunca ouvi uma barbaridade tão absurda como esta. Absurda e... descabida.  Não ousem sequer pensar que esses direitos, que nos são atribuídos, servem para enriquecermos [até porque a riqueza é algo bastante mais caro do que o património (e os bens) materiais]. Infelizmente a desinformação e a ignorância humanas só desencadeiam generalizações baratas contra as quais temos de lutar incessantemente. Tomara que tudo fosse uma questão de tempo. Provisória como outras coisas demais. Caso seja do vosso interesse obter mais informação sobre os direitos dos doentes oncológicos podem fazê-lo aqui [Laço], aqui [Onco+] e aqui [Liga Portuguesa contra o Cancro].

Para usufruir desses direitos, o doente tem que requerer um atestado de incapacidade multi-usos atribuído, em Junta Médica, pelo Delegado de Saúde da respectiva área de residência da pessoa. [é mais ou menos nesta fase burocrática que eu me encontro]. Apesar das leis existirem... elas valem o que valem. Quem nunca teve o azar de precisar de contratar um advogado não sabe a sorte que tem... tenho dito. Faz-se de tudo com as leis. Assim. Mesmo. À laia de pegas. Dá-se-lhes sempre a volta. Torna-se flexível aquilo que não é. Acrescentam-se vírgulas. Muitas. E discrimina-se, sem qualquer pudor, e sem qualquer esforço, aqueles que por sorte, (ou azar), nasceram fora dela. O nosso sistema social é de facto... surpreendente. Se for doente oncológico, [o que eu desejo sinceramente que não seja], veja lá se escolhe uma das subsecções de doença que (já) vêem contempladas na legislação. Caso contrário, a lei, para si, não existe. Nem a lei. Nem a protecção social. 

Eu saí da faculdade em 2006. E sempre trabalhei. E sempre contribuí para a máquina do Estado Social. [na qual ainda acredito pese a todas as circunstâncias]. Dois anos no estrangeiro. Incluídos. Até 2016. Quando tive de parar por força maior. Eu não reclamo nada. A não ser aquilo a que tenho direito. Mais do que isso dispenso. De boa vontade. Dispenso os transportes. As refeições. As consultas de rotina fora da agenda, apertada, que já tenho por imposição. Enquanto me for permitido eu subsisto com o que tenho. Até se acabar. E é a respeito disso que convido todos vocês a reflectirem. Sem ressentimentos. E sem críticas. Longe disso. [agora vivemos numa época em que temos de nos justificar sobre tudo. e sobre nada. até um espirro. incontrolado]. Mas com urgências.

Nós criticamos levianamente as instituições. [e atenção... acho muito bem que o façamos quando não nos restam outras saídas]. Muitas pessoas, com vidas completamente inimagináveis, vivem dependentes delas. Umas por assumptiva necessidade. Outras porque o modus operandis se lhes colou à pele. Os recursos custam dinheiro. Custam profissionais. Custam voluntários. E custam bens e matérias-primas. Muitos. Fazer com que as estruturas resultem e sejam eficazes também é um dever nosso enquanto cidadãos. [pelo menos aqueles que estejam interessados em deixar um legado melhor aos seus filhos]. Assim sendo, queixem-se menos. [só quando tiverem dores, ok?]. 

Deixem, em primeira instância, os recursos pro bono que existem para aqueles que efectivamente precisam... e não podem, como muitos de nós, levar comida de casa ou deslocar-se num carro próprio. O Estado Social não se faz só dos descontos que cada um de nós lá enfia todos os meses. [e olhem que eu tenho razões, mais do que suficientes, para estar de candeias às avessas com os juristas todos deste país]. A sociedade, mais do que o estado, também se faz do respeito, (e discernimento), público que todos nós deveríamos ter uns pelos outros. Chega de carochinhas, sim?! Querem ajudar... Façam-se úteis.

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1 comments

  1. "Queixem-se menos"
    É esta a frase que muitos deviam ler e ouvir.
    Em tempos, na minha profissão, muitos colegas que vivem bem, alguns no topo da carreira, queixavam-se constantemente dos cortes, que todos sofremos, dos escalões que não subiam, no geral, reclamavam tudo e de todos.
    Foram muitas as vezes, e eu sofri também com os cortes, que lhes disse " Não nos podemos queixar. Certo que já ganhamos melhor, mas vamos tendo um salário razoável, o país não está bem, sabemos que temos de fazer sacrifícios".
    Olhavam para mim.
    Nunca, CC, em várias cirurgias que fui submetida, me aproveitei de nada.
    Um belo dia, no Hospital de Santa Maria, e que Deus me perdoe, que detesto comida dos hospitais, só conseguia comer a sopa, o pão e o leite ou chá, uma enfermeira dizia que eu curava-me da "doença" ( felizmente não fui operada por doença), mas não da fome.
    O povo está mal habituado, aproveitam-se de tudo e de todos, para obter proveito.
    Eu agiria e ajo da mesma forma. Se posso arcar com determinadas despesas, estou a ajudar os que têm menos possibilidades(alguns nem sabem os direitos que têm) e as instituições.
    Um beijinho





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