O Tempo das Coisas

segunda-feira, maio 08, 2017

O meu afilhado, de 19 anos, teve um embate, recente, com a perda. A morte não é fácil para nenhum de nós, mas na adolescência pode ser mais complicada de sentir. Sentir. É com isso que me preocupo. Refugiou-se na negação. (tão válida para alguém de 20 como de 60). O episódio convocou-me a ser mais madrinha. Talvez pela primeira vez. A servir de abrigo (apesar das edificações que me sustentam, também elas, andarem vacilantes). Apoiei-o, apesar de eu própria não saber também lidar com ela, a morte. Mas não lhe omiti o óbvio: ia doer. No dia. Nos dias a seguir. Pontualmente. Um pouco. Durante toda a existência dele. Durante o tempo em que a memória, e o coração, não o traírem. 

A morte é um tema muito evitado pelos cuidadores. [como seria de esperar]. Aqueles que estão nas primeiras filas das trincheiras connosco fazem disso assunto proibido. E há que aceitar. Nos hospitais cruzamo-nos com muita gente, e quer queiramos quer não, acabamos por criar laços indestrutíveis, mesmo à distância. Não tem sido fácil, antes pelo contrário. Tem sido penoso. Bastante. Apesar dos hospitais serem descritos como assépticos, e obrigarem-nos a associá-los, na maioria das vezes, a ambientes frios, eu descobri uma coisa de que são capazes: colocam-nos, constantemente, em contacto com as nossas primeiras emoções. As mais legítimas. E isso... isso às vezes é bom.

Ainda assim, e pelas ideias que troco com os meus amigos na mesma situação, quase todos nós preferimos saber o que temos que saber. Incluindo a morte dos outros. Mesmo que doa. Mesmo que nos fique a apertar o peito durante muito tempo. Mesmo que nos destabilize e nos roube o chão em que vamos assentado a(s) nossa(s) esperança(s). Aliás, é essa a postura dos médicos e dos enfermeiros. A de dizê-lo. Mas, caramba... Ambos sabemos que, por dentro, encolhemo-nos de forma igual quando não queremos articular determinadas frases. 

Eu sei que não há forma de dar estas notícias. Nem de dar nem de receber. E muito menos de aceitar. Mas aquilo que eu peço sempre é que todos - sem excepção - sejam poupados ao sofrimento. (não sei se isso faz de mim uma boa católica ou não). Mas é esta crença (e fé) que ajuda a acalmar as minhas dores. Algumas pessoas - cuidadoras - já me confidenciaram que receiam dar este tipo de notícias para que nós - os que ainda estão por cá - não fiquemos a pensar que vamos ser o próximo. Pois. Talvez elas não saibam, nem vocês, mas a grande maioria dos doentes oncológicos acorda a pensar nisso e deita-se a pensar nisso, independentemente de tudo o que possa estar a acontecer à sua volta. 

É difícil escapar a esses pensamentos. Tal como é difícil fugir às evidencias (e maus-tratos) da perda. A vida ensinou-me que a negação não é o melhor caminho, por isso telefonei ao meu afilhado, (ele vive em Portugal continental) e chorei com ele, ao telefone. Tudo o que nos restava era isso: chorar os dois. E foi essa a mensagem que lhe passei. Existem momentos para tudo na vida, (ah ainda bem que existem!), e quando é para chorar, temo-lo que fazer com a mesma intenção - e finalidade - do riso. Aliviar. Tudo o que desejamos quando se nos aperta o peito é que alguém o abra. E o amacie.

Não há forma de torná-lo (mais) fácil.

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