Renunciar à quimioterapia: porque não?

quarta-feira, maio 03, 2017


A quimioterapia não é boa. Mas... sinto-me na obrigação de dizer que, também, não é má. Não mata, (às vezes), mas mói. E muito. É por isso que, em alguns casos, os médicos optam por não administrá-la tendo em conta o quadro clínico que o paciente apresenta. O insensato dos tratamentos oncológicos está aí: no sobreviver ao cancro mas acabar por morrer, ou desenvolver outras patologias, por causa da quimio. E é duro viver nestes dois pólos opostos. E ambíguos. 

Mesmo quando é efectiva, não deixar de ser má. É o único remédio que a ciência (re)conhece ajustada para combater os pequenos invasores que tomam de assalto o nosso corpo. Infelizmente, para reduzir o número de células cancerígenas acaba-se por pôr em cheque o resto do organismo. Os próprios médicos têm opiniões diferentes sobre o custo/benefício da aplicação das drogas quimioterápicas. Apoiam-se nos números. Porque um grande número de pessoas sujeitas aos mesmos farmácos responderam com sucesso aos tratamentos, faz-se o mesmo mundialmente. As respostas é que não são as mesmas. 

Às vezes questiono o meu oncologista sobre estas agressões, propositadas. E ele responde com o mesmo argumento. Os números. Mas não esconde que existem riscos. Quer-me consciente disso. E tem a obrigação de me informar sobre isso. E assim vamos andando conforme aquilo que nos é permitido. Em relação à quimio não tenho uma opinião formada. Não posso ter. E embora durante todo o processo do meu tratamento, (ainda a decorrer), tenha evitado ceder ao luxo dos questionamentos, acho que em determinados momentos é preciso fazê-los. Existem muitas teorias da conspiração. Valem o que valem. Se eu não tivesse recorrido a alguns suplementos naturais não tinha conseguido melhorar a minha qualidade de vida durante esta fase. E portanto, apesar de estarmos nas mãos da indústria farmacêutica, acho que ainda conseguimos ser os nossos melhores médicos. O que eu recomendo é experimentar. Se resultar é excelente. Se não funcionar, talvez não valha a pena insistir. (até porque os suplemente naturais - vitaminas, xaropes, drenantes, chás, infusões, calmantes - são caros e não são comparticipados).

Recentemente tive contacto com o caso da avó de uma amiga minha. Uma senhora, idosa, a quem lhe foi diagnosticado um cancro da mama. O protocolo incluía radio e quimio, mas a quimio alterou significativamente a qualidade de vida da senhora e a filha e a neta não conseguiam assistir ao sofrimento pelo qual ela passava sempre que fazia o tratamento. Então, ambas, as 3, apoiadas pela opinião de algumas enfermeiras que tratavam da idosa no dia a dia decidiram desistir da quimio, contra a vontade do médico que estava a seguir o caso. Decidiram-se pela qualidade de vida no final da vida e eu só pude felicitá-las por tamanha decisão que imagino que não tenha sido nada fácil tomar. É preciso a mesma coragem: tanto para quem segue com os tratamentos, tanto para quem desiste deles.

Confiem nos médicos, mas lembrem-se também que o cancro não é uma doença estável, com prognóstico definido e previsões exactas. Está em constante mudança e nem eles podem garantir nada. Mas acima deles estão outras coisas e outras entidades. E vocês também. As pessoas perguntam-me muitas vezes, ah quando é que isso acaba?, e eu reviro os olhos. Não me incomoda que as pessoas não tenha informação suficiente sobre este tema. Aliás, acho que é dos poucos temas em que me sinto profundamente feliz por muita gente não saber o que é. Mas tal como já disse publicamente, um cancro não é uma constipação nem uma operação para retirar o apêndice. O cancro é cada vez mais uma doença crónica. Conheço pessoas que estão sentadas nos cadeirões do hospital de dia há 10 anos. É por isso que também vejo na medicina natural uma forma de trazer bem-estar a estes pacientes. A nós.

Eu tomo vários comprimidos por dia. Uns são quimio, outros não. Faço análises semanais. Faço quimio intramuscular semanal. E quimio intravenosa em ciclos de 28 em 28 dias. Se existem valores para administrar o tratamento, administra-se, se as defesas vão abaixo e os órgãos começam a acusar sinais de stress e cansaço, pára-se o tratamento até que seja possível reiniciá-lo. Esta rotina sucede-se com bastante frequência e não, não há previsões. Por isso é que digo às pessoas: um dia de cada vez. Por enquanto não podemos mais. E mesmo que pudéssemos porque é que não haveríamos de pensar assim?

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4 comments

  1. O que precisamos é consenso entre as diferentes formas de medicina. Na prática o obejctico é único. A vida.
    Porque não criar aqui workforce? Não somos humanos o suficiente para quebrar de vez com os radicalismos? Afinal quem ganha o quê?
    Seja a malhar comprimidos coloridos ou a beber chá de manhã à noite (atenção: o radicalismo agora é pura ironia :) ) o que importa é dár cabo do bicho!
    No teu caso, já sabes que o "Big Boss" a "cosa nostra" e tudo e tudo já tomaram conta da coisa. E agora siga, dia a dia, de nenufar em nenufar, "com esse brilhozinho nos olhos" a espalhar magia por este mundo a fora.
    Beijos

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    1. Acho que se tem vindo a tentar criar sinergias, embora não esteja fácil o casamento entre ambas as medicinas, no entanto continuo a defender o mesmo: juntas podem contribuir muito para o bem-estar do paciente oncológico (e ninguém fica a perder). E é por aí que me parece que é o caminho. Beijinhos :P

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  2. Uma doença crónica que tem aumentado e ninguém está livre de o ter.
    Gosto de ler estes post sobre a doença. Só que a vive sabe contar bem o que é.
    Beijinho CC.

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    1. Sim, infelizmente o cancro é a doença do século ao contrário do que se julgava há uns anos. Ninguém está livre de o ter, mas também não podemos viver a pensar que o vamos ter. Beijinhos Maria.

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