Pacto de Sangue

sábado, maio 20, 2017

Ao longo da minha curta existência conheci muitas pessoas. (espero conhecer mais algumas apesar de haver dias em que não as suporto à minha beira). Não me tornei amiga de todas. Ficaram as que, por várias razões, bastante diferentes, vão fazendo sentido. Umas deram, (e continuam a dar), mais trabalho do que outras. Mas eu também dou. É recíproco. Tal como a amizade deve ser. Tenho várias amigas que me ensinaram coisas úteis. A Ana, por exemplo, ensinou-me que quando tem dúvidas de português utiliza o dicionário online priberam. (obrigada vizinha, não vivo sem ele!). A Inês ensinou-me que um @ antes dos nomes nas redes sociais identifica, automaticamente, a pessoa ou a página. A Milene ensinou-me que sumo de laranja é sinónimo de positivar (uma filosofia que ela própria inventou). Como vêem, tudo coisas importantíssimas para o mundo de hoje.

É claro que as nossas relações são um emaranhado de coisas complexas simultaneamente simples. E é sobre essa mistura, regada a paciência, que temos prevalecido tanto. A Ana, a Inês e a Milene são exemplos daquilo que me une a outras tantas pessoas. Apesar do tempo - e da distância - a chama continua acesa. (como é difícil, hoje em dia, continuar a arder). Há bocadinhos de cada uma que eu gostava de reunir em mim. Não é inveja. É admiração. E quando a gente olha para alguém que a gente admira, a gente ama. Sem lentes mágicas. Naturalmente. Por vezes... de uma forma que ninguém compreende. Orgulho-me tanto de vocês. Tanto. Tanto. Tanto.

Mas, a amiga de quem vos quero falar hoje, vem antes da Ana, da Inês e da Milene. Vem antes de muitas pessoas. Ganhei-a nos tempos da faculdade (apesar de não estudarmos juntas). Dividimos casas. Pelo menos duas. Mas muito mais do que isso. Nos entretantos. Passámos uns bons anos juntas. E (já) passámos uns bons anos separadas. E hoje é meio-meio. Mas faz-se. Em nome da chama que ainda não se apagou. Recentemente visitou-me e, às páginas tantas, revelou-me que tinha, finalmente, doado sangue. Enterneceu-me. Muito. Sobretudo porque sei que era um dos seus maiores medos. Inspirou-se em mim. Disse-me ela. Na minha estória recente. Na minha luta diária. E fez-me chorar quando se foi embora. Miúda, estou orgulhosa demais. (não é que já não me sentisse). 

Estou-lhe eternamente grata. Profundamente feliz. E claro, não tenho como não admirá-la. Não só por isto, mas também por isto. Nós não temos a noção da quantidade - e dos tipos - de sangue que são utilizados todos os dias pelos hospitais. Muito é, neste caso, um eufemismo. Não as contabilizei, mas recebi várias transfusões durante o tratamento intensivo. Era o sangue dos outros, (compatível com o meu), que me metia de pé todas as vezes que me ia abaixo. E atenção, não são só os doentes oncológicos que necessitam de transfusões. São várias as situações em que o vosso sangue é preciso. Por isso, volto a agradecer-vos, e a pedir-vos, as vossas dádivas. 

Apesar do tempo, dos silêncios intermitentes, das curvas apertadas, por vezes em contra mão, ela disse-me que sempre que se sentava ao computador para ler o blogue, chorava (qualquer dia tenho de começar a contar anedotas para ver se isto melhora!). Não encontro melhor forma de vos descrever a empatia. (aquilo que faz de nós, entre outras coisas, humanos). Sentir com o outro. Mesmo por detrás de um ecrã de computador. O que é preciso é desligá-lo às vezes... E aparecer à porta de quem, ainda, faz faísca com a gente. Amiga, mi casa es su casa. Sempre.

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