E tu, já comeste fruta hoje?

quarta-feira, junho 14, 2017

Cada vez que pego numa maçã, com casca, volto a colocá-la no sítio aonde estava. Tento esquecer-me. Enganar-me. E até distrair-me. Mas (ainda) não consigo. Aparentemente, a fruta natural não devia ser uma ameaça, mas é. Vai para dois anos. Dois anos! Há quase dois anos que não como uma maçã com casca. E tenho saudades.

O sistema imunitário - debilitado pela quimioterapia - tem um preço. Alto. Não comer maçãs com casca custa... uns cêntimos. Às vezes, consigo concentrar-me de tal forma que ouço a casca estalar entre os dentes. Se me esforçar muito, mesmo muito, sinto o sumo, ácido e fresco, escorrer-me pelos cantos da boca. Há comidas que me trazem memórias. Boas. As maçãs, em particular, trazem-me limites. E a pressão da escolha. (que não é bem escolha). Fosse esta vida fácil e a gente saberia, sem hesitar, o que fazer com as maçãs. Ou melhor, com as cascas.

O facto de eu não poder comer fruta com casca não é tema para assunto nacional. Duvido muito, até, que sensibilize os que podem comer fruta sem pensar. (a fruta que quiserem). Mas é exactamente aí que eu queria chegar. Às maçãs nas mãos de quem pode - quase - tudo. E não sabe. 

No geral, as pessoas reconhecem, com facilidade, todos os ajustes que a quimioterapia obriga a fazer. Eu não consigo esquecer-me que a faço. (vejo-a como algo que não é natural, apesar de tentar seguir em frente como se fosse). Mas, às vezes, tenho a sorte de me perder. Uns dois ou três minutos. Dois ou três minutos em que sou qualquer coisa que não, apenas, um depósito de droga(s). Esses dois ou três minutos são o melhor do meu dia.

O resto do tempo é passado a fazer opções. Tirar daqui... para pôr ali. Tirar dali... para pôr acolá. Ao fim de algum tempo torna-se mecânico. (ainda que frustrante). Não tenho a certeza do que vou dizer, (confirmem-mo se quiserem), mas penso que todas as pessoas que se debatem com o cancro - ou com outro tipo de doenças graves - acabam por desenvolver esquemas de relativização nos quais se apoiam. E isso talvez seja a única vantagem do diagnóstico em relação aos demais. A consciência.
(não a desperdice)

Tenho muito respeito por todas as dores. (há coisas, neste mundo, que levam uma pessoa ao inferno). Assim como vocês hão-de tê-lo pelas minhas maçãs com casca. Mas, meus amigos... felicidade é ter saúde. E má memória. O resto resolve-se sozinho. 

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