Repasse a todas as meninas que você conhece

quarta-feira, maio 24, 2017

Pessoas que têm ataques de fúria, valentes, quando se lhes pede, amavelmente, o email. Conheço muitas. (em particular aquelas a quem consegui sacar as palavras mágicas abracadabra). Enquanto profissional - que tinha, forçosamente, que reunir dados - não entendia, por vezes, as reacções exageradas dos clientes. Pessoalmente, faço parte desse grupo. Não reajo como uma maluca foragida do manicómio, mas não gosto que me encham a caixa de email de porcaria(s).

Somos bombardeados por tanta coisa, de tanto lado, que não há como controlar a fuga de informação. Vendem-se bases de dados a torto e a direito. Mais a torto que a direito. E o que nos resta como voluntário parece microscópico. É por isso que não gosto de forçar a barra. Em nenhuma situação. (mesmo quando era consultora de lingerie e tinha que vender). Até o podia fazer, mas sigo uma lógica simples: a de não-faças-aos-outros-aquilo-que-não-gostarias-que-te-fizessem-a-ti. Tento colocar-me sempre nesse lugar porque, sinceramente, acho que é dos melhores. A vista panorâmica é soberba.

Por exemplo, o blogue. Esta coisa linda! Quem não está nas redes sociais, chega cá pelo google. (vá, o nome não é muito original, nem muito óbvio, mas foi o que me ocorreu na altura e ficou assim registado). Quem faz questão de não perder um post, tem a opção de seguir por email. (mas ninguém é obrigado a isso se não o quiser). Quem gosta dos textos tem várias opções para partilhá-los. Quem quer comenta. Quem segue no instagram, pode não seguir no facebook e vice-versa. Gosto muito que vocês venham até cá, mas não vou cobrar-vos nada em troca. (acho que os 5 minutos que perdem a ler um texto é o melhor retorno, e não, não estou [só] a ser humilde, estou a ser prática). É claro que há uns stalkers que seguem em todo o lado, comentam em todo o lado, e não sendo suficiente, ainda enviam mensagens privadas. Digo stalkers porque não lhes consigo chamar outra coisa mais soft - e porque, para mim, isso é estranho. Muito estranho. Vá, groupies eu ainda curtia. Stalkers não.

Acredito que a tecnologia pode ser boa, na medida em que facilita a nossa vida... Mas não duvido nada que seja má, (muito má), se, ao invés, complica. Ora, ontem à noite, recebi esta mensagem pelo facebook messenger:

Vamos deixar esses homens curiosos e além disso, fazer o bem... Como todos os anos, entramos em acção contra o câncer de mama. Aqui está o jogo deste ano: propõe-se que as meninas façam algo para alertar todos contra o câncer de mama. É fácil. Eu gostaria que todas vocês participassem!!!! No ano passado, nós tivemos de escrever a cor do soutien que usávamos no nosso status. Os homens se questionaram por alguns dias. Eles se perguntaram porque as meninas haviam escrito sobre as suas cores. Este ano, é em relação ao nosso estado amoroso. Não responda a esta mensagem. Escreva somente a FRUTA que se aplica a você em seu status, e envie esta mensagem privada para todas as meninas que você conhece. Morango: solteira; Maçã: noiva; Cereja: juntada/amigada; Banana: casada; Abacaxi: enrolada; Framboesa: eu sou inconstante; Manga: namorando; Pêssego: livre, leve, solta; Abacate: eu sou a outra metade; Laranja: não é possível encontrar um que preste; Limão: quer ser solteira; Uva: quer se casar com o parceiro. O jogo do ano passado foi até à televisão, tentemos fazer o mesmo novamente... Seleccione esta mensagem, clique em nova mensagem e depois cole o texto. Repasse a todas as meninas que você conhece. Juntas somos mais fortes que o câncer de mama. (não custa participar, é por uma boa causa).

Vou partilhar convosco, em voz alta, as minhas dúvidas em relação a estes conteúdos (que se tornam virais não sei bem como). Assim, de caras - sem ser preciso ter estudado Filologia e Língua Portuguesa para ser capaz de interpretar o texto - eu diria que a primeira intenção do jogo é... o engate. Vamos deixar esses homens curiosos e além disso, fazer o bem... Primeiro, os homens. Depois, o bem. É verdadeiramente enternecedor. Parece uma espécie de Tinder, versão arcaica.

Os homens se questionaram por alguns dias. Eu também me questionaria. (mas pouco). Isto não é um jogo. Primeiro. E se fosse um jogo era estúpido. Não consigo estabelecer uma relação directa entre ele e o seu objectivo: alertar - e sensibilizar - as mulheres contra o cancro de mama. Vocês conseguem perceber a relação? Se conseguem, expliquem-ma sff. Portanto, suponhamos que eu sou uma banana e estou casada. (são as regras do jogo!) Como é que o meu status pode levar alguém de entre os meus contactos a apalpar as mamas? Sim, apalpar as mamas... porque, segundo se sabe, o auto-exame (ainda) é uma forma de luta (e de detecção precoce) sem garantias, infelizmente. [se há por aí alguém, que ao receber esta mensagem, influenciada pelo seu conteúdo, fez o auto-exame da mama, por favor acuse-se e arrume a um canto a minha teoria da conspiração].

O jogo do ano passado foi até à televisão, tentemos fazer o mesmo novamente... Não me admira nada. A avaliar pelo lixo que os canais difundem, é totalmente aceitável que uma coisa destas seja notícia. E com a salada de frutas que pr'aqui vai, não tarda nada isto é capaz de dar tanto canal quanto um Love on Top. Star system. Não é para todos. (por isso é que deve ser tão difícil de compreender).

Eu não tenho nada contra o que cada um faz. E não posso obrigar a pessoas a pensarem como eu. E isto não é uma reacção empolada pelo facto de eu ser paciente oncológica. Talvez seja. Não sei. Mas às vezes apetece-me perguntar aos "criativos" que lançam estes "jogos" se eles acham que a gente - por gente entenda-se um grupo de pessoas/profissionais que leva a sério aquilo que faz e o que partilha com os outros - estamos aqui por... desporto. (também estamos por isso). Mas não sei se me faço entender. Outra vez.

Há muita gente que escreve. E há muita gente que defende as suas causas através de diversas plataformas. Eu juntei as duas coisas. Através da escrita, vou defendendo aquilo em que acredito. Defendendo e difundido. Passando a palavra e a mensagem. Das coisas que me parecem realmente importantes. Quando me enviam estas cenas maradas pelas redes sociais eu fico, verdadeiramente, chocada. E passo a explicar porquê: partilhar um post, relativamente interessante, com sentido, e com utilidade - que não tem necessariamente de ser meu - as pessoas, por norma, não o fazem. Mas, enviar um "jogo" (aos 1500 contactos do facebook) para "deixar os homens curiosos", aí o pessoal alinha.

É absurdamente estranho. Isso, os posts recalcados do JáFoste; as frases que-nos-põem-para-cima-para-baixo-e-de-lado dos Às Nove e os looks fabricados - disfuncionais - da loira da Malveira. (lembrei-me destes, mas podiam ser outros). Há muito por onde escolher. Ainda bem. Mas tratando-se de assuntos sérios, como o cancro é, podemos ser um pouco mais... conscientes?

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2 comments

  1. Blogs sigo alguns, ler os post só mesmo os que me interessam, os que eu quero realmente ler e escritos de forma inteligente e por quem eu gosto de "seguir", comentários, com os meus pontos de vista, nesses blogs são muito poucos, só mesmo quando me apetece e nunca por obrigação
    Um miminho para alguém especial sempre que me apetece
    Correntes nem pensar!
    Se realmente querem alertar para este e outros problemas falem diretamente do assunto sem juntar saladas pelo meio

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    1. As saladas são boas, mas só às refeições!
      Beijinhos MotardWoman!

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