Pequenos grandes nadas

quarta-feira, fevereiro 01, 2017

Fiz depilação. Meia perna. Muito a medo. Podia ser uma coisa banal como todas as outras que fazem parte do universo feminino... mas dadas as circunstâncias dos últimos meses, (quase um ano), teve outro peso. Leve. [smiley!]. A quimioterapia levou-me o cabelo, (várias vezes), e os pêlos. Do corpo todo. [menos os dos bigodes]. Agora que as dosagens de manutenção são mais fracas do que as do tratamento intensivo, voltaram a nascer. [o nosso corpo é de facto a melhor máquina que nós temos]. A capacidade de se regenerar é surpreendente.

Não acredito que a perda de cabelo seja a única responsável por nos sentirmos menos femininas durante o processo de tratamento. O cabelo não. A (ideia de) perda sim. Acho que é o facto de (nos) vermos vedadas algumas possibilidades aquilo que nos faz sentir mais limitadas. E impotentes. Estive um ano sem pintar as unhas, sem usar maquilhagem, sem fazer depilação e sem mais uns extras. Fez-me confusão. Confesso que fez. Porque não sendo um exercício indispensável à minha existência, tornou-se um hábito e uma rotina entranhados em mim. E isso é que é, verdadeiramente, o mais complicado: a impossibilidade das coisas que nos caracterizaram

Sempre gostei de ter as unhas arranjadas. E com cor. Sempre pintei o cabelo. Com regularidade. Sempre fiz os possíveis para sair de casa de cara lavada. E com batom. E apesar de ter umas quantas amigas que não se depilam no Inverno, (como é que é possível?!), eu sempre me depilei o ano inteiro. Com chuva ou sol. Não foi estranho não fazê-lo. Foi mais estranho não poder fazê-lo. [conseguem perceber a diferença?]. E o motivo pelo qual não podia fazê-lo.

Voltar a estes pequenos nadas, aos poucos, é um processo novo. [totalmente novo]. Uma pessoa quando se desabitua de alguma coisa, leva algum tempo para se habituar, a ela, de novo. É a questão do hábito. E de desconstruir o medo. Sim. Medo. Medo de que a pele faça reacção alérgica. E por aí fora. Portanto, sempre que consigo fazer uma dessas coisas, ligeiramente insignificantes para quem nunca se viu privado delas, sinto-me feliz. E orgulhosa. Por quanto me custou perdê-las. E por quanto me custa, actualmente, reavê-las. Esta fase é, apesar de tudo, boa, mas simultaneamente, exigente. É preciso sangue frio. Todos os dias. E (muita) calma. 

Tudo na nossa vida se resume um pouco à falácia que é o controlo. [não é verdade?]. Tomamos por certas várias coisas (principalmente as que julgamos que conseguimos controlar). E, às vezes, só para repensarmos um bocadinho o sistema todo em que vivemos, há algo que nos mostra que isso não é assim tão linear quanto parece ser. Fazer depilação é fácil, quando se faz todos os meses. Quando é parte da rotina. Fazer depilação no meu contexto não é assim tão simples. Ou tão leviano.

O engraçado é pensar que o era quando eu achava que tinha controlo sobre as coisas. Essas coisas. E outras. Quando eu pagava à esteticista para me infligir uma dor, desnecessária, em nome do que eu considerava um exercício de beleza. Ou seja, o poder que nós achamos que temos pode ser um grande entrave à valorização (real) das coisas. Apesar de não ser nada fácil, [palavra de CC], o certo é que (con)vivendo, lado a lado, com a iminência da perda, aprendemos a reavaliar tudo. E a distribuir os pesos de forma diferente. O poder pode ser enganador, [bastante], mas a sua ambiguidade, palpável, é também a forma, primeira, de recuperarmos a confiança. Que bom, que a vida, tal como o (nosso) corpo, não param nunca de nos surpreender. I'm amazed!

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