Isto já não é o que era...

segunda-feira, março 27, 2017


Não me venham com conversas da treta. Não me venham dizer que quem tem um blogue tem de levar com isto ou com aquilo sem piar baixinho - e sem se (poder) indignar - porque... não tem. Não me venham com a estória de que quem se "expõe" está a pedi-las ou a merecê-las. Não é uma questão de se pôr a jeito. Não me parece. Mais do que um saco de pancada para alguns seres humanos desesperados, a internet está a revelar-se uma ferramenta perigosa nas mãos de quem não possui as bases mínimas para usá-la. E mesmo que possua. [ainda haveria esperança se esse fosse o único problema]. Os blogues, segundo me lembro, nasceram na sombra dos seus autores. Isto é, contrariamente ao que se esperaria de um órgão de comunicação social, os relatos na primeira pessoa passaram a ser objecto de atenção precisamente por isso: pelo cunho pessoal impresso. Ou parcialidade, como preferirem. Depois, muitos anos depois, vieram as receitas. A publicidade. O marketing. O dinheiro. E a inveja alheia de quem assistia (e assiste) a isso. Estragou(-se) tudo.

Isto já foi mais divertido. Já teve mais piada. E já foi mais serviço público do que aquilo que é actualmente. Distanciámo-nos muito da essência da coisa. E mesmo que eu possa não estar em pleno usufruto de todas as minhas faculdades mentais para analisar os factos, a verdade é que parece que é uma moda generalizada, a do consumo excessivo de informação sem selecção. Sem interpretação. E sem filtro! Assusta-me imenso que as pessoas não escolham o que consomem. Não faz sentido. Nunca fez. O mais triste disso tudo é que há um mundo, cheio de armadilhas e artimanhas, pronto para "apanhar" quem gosta de não pensar. E por isso mesmo escrever já não é o que era. Tenho dito. Escrever para devoradores de alma? Não obrigada. Escrever, hoje em dia, é estar constantemente a responder a requerimentos deste e daquele para justificar uma vírgula em vez de um "e". Deixou de ser natural. Deixou de ser um exercício de fruição. Não sabem o que é que significa fruição? Abram um dicionário, porra! Será que se o Eça de Queirós tivesse facebook, o gajo ia aguentar-se com as perguntas do público? Ouve lá meu, porque é que demoraste 20 páginas a descrever os cortinados de uma sala? E porque é que o Carlos da Maia e a Maria Eduarda tinham que ser irmãos? Não havia nada mais original para a época? Não aguentaria com certeza.

Muito disseram e fizeram para que este projecto pessoal, no qual agora têm os olhos postos, fosse abortado. Várias vezes. Se (ainda) não é do conhecimento público, passa a ser. Eu fui processada, em tribunal, por uns patrões que se sentiram lesados por alguns textos aqui partilhados. Cheguei até a ter que optar entre escrever, por hobby, neste espaço, e a minha relação amorosa. Talvez isto possa parecer um pouco novelesco, mas desafortunadamente, é verdade. E contra algumas circunstâncias, e algumas pessoas, eu continuei a escrever. Coisa que agora, ultimamente, não me apetece muito. E digo-vos porquê. 

Porque a minha teoria de que os seres humanos são um bocadinho voyeuristas e sentem (mais) apetite por estórias dantescas continua a fazer sentido. Pelo menos para mim. É uma espécie de revolta sim. O "público" adora desgraças. É a verdade. Nua e crua. Ainda para mais num pedaço de terra tão pequeno e circunscrito como o de uma ilha (onde eu estou). Há dias em que realmente faço um esforço para evitar rotular os meus conterrâneos. Há dias em que o benefício da dúvida é renovado minuto a minuto. Há outros em que não dá para isso. Em que a corda não estica mais. A experiência diz-me que a minha doença trouxe-me mais leitores e mais visualizações, mas também trouxe comentários dispensáveis. Maioritariamente vindos de pessoas da minha ilha. O que também é uma realidade. Pessoas que me lêem, às vezes até se manifestam, mas que não têm tomates para me dizer olá na rua. E digo-vos isto não por vedetismo. (que a Terceira ainda me parece um sítio pequeno para vedetas). Mas porque, se calhar, ingenuamente, acreditei nas pseudo-relações fictícias que a internet é maestra em fomentar. As pessoas - algumas - continuam a ser cobardes. Pouco práticas. E pouco honestas.

Recentemente, uma das bloguers mais lidas de Portugal queixava-se da forma pouco ética em como o "social", (leia-se digital), se apropriava das vidas alheias. Da forma bárbara como vasculhavam a vida dela em relação ao divórcio que estava a atravessar. Será que nós estamos realmente preocupados uns com os outros? Não me parece. E de facto é em boa parte pelas más interpretações que os textos geram que não me apetece vir aqui tantas vezes como vinha antes. Mas não é só isso. É também um bocadinho por causa do sentido de oportunidade. Do liga e desliga constante. Dos que só percebem a existência humana quando ela é divulgada - e afirmada - no facebook. Eu não lido bem com isso. Talvez seja um dano colateral da visibilidade que o blogue teve no último ano. E da forma como tudo se precipitou. (estamos a caminho do meio milhão de visualizações all time). Eu não estava à espera disso nem preparada para isso. E não sei bem como comportar-me relativamente a este tema. E a tantos outros. Só sei que há dias em que me apetecia ser uma anónima comum. 

E andava eu preocupada com o facto de vos ter poupado aos pormenores mais chocantes dos últimos meses... silly girl. Portanto, acho que estou no direito, como estão todos os outros bloguers, de chamar um conjunto de nomes feios a um número particular de pessoas que só lê o blogue para fazer juízos de valor infundados sobre aquilo que é escrito. E sentido. Realmente há coisas que talvez só se percebam passando por elas. Dizer mais para quê? E escrever sobre isso porquê? A internet está bonita, está... Talvez se fossemos todos como esta moça, muitos episódios lost in translation não existiriam. Portanto, eu continuo cá. Bastante atrofiada dos cornos. Mais não digo porque não me apetece e porque... alguns de vocês não entenderiam. Portanto vão ler, vão ler... Que ler ainda me parece ser, paradoxalmente, das melhores formas de educação a que alguém pode aceder.

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1 comments

  1. "primeirus" ( sempre ambicionei começar uma frase assim!!), Ainda bem que existiram os Eças de Queiroz para quebrar tabus. A escrita deve ser um acto de liberdade, com as suas características, marcas, que nos distinga. Padrões, há na roupa, serve?
    O grande desafio do século são as relações humanas. Isto do nos terem transformado em commodities...Tem tanto mau. Confesso que me assusta. Muito.
    Acredito em mesas, refeições, rostos, pessoas, que na sua individualidade nos deviam agregar, a todos. Urge voltar a ter "humano" no "ser".
    Aos que justificam que os fins justificam os meios, que se certifiquem que não estão a ser o meio.
    Boas refeições xinfrinhas 😉
    Beijos

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