Deixar de... voltar a

quinta-feira, abril 06, 2017


Acredito que a vida, é muito do que acontece, entre estas duas balizas. Todos nós, homens e mulheres, (mas mais mulheres), nos debatemos com a culpa do que deixámos de fazer e com o medo de o voltarmos a fazer. Digo "mais mulheres" porque acredito no pragmatismo dos homens... se bem que eles também já foram mais simples.

Outro dia, e sobre o próximo workshop que vou dar, falava com uma pessoa sobre as dificuldades com que me debato para retomar rotinas ou para voltar a fazer coisas que, antes, não precisavam de 5 planos de backup para serem executadas. As transições obrigam sempre a adaptações. Essas adaptações aplicam-se também à roupa e à imagem. Falei-lhe de como tudo mudou. De como me é difícil suportar soutiens e peças apertadas. De como mudei de números. De como me viciei em ténis e me esqueci de sapatos. De como me apetece andar sempre de fato de treino ou de pijamas. E de como, me esforço, pouco, para mudar isso. 

As circunstâncias ditaram a mudança. Depois de um ano no hospital, sempre de pijama, e com cateteres próximos do peito, os soutiens deixaram de ser confortáveis. As injecções que levo diariamente na zona abdominal não se dão muito bem com roupas rígidas, apertadas. (ainda não uso calças de ganga, nem sei quando vou ter coragem para me enfiar dentro de umas). Os ténis passaram a ser o calçado mais seguro que podia usar. Pelo facto de andar com poucas plaquetas, evitar as quedas era fundamental. Ainda hoje não uso saltos. Nem sequer rímel ponho com medo que me caiam as pestanas. Eu sei que tudo passará. Mas tudo... tem o seu tempo. E existem processos que não podem, nem devem, ser acelerados.

E essa pessoa ao ouvir-me partilhou comigo a sua estória. Ela também teve que passar algum tempo hospitalizada e quando saiu do hospital viu-se obrigada a ter que fazer fisioterapia durante um período. Só podia usar ténis ou sapatos ortopédicos porque não tinha sensibilidade nos pés. E ainda que isso tudo lhe condicionasse, em certa medida, a sua vida ela não quis interromper os estudos académicos. Então, era uma aventura escolher roupa de manhã que lhe permitisse ir relativamente confortável para a universidade e que pudesse ser adaptada aos exercícios da terapia ao final do dia. E o mais engraçado foi quando ela me disse que a primeira vez que vestiu umas calças de ganga, ao fim de muito tempo, só queria chorar de desconforto. Mas, insistiu, como insistiu no resto.

Ao fim de uns meses naquilo, a prima casou-se e ela, ainda a medo, calçou uns saltos. Quem a viu chamou-lhe nomes. "Então, és louca, descalça já isso". Mas ela não o fez. Não lhes deu ouvidos. Era o coroar de muito esforço e de uma confiança e coragem perdidas. É por isso que a roupa é mais do que aquilo que aparenta ser. E não interessa nada se os sapatos ficavam bem, ou não, com o vestido. O que interessa é o que eles estavam lá a fazer. E estavam a fazer muito. Lembrem-se disso. Sempre.

Portanto, não se esqueçam da moda enquanto ferramenta. Não a ignorem porque ela pode dar-vos sinais de coisas que não estão bem e que precisam ser restauradas. Mas não a confundam nem a interpretem mal. Ela é mais do que aquilo que é. Sem dúvida. (as inscrições para o workshop estão a fechar, não percam a oportunidade de falar comigo sobre isto e muito mais, enviem email para CC@CCSTYLEBOOK.COM).

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1 comments

  1. "Não se esqueçam da moda enquanto ferramenta..."
    Eu, que aparentemente estou bem de saúde, desde que deixei de trabalhar só me sinto bem com ténis, sapatos baixos, calças, camisas, e pouco mais.
    Adoro vestidos, tenho-os no roupeiro, novos, e não me apetece vesti-los.
    A idade, CC, também leva a procurar o conforto.

    P.S.:
    Nunca gostei de usar soutien, é peça que me incomoda. Mas uso, pois claro.
    Mal entro em casa, tiro-o, ponho-me vonfortável.

    Beijinho

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