Então o que é isto da Empregabilidade?

sexta-feira, maio 19, 2017

Uma amiga minha, psicóloga, convidou-me para ser palestrante de uma sessão de esclarecimento vocacional (não sei se o nome da intervenção é este, mas parece-me que sim). Ela trabalha com alunos do ensino secundário e a ideia era eu esclarecê-los sobre o futuro profissional. (logo eu, pobres crianças!). Tive algum receio em aceitar. Confesso. Não se pode dizer tudo o que nos vêm à cabeça quando o público são criaturas de 18 anos. A responsabilidade aumenta. Uma coisa é chocar os adultos. Que são maiores e vacinados. Outra coisa é chocar adolescentes. Que mal ou bem ainda sabem muito pouco sobre vida.

Estas coisas colocam uma pessoa numa posição ingrata. Obrigam-nos a pensar muito bem nas palavras que se escolhem. E, se há coisa que eu odeio é ter que pensar nas palavras que escolho. Quando escrevo é relativamente fácil, mas quando falo, em público, é bem diferente. Não tenho problemas em falar em público. Tenho problemas em falar, no geral, sobretudo porque falo quase sempre aquilo penso. E é, aí, que está o ónus da questão. Mesmo assim, não consigo dizer que não a uma boa conversa, muito menos a uma boa experiência sociológica. Aceitei e fui. Sem qualquer tipo de preparação. [se a gente se preparar para tudo - o que acho impossível - não desfrutamos de metade daquilo que poderíamos desfrutar].

Fizeram-me muitas perguntas. (chatos, hein? uma pessoa não está habituada ao lado de cá). E a dada altura, uma aluna, interessada em seguir comunicação perguntou-me sobre a taxa de empregabilidade do curso. Ocorreu-me responder-lhe a primeira coisa que me veio à cabeça: minha menina, enfie os olhos nos livros e escolha outra profissão. Seria o que eu diria se hipoteticamente tivesse um filho e ele se lembrasse de ser jornalista. [vá que o meu afilhado já desistiu dessa ideia, penso eu]. Depois lembrei-me de lhe responder aquelas coisas bonitas, esotéricas, do tipo: vai onde te leva o teu coração minha querida. Fazem muito pouco o meu género. A questão é que a resposta estava aí, no limbo entre uma e outra.

A empregabilidade é um conceito subjectivo. Pelo menos para mim. Não o vejo de uma forma muito transparente. Serve bem as estatísticas. Mas apenas isso. É boa para quem concorre a anúncios e ofertas de emprego e consegue ser colocado. Mas nem toda a gente vive dessa forma. Para isso. Ou por isso. Os jornalistas (e mais um grupo de outras profissões) não vivem, normalmente, assim. Não são colocados em lado nenhum e respondem muito pouco a ofertas de emprego (se respondem, provavelmente não serão às da área de formação). A empregabilidade das pessoas que trabalham em comunicação depende, sobretudo delas. Agora digam-me lá, é ou não é ousado querer explicar isto a adolescentes de 18 anos?

A comunicação é um mundo onde se tem de adoptar uma postura mais ou menos nómada. Eu não tenho um patrão. Tenho vários patrões. E não tenho um emprego. Tenho vários empregos. E antes de receber alguma coisa pelos meus serviços, tenho, obrigatoriamente de vendê-los. É mais ou menos como gerir uma drogaria. Mas mais complicado. 

Percebo que as pessoas não entendam muito bem este estilo de vida. [eu própria, tem dias, que também não entendo]. Já desisti inúmeras vezes disto. Mas, também já voltei inúmeras vezes a isto. (quanto mais me bates, mais gosto de ti). Sinto a ansiedade dos outros borbulhar quando percebem que não há uma quantia certa no fim de cada mês. Mas, nós não fomos todos feitos para o mesmo. Nem todos ficamos felizes com o mesmo saldo, todos os meses, na conta. Há pessoas que se movem, e se realizam, por outros meios. E de outras formas. E há quem viva uma dia de cada vez. (não só por razões profissionais). 

Há uns anos atrás trabalhei com um colega alemão uma grande temporada. Nunca deixei de trabalhar com ele. Mesmo quando estava a trabalhar, em postos fixos, fazia freelancing nas horas que me restavam (que eram muito poucas). Isto, que eu fazia há uns anos atrás, não é diferente do que aconteceu actualmente. Quantas e quantas pessoas não têm empregos fixos e trabalham, em part-time noutras coisas? O que eu comecei a notar, é que aquilo que me dava mais pica, (set on fire), eram as coisas que eu fazia, ocasionalmente, como freelancer. E isso é terrível. Terrível porque a dada altura começamos a querer pular a cerca. E é complicado todo o processo de tomar balanço. (deveras complicado).

Sempre que o Markus vinha a Portugal eu tratava de toda a produção dos trabalhos dele e acompanhava-o, em todas as deslocações, durante as estadias no nosso país. Trabalhávamos essencialmente Economia e Sociedade. Conheci imensa gente durante esse período e tive oportunidade de entrevistar algumas personalidades da nossa praça pública. O meu trabalho era invisível porque quem faz produção normalmente não está debaixo dos holofotes. Não era visível, mas era fundamental. Eu construía as estórias para que o Markus pudesse contá-las. 

Não foi fácil a nossa convivência, nem o nosso namoro profissional, mas aprendi muito com ele, não só sobre a nossa profissão, mas sobre a vida no geral. Ele era freelancer por opção. Tinha dois filhos pequenos. Mulher. Casa. Carro. E todas as despesas normais de um individuo comum. Confidenciou-me que nunca trocaria o modo de vida que tinha escolhido por um posto fixo simplesmente porque o que o movia era a necessidade de ir atrás das coisas. Não ter dinheiro, ou a previsão de dinheiro, era mais ou menos um combustível. Sempre o admirei por isso. Pela fidelidade que tinha ao que o movia e fazia feliz. (e sempre o invejei porque queria fazer o mesmo, mas não conseguia). Existiam outras coisas, engraçadas, que também me faziam admirá-lo ainda mais, nomeadamente o sangue frio com que enfrentava polícias e guardas sempre que nos infiltrávamos onde não devíamos.

Ao trabalhar com o Markus tive a oportunidade de conhecer Portugal de outra forma. Com outros olhos. Foi incrível tudo o que fizemos juntos e todas as viagens que empreendemos em busca da estória perfeita. Apesar das nossas diferenças, que eram muitas, (os alemães não são nada fáceis), trabalhávamos, com prazer, (e muita adrenalina), para o mesmo: para as estórias. E foi isso sem dúvida o que nos levou mais longe, pelo menos no tempo (a nossa parceria durou uns 5 anos).

É óbvio que os "autónomos" são profissionais muito bem pagos noutros países. Bem pagos e bem tratados. Tanto quanto alguém que faz parte da casa. Em Portugal, as coisas estão a mudar. Lentamente. Mas um freelancer, aqui há uns anos, era visto simplesmente como o bombeiro de serviço. Actualmente, para se ter sucesso como freelancer são necessárias duas coisas: uma boa rede de contactos e uma capacidade empreendedora reciclável. Tendo isto, e jeitinho para uma ou duas coisas, a coisa é capaz de correr bem. Mas... a instabilidade, a incerteza - e a conta bancária, meio a descoberto - andam sempre de mãos dadas com a vida de jornalista.

Portanto, a empregabilidade é importante na medida daquilo que cada um procura, na medida daquilo que cada um deseja. Se a miúda que me perguntou isto deseja uma vivenda, com piscina, na primeira linha da praia, se calhar é melhor ela pensar em ser assessora política e não jornalista. Em todo o caso, obrigar alguém a escolher uma profissão tão cedo, parece-me precoce, embora haja casos de sucesso. Eu, por exemplo, descobri que queria ser jornalista no 9º ano. Se sou um caso de sucesso... Isso já é outra conversa. Entretanto, fiz imensas coisas diferentes. (tenho um curriculum bastante esquizofrénico). Mas a vida é isso mesmo. Experimentar para ver se gostamos. Mais do que acertar à primeira. Não sei se essa é a melhor mensagem para passar aos adolescentes que me ouviram. Pode não ser a melhor, mas é, com certeza, a mais sensata.

A crise que se instalou no nosso país fez com que o mundo profissional assumisse outros contornos. Muitas empresas - e muitas pessoas - tiveram, forçosamente, que se reinventar. Há, ainda, alguma resistência por parte dos recursos humanos mais conservadores em absorver essa realidade. Lembro-me, várias vezes, de ser criticada por não apresentar um cv minimamente coerente. Aos olhos deles até que podia não ser coerente, mas aos meus era. E isso é, no fim de contas, é o saldo mais importante. O resto é simples. If it doesn't fit, don't force it. 

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