Roupa Interior 100% Algodão

quinta-feira, maio 18, 2017


Hoje vamos falar de "interiores" e de como eles são importantes - verdadeiramente importantes - em determinadas alturas da vida de uma mulher. Há quem não ligue nenhuma à lingerie. Há quem ligue, mas não invista nisso. E há, ainda, quem gaste quantias superiores a um salário mínimo nacional em cuecas e soutiens. [sim, é um número (bastante) comichoso quando pensamos em peças tão pequenas, mas acreditem, 3 anos de consultoria de lingerie foram suficientes para confirmar que o público feminino, nacional e internacional, investe muito - e frequentemente - em roupa interior].

lingerie é de facto indispensável. Fora as questões higiénicas e o desempenho, brilhante, que têm na construção e estilização da imagem feminina, os soutiens são acessórios fundamentais à saúde e ao bem-estar das mulheres. [talvez algumas de vocês ainda não sejam totalmente sensíveis a estas evidências]. Contudo, a minha experiência, pessoal e profissional, diz-me que a roupa interior pode tornar-se um tema relevante em situações e ambientes hospitalares. E é sobre isso que vamos falar hoje.

Durante a quimioterapia o (nosso) corpo sofre alterações brutais. A pele é muito castigada e a vários níveis. No geral, torna-se mais sensível, mais seca, mais alérgica, mais ruborizada e nalguns casos, pode até escamar. É normal que alguns produtos que vocês utilizavam antes de iniciar o tratamento se incompatibilizem convosco durante o tratamento. Não só produtos como também tecidos. Tecidos que antes do tratamento não vos incomodavam podem passar a incomodar (no meu caso, em concreto, comecei a notar alguma intolerância a determinadas rendas e fibras da roupa interior). 

Encontrar um soutien confortável durante o tratamento intensivo foi uma espécie de caça ao tesouro. Primeiro porque o volume do meu corpo oscilava de dia para dia muito por causa da medicação e dos corticóides (que ainda faço). Segundo porque as alças dos soutiens ficavam posicionadas, normalmente, por cima ou muito perto do local dos cateteres (utilizei sempre cateter venoso central intravenoso). Fiz grande parte do tratamento com um cai-cai  básico que me custou 6€ na Primark. (os soutiens desta marca, em Portugal, são comercializados até à copa F, embora os tamanhos de costas sejam pouco variados para a relação de copas que oferecem). 

Modelos  Supreme Comfort & Florence - Royce Lingerie
O soutien não era confortável de todo, mas era o mais confortável entre todos os que eu tinha. Também utilizei extensores (os extensores permitem alargar os soutiens temporariamente, mas verdade seja dita, visualmente não funcionam se a cor do extensor não for a mesma do soutien - por norma são vendidos apenas em preto, branco e beige).

Durante os internamentos socorri-me muito pouco de soutiens (por causa do desconforto e outras paranóias), mas recomendo. Soutiens sem aro, se possível com uma grande percentagem de algodão na sua composição. O soutien compõem (isto porque os pijamas dos hospitais podem não ter botões pelo facto de serem velhos e lavados com muita frequência, por isso, ter qualquer coisa debaixo é capaz de ser boa ideia até porque vão receber visitas e porque poderão, eventualmente, ter de ir a outros serviços, dentro ou fora do hospital, fazer exames). Mais do que a questão estética [e psicológica], o soutien protege. Estive muito tempo sem usar soutien. O meu peito não ficou diferente por causa disso, mas nalguns casos, a falta de suporte pode provocar danos - nem que sejam dores nas costas... E mais dores para além daquelas que já se tem, quando se está no hospital, não é boa opção.

Quando estamos internados, infelizmente, passamos muito tempo deitados. Por esse motivo os soutiens não devem ter aros (se tiverem aros serão, simplesmente, insuportáveis). O grande problema desta necessidade que ainda ninguém pareceu resolver é conseguir encontrar roupa interior em algodão, e sem aros, que sustente efectivamente todos os tipos de peito - mesmo os mais pesados - que não tenha um design assustador. (é tudo tão old-fashion não é verdade?). É raríssimo encontrar uma marca que reúna estas características. Em todo o caso, para se escolher um soutien, deve-se partir sempre da mesma base: isto é, deve-se, primeiro, descobrir o tamanho certo (costas e copas). Se vocês não o sabem, podem e devem, visitar duas lojas que se dedicam a aconselhar mulheres com essa finalidade - uma delas é a Dama de Copas, (Lisboa, Porto e Madrid), a outra é a Bra&Company, (Lisboa e Viseu). Eventualmente haverão mais, mas só conheço o serviço destas duas.

A Bra&Company, em particular, vende soutiens da Royce LingerieEsta marca inglesa é o que encontrei mais próximo daquilo que muitas mulheres desejam: soutiens sem aro confortáveis e bonitos. Ou no mínimo, actuais. Eles tem produtos muitos específicos para várias situações delicadas - cirurgia (estética, mastectomia, reconstrução); maternidade (gravidez e amamentação), adolescência (o primeiro soutien) e vida activa (desporto). Em Portugal, que eu saiba, a única marca a oferecer soluções 100% algodão é a Amoena. A Amoena é direccionada para mulheres mastectomizadas. Os soutiens deles estão adaptados para o uso de prótese mamária, mas pecam em relação à variedade de tamanhos e diversidade de modelos.


Não posso falar pelas mulheres mastectomizadas. Nem pelas grávidas. Ou recém-mamãs. Mas penso que (quase) todas concordarão comigo: os soutiens têm uma finalidade evidente (mesmo que a gente não goste muito de usá-los!). São ferramentas que, [inconscientemente], nos ajudam a abraçar a nossa feminilidade, mesmo quando não nos sentimos muito femininas... A sensação de perda de feminilidade não acontece apenas a quem perde o cabelo ou um peito. Acontece também a quem passa por transformações físicas muito grandes. É mais do que normal. Depois do tratamento intensivo, tornou-se impossível continuar a utilizar os soutiens antigos. (quando aumentamos de peso, a roupa interior é a primeira a dar sinal). Tive, forçosamente, que comprar novos soutiens. Passei de um 32F/FF para um 34FF/36F. 

Aquilo que as minhas clientes me diziam e que eu não entendia, percebo-a agora: o meu peito é muito mais pesado... Tanto que já equacionei, até, comprar um soutien de dormir. [os soutiens de dormir protegem o peito dos movimentos bruscos que possamos fazer durante o sono]. Os meus hábitos de consumo também mudaram. Optei por comprar soutiens de copa mole, (soutiens em tecido), em detrimento do que costumava utilizar antes, soutiens modaldos (com molde e forma). Tudo porque o tecido, se for elástico, adapta-se melhor às oscilações de volume do peito e nas fases hormonal e fisicamente pouco precisas essa é a opção mais segura. 

Apesar do cambalacho que são, não se assustem com as mudanças físicas que possam resultar dos tratamentos oncológicos. São duras. Obviamente. Mas também são uma boa oportunidade para porem em prática a vossa criatividade. Adaptar, adaptar, adaptar (lembram-se?!). E sim, se tiverem que construir um comboio de extensores para conseguir vestir os vossos soutiens, mais vale comprar novos. Pela vossa saúde. E muito mais.  

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