Trinta e Oito e Meio

sábado, março 25, 2017


A Maria Ribeiro foi uma das razões pelas quais fiz as pazes com a leitura. Merece-o. Tal como nós merecemos lê-la. (devemo-nos isso). Apaixonei-me enquanto assistia a uma entrevista [dela] na televisão. Pensei: nós podíamos ser amigas. Pior que isso: nós podíamos ser amigas e darmo-nos bem. Foi amor à primeira... estória que ela contou. É raro - e difícil - tropeçar nestas químicas ocasionais que nos fazem... felizes. Depois, foi tudo muito rápido - e muito fácil. (quando a gente não vacila, é bom sinal). Eu queria muito o livro dela. Queria muito conhecê-la. E queria muito sentir com ela. E senti-la também. Melhor que tudo isso junto, só mesmo uma coisa: a Maria, para além de ser uma mulher - e uma escritora - inteligente, também é promessa-paga. Isto é, dificilmente será uma decepção para quem a lê. 

Claro que o facto do seu livro Trinta e Oito e Meio ser um conjunto de crónicas, reflexões e desabafos ganhou vantagem. Bastante. Não aprecio romances, nem livros sobre o fantástico, e muito menos dicas de auto-ajuda. As estórias que mais me cativam são as que relatam experiências empíricas na primeira pessoa. No entanto nem todos os relatos em nome próprio me convencem. Só os que ousam ser sinceros. E Maria é. Da cabeça ao coração com a simplicidade com que os brasileiros admiram - e elogiam - a vida. Poucos livros me emocionaram. O da Maria conseguiu-o. Várias vezes. Ao longo de páginas que eu desejei nunca terminarem. (fazia muito tempo que não lia um livro assim... daqueles que a gente atrasa, propositadamente, o seu fim).

Um homem, também ele muito inteligente, Gregorio Duvivier, escreveu isto na capa de Trinta e Oito e Meio: «(...) Maria fez o Brasil rir alto - semanalmente - daquele jeito que a gente só ri com amigo de infância. Ler a Maria é ganhar uma amiga de infância. Maria escreve com quem conversa, e conversa como ninguém. Este livro que você tem em mãos foi um baita sucesso num país em que livros não costumam fazer um baita sucesso. Agora você não tem mais desculpas. Maria atravessou o oceano. Isto há de ser um baita sucesso.»

Tem tudo para ser. Os relatos de uma quase quarentona sobre a imperfeição da vida são melódicos. Maria articula o que nasce desarticulado. Consegue vestir de poesia - mas sem grandes artefactos - aquilo que é menos bonito, mas que não é menos humano: o insucesso e o falhanço das relações e dos sentimentos. Trinta e Oito e Meio é uma pomada de aloe vera sob as feridas mais dolorosas da nossa existência. E se calhar foi muito por causa disso que eu gostei tanto dele. Com a Maria nós respiramos de alívio... Entramos numa espécie de psicoterapia em voz alta. Sem medos. E sem receios. É normal os filhos não gostarem dos pais. É normal não acertamos no primeiro casamento... no segundo e no terceiro. É normal querermos ter filhos. Não querermos ter filhos. Não saber se queremos ter. Tê-los e não gostar de os ter. É normal ir a caminho dos 40 com as inseguranças dos 20s. É tudo normal. Normalíssimo. Ainda bem que a Maria escreve, sem falsos moralismos, sobre a condição vulnerável de que todos somos feitos. Aliás, acho que é isso que sempre invejei nos brasileiros: o não viverem reféns de falsos moralismos. Gente sarada é outro nível!

Posso ter dado a entender que Maria é triste, mas não é. É apaixonante. Apesar de todos os ansiolíticos que toma para controlar as dores do que não controla(mos), Maria é vida. Nua, crua, bonita. Eu, que nunca visitei a cidade fetiche da autora de Trinta e Oito e Meio, diria que Maria é o rio Senna acendendo no fim do dia. «(...)E quando alguém que a gente gosta também gosta da gente é como chegar em Paris». Boa viagem.  

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