Uma Noite pela Vida

quinta-feira, março 23, 2017


Como foi noticiado na página de facebook do blogue, no passado Sábado, (dia 18), realizou-se a VI Gala de Beneficência a favor da Liga Portuguesa contra o Cancro - Núcleo Regional dos Açores. O convite para ser interveniente, e oradora, bateu-me à porta em Janeiro e... apanhou-me de surpresa. É mais ou menos fácil "falar-vos" através desta plataforma, que em boa parte eu própria controlo... Não é nada fácil falar-vos cara a cara. Mesmo que digam que a minha profissão ajuda. [ajuda muito pouco]. Apesar de ter respondido imediatamente ao convite, e afirmativamente, até ao dia pensei várias vezes em arranjar uma desculpa à última da hora e não aparecer, mas não é esse o modus operandis que me caracteriza. E portanto, mesmo que ela, (a vida), nos custe e nos resulte difícil em determinados dias, o que tem de ser tem muita força (mesmo com uma grande dose de nervos, medo e ansiedade). Afinal de contas, I've been there, done that.

Ao contrário das outras edições anteriores, em que os testemunhos de doentes oncológicos foram dados por pessoas que já tinham terminado os respectivos tratamentos, esta foi diferente. Portanto, posso dizer que a organização decidiu "inovar" escolhendo-me a mim. Por essa razão, o facto de ainda estar em tratamento, não pude participar no evento completo, mas pude - ainda que auxiliada pela minha máscara - "conversar" com o público presente. Nos dias anteriores à Gala as análises revelaram que o sistema imunitário estava fragilizado e portanto tive que entrar na minha bolha de segurança para evitar bichezas alheias. As tais limitações com as quais vamos aprendendo a (con)viver.

De qualquer das formas, e logo após o convite, decidi que a aceitá-lo nunca iria dar o meu testemunho enquanto paciente oncológico por uma simples razão: respeito. Cada experiência é uma experiência e não devemos generalizá-la. Aliás, tal como disse no jantar, uma das primeiras coisas que se aprende quando se passa muito tempo nos hospitais é a não comparar a nossa situação com a de ninguém. Pode parecer absurdo o que vos estou a dizer, lendo-o sem o contextualizar. Mas quem o sabe, sabe porque o digo. 

A segunda coisa que me parecia importante dizer ao público é o facto de, nos últimos tempos, se ter mediatizado, e muito, o cancro. Bem ou mal, não sei. Diria que mal. E de forma errada. E contra mim falo obviamente. Acho que há uma urgência das pessoas que se vêem a braços com a doença em partilhar algo com o mundo, mas partilha-se muito pouco aquilo que ela na verdade é ou representa. Na Gala referi a analogia do iceberg porque me parece bastante conveniente. Quem está de fora vê um pico, mas está longe de imaginar o que se esconde por debaixo da linha do mar. Eu sei que não se partilha tudo porque existe também a preocupação de poupar o outro aos detalhes mais duros, chocantes e inconvenientes. Eu própria já deixei de ler e seguir alguns blogues (e algumas pessoas) nas redes sociais por esse motivo. Porque me falta obviamente coragem. Mas é de coragem que esses conteúdos são feitos. O que é importante dizer, e foi isso que eu quis realçar, é que o cancro não é uma constipação. E quem o tem e está a braços com ele não tem obrigatoriamente de dar provas de sobrevivência. Querem partilhar, partilhem. Não querem, não o façam. Não há nenhuma regra de etiqueta aplicável nestas situações.

Por último, quis deixar a nota da saúde mental. É muito difícil comprovar cientificamente a importância - e influência - do nosso estado psicológico no desenvolvimento de determinadas anomalias no nosso organismo, mas eu - baseada em algumas leituras e na minha própria experiência - acredito que sim. Acredito que mente sã é corpo são. Tal como partilhei com quem estava presente no evento, antes de ficar doente, eu vivia numa bola de neve que eu própria tinha criado. Uma bola de neve de tristeza e insatisfação. A bola de neve foi crescendo, crescendo, crescendo... e um dia, sem que eu me desse conta, passou por cima de mim. Portanto, uma coisa que tomo como certa e irrefutável é que não fazermos aquilo de que gostamos e aquilo que nos torna felizes conduz-nos à doença. Portanto, evitem, o que puderem, adoecer.

Resta-me agradecer a quem esteve presente e a quem contribuiu activamente para esta causa. Tivemos lotação esgotada! E a certeza de que a LPCC - Núcleo Regional dos Açores poderá continuar a ajudar pessoas da nossa ilha como tem feito até aqui. Quero ainda deixar um bem-haja carinhoso ao grupo de pessoas que põe de pé este evento há mais de 5 anos. Que se mobiliza por uma causa que podia não ser a deles. Mas é. 

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8 comments

  1. Que saudades😀
    Excelente essa analogia do iceberg. De facto muito se tem feito, provavelmente não da melhor forma. Continuo firme na ideia de que o importante são as pessoas. É nelas que tem que estar o foco. Não pode ser aceitável tratar a doença sem "tratar" a pessoa.
    Quanto às bolas de neve....Um dia de sol,muitos dias de sol.😀 E como entrámos na primavera, abram-se as janelas.

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    1. Abram-se as janelas sim e... encham-se as casas de luz!

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  2. Parabéns pelo novo visual do blog.
    Segui um pouquinho da sua vida antes da doença e sempre li com atenção o que escrevia sobre o fazer aquilo que não gostava.
    O seu contributo na gala foi, de certeza, uma mais valia para todos.
    Não tenho mais palavras.
    Um abraço.

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    1. Obrigada Maria. E eu não tenho para lhe agradecer a fidelidade com que me brinda. Um beijinho e um abraço para si :)

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  3. Estava na minha muito breve oração e, como sempre, lembrei-me da Cátia.
    De repente falei para mim mesma:"há quanto tempo não vou ao blog da CC? Não a vejo no instagram, cortei as minhas idas ao FB, o que será feito dela?"
    Estou de telemóvel,preparada para dormir, mas quero deixar aqui o meu pedido de desculpa por há quase um mês não vir lê-la.Mas não a esqueço à noite...
    Vou tentar pôr estas leituras, que me enchem o coração, em dia.
    Um beijinho, CC.
    Boa noite

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    1. Também não tenho andado muito nem pelo Instagram, nem pelo Facebook... e não tenho escrito muito Maria, mas fico feliz por se ter lembrado de mim! E não tem nada que pedir desculpas, ora essa! Está tudo bem. Um beijinho enorme!

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