O Elogio Fúnebre (Moderno)

terça-feira, maio 16, 2017

(e.lo.gi:o) sm.
1. enunciação que exprime admiração, aprovação
2. discurso em favor ou louvor de alguém

Há uma sensação, estranha, que nenhuma pessoa que venha de comunicação gosta de sentir: a de ficar sem palavras. Tem-me acontecido muito. Ultimamente. Por isso mesmo, tenho escrito menos. Bastante menos. Porque não consigo exprimir (tudo) o que sinto. O que me dói. E por respeito. Também. Dos outros. E das dores que são deles. [o silêncio, sob todas as outras formas de manifestação, ainda me parece a melhor forma de respeito]. Eu, que às vezes só sei escrever na solidão e no recolhimento, não percebo, nem entendo a urgência das pessoas em quebrarem silêncios. Em "fazerem-se" presentes, forçosamente, em determinados momentos da vida dos outros. Momentos. Há silêncios, que tal como as palavras, têm um timing certo. [e há companhias que nos deixam mais sozinhos do que aquilo que já estamos].

Esta coisa do facebook ter virado diário pessoal indigna-me. (muito e muitas vezes). Não percebo porque é que as pessoas se fotografam nas urgências dos hospitais. (será que elas acham bonito? apropriado? será que elas imaginam o que é realmente estar doente? será que a primeira coisa em que elas pensam é "deixa-me lá fotografar a cor da pulseira"? really?). Não percebo porque é que as pessoas colocam "améns" nas fotografias que alguém, sem noção, pôs a circular na internet. (por muito que eu desejasse que essas "cadeias de oração" dessem certo, meus queridos, o vosso amén não faz a mínima diferença, nem cura, e duvido muito que console). Aliás, houve uma ou outra situação em que alguém os colocou nas fotos que eu partilhei durante o meu tratamento intensivo e, sinceramente, não gostei. Não gostei porque a fé não é isso. [eu acho que não é]. E portanto, não me parece de bom tom brincar com assuntos sérios. 

Não entendo porque é que as pessoas utilizam a palavra "cancro" para se referirem a situações que não a de doença. (com um léxico tão rico como o da língua portuguesa não lhes ocorre nada melhor? Tem mesmo de ser "cancro"? "o cancro da língua portuguesa". "o cancro da sociedade actual". não entendo). Não entendo porque é que as pessoas deixam "recados" baratos nos seus murais. Não entendo porque é que algumas pessoas lavam roupa suja nas redes sociais. Não entendo porque é deixam comentários maus e negativos. (epah senão faz diferença, nem é útil ao debate, então fica calado!). Não entendo porque é que escrevem nos murais de quem morreu. (quem morreu não vai ler). Nem entendo porque é que escrevem nos murais de quem perdeu alguém (existe uma opção no facebook chamada "mensagem privada" que é bastante útil). Vocês acham mesmo que comentários do tipo "Não acredito", "Vida injusta", "Como é que é possível", vão ajudar as famílias consternadas? Acham?!!

Acho importante lembrarmo-nos das pessoas. Homenageá-las da forma que elas gostariam. Mantê-las vivas através das nossas atitudes e dos nossos gestos. Escrevo muito sobre gente que perdi porque o que eu sei fazer é escrever e porque acho que dedicar-lhes um texto é das coisas mais bonitas que se pode fazer a alguém. (adoraria que alguém, um dia, se lembrasse de escrever sobre mim). Agora... inundar de posts perfis de facebook de pessoas que morreram, ou de pessoas a quem morreu alguém muito próximo, já acho um bocadinho demais. Um bocadinho bem grande. Ainda para mais porque nem sempre as pessoas que o fazem são pessoas próximas. Se eu ganhasse 100€ por cada pessoa que me enviou um pedido de amizade desde que eu fiquei doente, a minha conta bancária tinha engordado bastante. Se eu ganhasse 100€ por cada pessoa que me enviou um pedido de amizade e me vira a cara quando me vê na rua... ui ui ui. E isto, isto eu nunca hei-de compreender. E atenção, eu não estava à espera que essas pessoas fossem minhas amigas, eu estava à espera que essas pessoas fossem coerentes. 

Não foi por acaso que, quando uma amiga minha me foi visitar ao hospital e me ofereceu um caderno, eu me senti tentada a escrever umas pequenas notas sobre o meu próprio funeral. Não o fiz. Mas foi a primeira utilidade para a qual senti que o caderno serviria. Sempre gostei de deixar tudo organizado, porque é que o meu funeral haveria de ser excepção? E, se não me falha a memória, já o disse aqui em casa, se me acontecer alguma coisa apaguem tudo das redes sociais. Tudo. Não deixem rasto porque eu não quereria. E se me quiserem homenagear, olha bebam e comam, com prazer, porque é das coisas que eu mais gosto de fazer. E isso é quanto baste. Não precisa mais. É uma pena que as redes sociais sejam tão... (nem sei que palavra usar)... vazias?! Sim, pode ser. Vazias. Desprovidas de todo e qualquer sentimento. Cheias de tudo. E de nada.

De repente tudo é Tetra. Tudo é Fátima. Tudo é Salvador. (a sério, vocês gostam da canção? eu não! e isso não invalida que reconheça o talento dos irmãos Sobral). Mas a sério, foi preciso o Amar pelos Dois para pôr tudo a chorar?! Vocês não choram com outras coisas bastante mais bonitas (ou terríveis) do que a canção que ganhou a Eurovisão? Mesmo vindo das áreas de comunicação e marketing, não consigo compreender estes fenómenos das massas. Mais do que isso. Não consigo compreender a falta de personalidade de algumas pessoas. Mais. Não consigo compreender a falta de educação e respeito que a internet, infelizmente, promove. [a par com o desconhecimento e a desinformação]. Irónico, não é? 

Deixe um comentário

0 comments