Estou careca, e agora?

terça-feira, maio 23, 2017


Quando eu perdi o cabelo, pela primeira vez, não me custou tanto quanto aquilo que seria expectável. Acho que me preparei. Sem estar preparada. Custou, provavelmente, mais aos outros do que a mim. No dia em que dei entrada no hospital pedi que mo cortassem. De inicio.  (a antecipação é uma estratégia a que recorro muito). Não o fizeram. Deram-me um prazo. 3 semanas. E 3 semanas depois do inicio do tratamento ele começou a cair. 

O cabelo é um golpe. O confronto com as evidências dos efeitos secundários do tratamento - e com a gravidade do nosso estado - é, verdadeiramente, agonizante. Cai por inteiro. No comprimento em que está. Fica preso na roupa, no pijama, nos pentes, nos lençóis. (não recomendo a ninguém pentear-se nesse estado). Quando comecei a acordar, deitada sobre ele(s), pedi que mo raspassem. Não havia quem o fizesse, mas eu insisti. Não conseguia esperar mais. Não conseguia sofrer mais.

Foi a D. Filomena, auxiliar do hospital dos Capuchos, quem teve a (difícil) tarefa de o fazer. Chorou mais do que eu. Aliás, eu não chorei. E não vos conto isso com orgulho. Acho que estava chocada. Obviamente. Mas não só. Tinha urgência em seguir em frente. Survive now, cry later. Foi um mote. A enfermeira Mafalda, a milagreira que encontrou a veia maravilha do último ciclo, entrou no quarto e disse: onde é que tens o telemóvel? Sacámos umas fotos com vários looks alternativos antes de raspar tudo. Completamente. Ambas, as 3 envolvidas no processo, mais as colegas do lado, sabíamos que o momento não era fácil. Mas a diferença talvez esteja aí. Colocar o dedo na ferida não faz com que a ferida sare. Então, acho que a atitude é essa. Tornar mais leve o que não é, de todo, leve.

Prática, como eu sou, enviei mensagem às pessoas mais próximas a avisar que já não tinha cabelo e em anexo, a prova do crime. (ficámos todos felizes porque, ao menos, eu não tinha uma cabeça de melão). Estou a brincar. Obviamente. Quis prevenir os que me eram queridos do embate. E por isso, larguei a bomba. Infelizmente não tenho muito jeito para ser querida. Ou fofinha. E não, não é da agora.

Muitas pessoas, na esperança de serem amáveis, diziam-me com frequência é só cabelo. Apesar de não me chocar, incomodava-me, ligeiramente. Não pelo cabelo. Talvez pela forma desvalorizada como eu sentia os comentários deles. Todas (e todos) sofremos com isso. Umas mais do que outras. É legítimo. E por isso mesmo acho melhor evitar este tipo de palavras. Não é só cabelo. É muito mais. E ninguém - nem mesmo nós - sabe o que é que estamos a sentir. 

Preparar-me, dentro do possível, para abrir mão ajudou. Desprendimento. Acho que é por aí. Foi assim que me desprendi do cabelo, em detrimento de coisas maiores. Sobreviver. Pareceu-me uma boa troca. O cabelo voltou a cair-me. Duas ou três vezes. (dependendo dos intervalos dos ciclos de tratamento é normal que comece a crescer, novamente). A segunda e a terceira vez doeram mais do que a primeira. Não é só cabelo. É muito mais. Agora que as doses de quimio são diferentes - mais fracas do que as do tratamento intensivo - não é garantia que cresça. Nem é garantia que caia. Tem-se aguentado. Tal como eu.

Há mulheres que optam por usar cabeleiras. E acho engraçado. De verdade. Não foi a minha opção, mas acho mesmo engraçado. (acho tão engraçado que comprei uma cor de rosa para usar no meu aniversário dos 32). Optei por andar de careca ao léu sempre que me sentia confortável com isso. Acho que me habituei com facilidade. Talvez tenha sido um caso de paixão mesmo. Quando raspei o cabelo, pela primeira vez, fiz um esforço para focar no que era realmente importante. Adoptei a careca - não como uma consequência, um dano colateral - mas sim como uma arma. Não sei explicar-vos bem isto, mas havia vezes, muitas vezes, em que me sentia profundamente orgulhosa dela. E via isso, também, noutras mulheres.

Lembro-me de uma rapariga jovem, uma vez, na sala das análises, que também não tinha lenço. Quando passou por mim sorriu-me com os olhos. E eu percebi porquê. Não estou com isto a querer dizer que toda a gente tem de se destapar. Não. As pessoas que infelizmente estejam nas mesmas condições têm de fazer o que lhes devolver conforto. Isso acima de tudo. É extremamente importante que se dêem ouvidos. Que se ajudem. Que sejam os vossos melhores amigos. Que se cuidem. Antes de todos os outros.

Os turbantes e os lenços protegem do sol e do frio e foram, apenas por isso, uma das minhas opções. Antes de cortar o cabelo a minha irmã já me tinha comprado alguns. Bastante coloridos. Hoje em dia, da forma como a moda está, é fácil encontrá-los. Vi muitos vídeos para inspirar-me. Pesquisei muitas fotos na internet. E depois era conforme se me dava. Um dia assim. Um dia assado. Ao sabor do processo. E da vida.

Não é só cabelo. É muito mais. E eu compreendo.

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