cadeia de vale de judeus

Vidas Suspensas

terça-feira, março 28, 2017



Não sei se tiveram oportunidade de ver o 1º episódio da nova série de reportagens da SIC com a jornalista Sofia Pinto Coelho... se não tiveram cliquem aqui, [não consigo colocar o vídeo], para conhecerem a estória (fan-tás-ti-ca) do recluso mais antigo de Portugal: Delfim Sousa... ou Delfim 353. 

Sou fã, (com "F" grande), do trabalho da Sofia. Tive até oportunidade de dizê-lo pessoalmente à jornalista, mas... não o disse. Foi num dia de trabalho ocasional, nos tempos da consultoria de lingerie na baixa de Lisboa, que me calhou em sorte atendê-la. Talvez tenha sido a vergonha, em nome próprio, que não me tenha deixado dizer-lhe o quão feliz estava por conhecer alguém que considero uma referência na minha área de trabalho. Como é que eu podia explicar-lhe que aspirava, muito, a fazer o que ela fazia, enquanto lhe ajeitava as mamas? É... há coisas - e estados - difíceis de traduzir por palavras. Porventura, a vida é isso mesmo: um puzzle gigante repleto de peças soltas que em determinadas alturas - raras - se encaixam sem grande esforço.

Mesmo admirando de sobra o trabalho da Sofia, convém lembrar que não se conseguem produtos destes sem várias mãos - e vozes - ao barulho. Portanto, o meu orgulho é extensível à equipa de talentos que, ao lado dela, torna o jornalismo português mais nutritivo. 

Depois de ter visto o episódio, pesquisei algumas coisas sobre o programa nas redes sociais. (um tema recente aqui no blogue). Os comentários, lá está, dariam um bom estudo sociológico. O que me surpreendeu durante a pesquisa - e não sei porquê - juro que não sei, foi o facto de Delfim ter criado um perfil de facebook dentro da prisão. Através dele, conheceu uma mulher com quem manteve um "namoro virtual" durante um ano. Na sua primeira saída precária, ao fim de muitos anos, e sob os olhares atentos de uma equipa de reportagem, conheceram-se pela primeira vez. Quero acreditar que nesta estória, em particular, o facebook tem um papel importante. E positivo. (e a parte em que Delfim revela que teve de comprar um dicionário? é que nem de propósito. incrível. simplesmente incrível).

Então, uma vez que continuo sem fazer o que a Sofia faz, e bem, vou dar um ligeiro toque meu à reportagem. Um final (mais) romântico. [defeito de fabrico]. Acho que Neruda cai bem. Ao Delfim. E a todos nós. Se nada nos salva da morte, pelo menos que o amor nos salve da vida. Que assim seja.

clickbait

Isto já não é o que era...

segunda-feira, março 27, 2017


Não me venham com conversas da treta. Não me venham dizer que quem tem um blogue tem de levar com isto ou com aquilo sem piar baixinho - e sem se (poder) indignar - porque... não tem. Não me venham com a estória de que quem se "expõe" está a pedi-las ou a merecê-las. Não é uma questão de se pôr a jeito. Não me parece. Mais do que um saco de pancada para alguns seres humanos desesperados, a internet está a revelar-se uma ferramenta perigosa nas mãos de quem não possui as bases mínimas para usá-la. E mesmo que possua. [ainda haveria esperança se esse fosse o único problema]. Os blogues, segundo me lembro, nasceram na sombra dos seus autores. Isto é, contrariamente ao que se esperaria de um órgão de comunicação social, os relatos na primeira pessoa passaram a ser objecto de atenção precisamente por isso: pelo cunho pessoal impresso. Ou parcialidade, como preferirem. Depois, muitos anos depois, vieram as receitas. A publicidade. O marketing. O dinheiro. E a inveja alheia de quem assistia (e assiste) a isso. Estragou(-se) tudo.

Isto já foi mais divertido. Já teve mais piada. E já foi mais serviço público do que aquilo que é actualmente. Distanciámo-nos muito da essência da coisa. E mesmo que eu possa não estar em pleno usufruto de todas as minhas faculdades mentais para analisar os factos, a verdade é que parece que é uma moda generalizada, a do consumo excessivo de informação sem selecção. Sem interpretação. E sem filtro! Assusta-me imenso que as pessoas não escolham o que consomem. Não faz sentido. Nunca fez. O mais triste disso tudo é que há um mundo, cheio de armadilhas e artimanhas, pronto para "apanhar" quem gosta de não pensar. E por isso mesmo escrever já não é o que era. Tenho dito. Escrever para devoradores de alma? Não obrigada. Escrever, hoje em dia, é estar constantemente a responder a requerimentos deste e daquele para justificar uma vírgula em vez de um "e". Deixou de ser natural. Deixou de ser um exercício de fruição. Não sabem o que é que significa fruição? Abram um dicionário, porra! Será que se o Eça de Queirós tivesse facebook, o gajo ia aguentar-se com as perguntas do público? Ouve lá meu, porque é que demoraste 20 páginas a descrever os cortinados de uma sala? E porque é que o Carlos da Maia e a Maria Eduarda tinham que ser irmãos? Não havia nada mais original para a época? Não aguentaria com certeza.

Muito disseram e fizeram para que este projecto pessoal, no qual agora têm os olhos postos, fosse abortado. Várias vezes. Se (ainda) não é do conhecimento público, passa a ser. Eu fui processada, em tribunal, por uns patrões que se sentiram lesados por alguns textos aqui partilhados. Cheguei até a ter que optar entre escrever, por hobby, neste espaço, e a minha relação amorosa. Talvez isto possa parecer um pouco novelesco, mas desafortunadamente, é verdade. E contra algumas circunstâncias, e algumas pessoas, eu continuei a escrever. Coisa que agora, ultimamente, não me apetece muito. E digo-vos porquê. 

Porque a minha teoria de que os seres humanos são um bocadinho voyeuristas e sentem (mais) apetite por estórias dantescas continua a fazer sentido. Pelo menos para mim. É uma espécie de revolta sim. O "público" adora desgraças. É a verdade. Nua e crua. Ainda para mais num pedaço de terra tão pequeno e circunscrito como o de uma ilha (onde eu estou). Há dias em que realmente faço um esforço para evitar rotular os meus conterrâneos. Há dias em que o benefício da dúvida é renovado minuto a minuto. Há outros em que não dá para isso. Em que a corda não estica mais. A experiência diz-me que a minha doença trouxe-me mais leitores e mais visualizações, mas também trouxe comentários dispensáveis. Maioritariamente vindos de pessoas da minha ilha. O que também é uma realidade. Pessoas que me lêem, às vezes até se manifestam, mas que não têm tomates para me dizer olá na rua. E digo-vos isto não por vedetismo. (que a Terceira ainda me parece um sítio pequeno para vedetas). Mas porque, se calhar, ingenuamente, acreditei nas pseudo-relações fictícias que a internet é maestra em fomentar. As pessoas - algumas - continuam a ser cobardes. Pouco práticas. E pouco honestas.

Recentemente, uma das bloguers mais lidas de Portugal queixava-se da forma pouco ética em como o "social", (leia-se digital), se apropriava das vidas alheias. Da forma bárbara como vasculhavam a vida dela em relação ao divórcio que estava a atravessar. Será que nós estamos realmente preocupados uns com os outros? Não me parece. E de facto é em boa parte pelas más interpretações que os textos geram que não me apetece vir aqui tantas vezes como vinha antes. Mas não é só isso. É também um bocadinho por causa do sentido de oportunidade. Do liga e desliga constante. Dos que só percebem a existência humana quando ela é divulgada - e afirmada - no facebook. Eu não lido bem com isso. Talvez seja um dano colateral da visibilidade que o blogue teve no último ano. E da forma como tudo se precipitou. (estamos a caminho do meio milhão de visualizações all time). Eu não estava à espera disso nem preparada para isso. E não sei bem como comportar-me relativamente a este tema. E a tantos outros. Só sei que há dias em que me apetecia ser uma anónima comum. 

E andava eu preocupada com o facto de vos ter poupado aos pormenores mais chocantes dos últimos meses... silly girl. Portanto, acho que estou no direito, como estão todos os outros bloguers, de chamar um conjunto de nomes feios a um número particular de pessoas que só lê o blogue para fazer juízos de valor infundados sobre aquilo que é escrito. E sentido. Realmente há coisas que talvez só se percebam passando por elas. Dizer mais para quê? E escrever sobre isso porquê? A internet está bonita, está... Talvez se fossemos todos como esta moça, muitos episódios lost in translation não existiriam. Portanto, eu continuo cá. Bastante atrofiada dos cornos. Mais não digo porque não me apetece e porque... alguns de vocês não entenderiam. Portanto vão ler, vão ler... Que ler ainda me parece ser, paradoxalmente, das melhores formas de educação a que alguém pode aceder.

autores brasileiros

Trinta e Oito e Meio

sábado, março 25, 2017


A Maria Ribeiro foi uma das razões pelas quais fiz as pazes com a leitura. Merece-o. Tal como nós merecemos lê-la. (devemo-nos isso). Apaixonei-me enquanto assistia a uma entrevista [dela] na televisão. Pensei: nós podíamos ser amigas. Pior que isso: nós podíamos ser amigas e darmo-nos bem. Foi amor à primeira... estória que ela contou. É raro - e difícil - tropeçar nestas químicas ocasionais que nos fazem... felizes. Depois, foi tudo muito rápido - e muito fácil. (quando a gente não vacila, é bom sinal). Eu queria muito o livro dela. Queria muito conhecê-la. E queria muito sentir com ela. E senti-la também. Melhor que tudo isso junto, só mesmo uma coisa: a Maria, para além de ser uma mulher - e uma escritora - inteligente, também é promessa-paga. Isto é, dificilmente será uma decepção para quem a lê. 

Claro que o facto do seu livro Trinta e Oito e Meio ser um conjunto de crónicas, reflexões e desabafos ganhou vantagem. Bastante. Não aprecio romances, nem livros sobre o fantástico, e muito menos dicas de auto-ajuda. As estórias que mais me cativam são as que relatam experiências empíricas na primeira pessoa. No entanto nem todos os relatos em nome próprio me convencem. Só os que ousam ser sinceros. E Maria é. Da cabeça ao coração com a simplicidade com que os brasileiros admiram - e elogiam - a vida. Poucos livros me emocionaram. O da Maria conseguiu-o. Várias vezes. Ao longo de páginas que eu desejei nunca terminarem. (fazia muito tempo que não lia um livro assim... daqueles que a gente atrasa, propositadamente, o seu fim).

Um homem, também ele muito inteligente, Gregorio Duvivier, escreveu isto na capa de Trinta e Oito e Meio: «(...) Maria fez o Brasil rir alto - semanalmente - daquele jeito que a gente só ri com amigo de infância. Ler a Maria é ganhar uma amiga de infância. Maria escreve com quem conversa, e conversa como ninguém. Este livro que você tem em mãos foi um baita sucesso num país em que livros não costumam fazer um baita sucesso. Agora você não tem mais desculpas. Maria atravessou o oceano. Isto há de ser um baita sucesso.»

Tem tudo para ser. Os relatos de uma quase quarentona sobre a imperfeição da vida são melódicos. Maria articula o que nasce desarticulado. Consegue vestir de poesia - mas sem grandes artefactos - aquilo que é menos bonito, mas que não é menos humano: o insucesso e o falhanço das relações e dos sentimentos. Trinta e Oito e Meio é uma pomada de aloe vera sob as feridas mais dolorosas da nossa existência. E se calhar foi muito por causa disso que eu gostei tanto dele. Com a Maria nós respiramos de alívio... Entramos numa espécie de psicoterapia em voz alta. Sem medos. E sem receios. É normal os filhos não gostarem dos pais. É normal não acertamos no primeiro casamento... no segundo e no terceiro. É normal querermos ter filhos. Não querermos ter filhos. Não saber se queremos ter. Tê-los e não gostar de os ter. É normal ir a caminho dos 40 com as inseguranças dos 20s. É tudo normal. Normalíssimo. Ainda bem que a Maria escreve, sem falsos moralismos, sobre a condição vulnerável de que todos somos feitos. Aliás, acho que é isso que sempre invejei nos brasileiros: o não viverem reféns de falsos moralismos. Gente sarada é outro nível!

Posso ter dado a entender que Maria é triste, mas não é. É apaixonante. Apesar de todos os ansiolíticos que toma para controlar as dores do que não controla(mos), Maria é vida. Nua, crua, bonita. Eu, que nunca visitei a cidade fetiche da autora de Trinta e Oito e Meio, diria que Maria é o rio Senna acendendo no fim do dia. «(...)E quando alguém que a gente gosta também gosta da gente é como chegar em Paris». Boa viagem.  

cancro

Uma Noite pela Vida

quinta-feira, março 23, 2017


Como foi noticiado na página de facebook do blogue, no passado Sábado, (dia 18), realizou-se a VI Gala de Beneficência a favor da Liga Portuguesa contra o Cancro - Núcleo Regional dos Açores. O convite para ser interveniente, e oradora, bateu-me à porta em Janeiro e... apanhou-me de surpresa. É mais ou menos fácil "falar-vos" através desta plataforma, que em boa parte eu própria controlo... Não é nada fácil falar-vos cara a cara. Mesmo que digam que a minha profissão ajuda. [ajuda muito pouco]. Apesar de ter respondido imediatamente ao convite, e afirmativamente, até ao dia pensei várias vezes em arranjar uma desculpa à última da hora e não aparecer, mas não é esse o modus operandis que me caracteriza. E portanto, mesmo que ela, (a vida), nos custe e nos resulte difícil em determinados dias, o que tem de ser tem muita força (mesmo com uma grande dose de nervos, medo e ansiedade). Afinal de contas, I've been there, done that.

Ao contrário das outras edições anteriores, em que os testemunhos de doentes oncológicos foram dados por pessoas que já tinham terminado os respectivos tratamentos, esta foi diferente. Portanto, posso dizer que a organização decidiu "inovar" escolhendo-me a mim. Por essa razão, o facto de ainda estar em tratamento, não pude participar no evento completo, mas pude - ainda que auxiliada pela minha máscara - "conversar" com o público presente. Nos dias anteriores à Gala as análises revelaram que o sistema imunitário estava fragilizado e portanto tive que entrar na minha bolha de segurança para evitar bichezas alheias. As tais limitações com as quais vamos aprendendo a (con)viver.

De qualquer das formas, e logo após o convite, decidi que a aceitá-lo nunca iria dar o meu testemunho enquanto paciente oncológico por uma simples razão: respeito. Cada experiência é uma experiência e não devemos generalizá-la. Aliás, tal como disse no jantar, uma das primeiras coisas que se aprende quando se passa muito tempo nos hospitais é a não comparar a nossa situação com a de ninguém. Pode parecer absurdo o que vos estou a dizer, lendo-o sem o contextualizar. Mas quem o sabe, sabe porque o digo. 

A segunda coisa que me parecia importante dizer ao público é o facto de, nos últimos tempos, se ter mediatizado, e muito, o cancro. Bem ou mal, não sei. Diria que mal. E de forma errada. E contra mim falo obviamente. Acho que há uma urgência das pessoas que se vêem a braços com a doença em partilhar algo com o mundo, mas partilha-se muito pouco aquilo que ela na verdade é ou representa. Na Gala referi a analogia do iceberg porque me parece bastante conveniente. Quem está de fora vê um pico, mas está longe de imaginar o que se esconde por debaixo da linha do mar. Eu sei que não se partilha tudo porque existe também a preocupação de poupar o outro aos detalhes mais duros, chocantes e inconvenientes. Eu própria já deixei de ler e seguir alguns blogues (e algumas pessoas) nas redes sociais por esse motivo. Porque me falta obviamente coragem. Mas é de coragem que esses conteúdos são feitos. O que é importante dizer, e foi isso que eu quis realçar, é que o cancro não é uma constipação. E quem o tem e está a braços com ele não tem obrigatoriamente de dar provas de sobrevivência. Querem partilhar, partilhem. Não querem, não o façam. Não há nenhuma regra de etiqueta aplicável nestas situações.

Por último, quis deixar a nota da saúde mental. É muito difícil comprovar cientificamente a importância - e influência - do nosso estado psicológico no desenvolvimento de determinadas anomalias no nosso organismo, mas eu - baseada em algumas leituras e na minha própria experiência - acredito que sim. Acredito que mente sã é corpo são. Tal como partilhei com quem estava presente no evento, antes de ficar doente, eu vivia numa bola de neve que eu própria tinha criado. Uma bola de neve de tristeza e insatisfação. A bola de neve foi crescendo, crescendo, crescendo... e um dia, sem que eu me desse conta, passou por cima de mim. Portanto, uma coisa que tomo como certa e irrefutável é que não fazermos aquilo de que gostamos e aquilo que nos torna felizes conduz-nos à doença. Portanto, evitem, o que puderem, adoecer.

Resta-me agradecer a quem esteve presente e a quem contribuiu activamente para esta causa. Tivemos lotação esgotada! E a certeza de que a LPCC - Núcleo Regional dos Açores poderá continuar a ajudar pessoas da nossa ilha como tem feito até aqui. Quero ainda deixar um bem-haja carinhoso ao grupo de pessoas que põe de pé este evento há mais de 5 anos. Que se mobiliza por uma causa que podia não ser a deles. Mas é.