500 mil sobreviventes

quinta-feira, maio 04, 2017

Apesar de ter partilhado com vocês ontem o que partilhei, não podia deixar de vir cá dizer que é por estes números, que nós, os pacientes oncológicos, e uma rede de profissionais - de corpo, alma e coração - lutamos todos. Há muita gente empenhada em erradicar o cancro. (quero acreditar muito que poderemos chegar lá perto, reconhecendo que não será fácil nem rápido, nem pacifico). E há também muita gente empenhada e comprometida em dar o melhor de si - e as melhores condições de vida - a quem infelizmente não faz parte das estatísticas de que vos falo hoje. Para ambos, todo o meu respeito.

Porque não é rentável e porque não vende, isto é não choca, a comunicação social não investe neste tipo de notícias. Todas as estórias têm um lado B e às vezes é preciso contá-lo. (é por estas e por outras que de longe a longe ando de cadeias às avessas com a profissão que escolhi). Ainda assim, reproduzo um excerto de uma notícia recente avançada pela Liga Portuguesa Contra o Cancro:

«A LPPC revelou que Portugal tem, atualmente, cerca de 500 mil sobreviventes de cancro e perto de 100 mil doentes em tratamento. Vítor Veloso, presidente da Liga, lembrou, a propósito destes números, que o cancro se tem tornado cada vez mais uma doença crónica e já não tanto uma doença aguda. “Apesar de a incidência [novos casos] estar a aumentar, a cura e a sobrevivência com grande qualidade de vida são cada vez mais evidentes”, declarou Vítor Veloso na sessão de encerramento dos 75 anos da Liga Portuguesa Contra o Cancro. Contudo, o presidente da Liga frisou que o número de casos e de novos doentes vai continuar a aumentar nos próximos anos. Também o secretário de Estado Adjunto e da Saúde, Fernando Araújo, lembrou que os novos casos em Portugal têm crescido a uma taxa de 3% ao ano, aproveitando para alertar que o tabaco é o principal fator de risco para as duas principais causas de morte no país: as doenças do cérebro e cardiovasculares e o cancro.» 

É mais do que urgente criar um plano de apoio para estes sobreviventes. Investir e insistir nos rastreios - no acesso aos rastreios. Na legislação, na protecção social e laboral. Acreditem, tenho assistido a, e sentido na pele, alguma discriminação relativamente à aplicação da(s) lei(s) nas situações de doença oncológica. Mas, não vou desgastar-me nesse tema porque ele é aquilo que todos nós já sabemos que ele é, irrisório e insignificante para quem só quer (sobre)viver. Relembro-vos que está a decorrer uma petição pública a favor do justo tempo de serviço do sobrevivente oncológico que reclama, para os sobreviventes, uma redução na carga laboral de trabalho, bem como uma redução dos pré-requisitos exigidos para aceder à reforma. Não podia estar mais de acordo. A petição foi criada pela Cristina Coelho da Silva, que gere a página do facebook, Viver com um cancro e ser feliz. Neste momento já foram recolhidas 12.333 assinaturas, e sei que a petição, (podem assiná-la aqui) já deu entrada na Assembleia da República. Bem-haja Cristina!

O ideal seria que estas listas, estes números e estas petições não tivessem razão de existir. 
Mas... a existirem, então que sejam cada vez mais. Em condições dignas, obviamente. 
A luta continua camaradas.

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