Estás Mais Gorda

quinta-feira, junho 08, 2017

Pessoas queridas estas, hein?! Não te vêem há 50 mil anos. Não têm uma relação próxima contigo. Não sabem aquilo pelo que tu passaste. Ainda passas. E atiram, na esperança de incestar, o óbvio. A informação que tu própria andas a processar. Já há algum tempo. Se eu fosse uma gaja, com o mau feitio que digo ter, respondia-lhes à letra: mas você por acaso acha que eu ainda não dei por isso? As pessoas - algumas - fazem tanta questão de evidenciá-lo que até parece que é uma coisa que passa despercebida. Descansem, porque não é. Quem engorda, sabe que está mais gorda/o. 
Tão certo como dois e dois serem quatro.

Mesmo que eu me esforce, muito, não consigo entender porque o fazem. Leviana ou propositadamente. (falta de espírito, talvez, como se diz aqui na terra). As "minhas" clientes nunca engordaram. Os soutiens podiam encolher, os chineses podiam enganar-se a copiar os moldes, a elasticidade dos tecidos podia variar. Elas engordar, nunca. (mesmo que isso fosse verdade). O meu papel enquanto consultora é ajudar. Reforçar aquilo com o qual alguém se pode sentir desconfortável não me parece boa política. Muito menos boa educação. Em caso de dúvida, mantenham-se calados. É a melhor opção. As "minhas" clientes eram forçadas a despir-se em frente de um espelho. (querem melhor consultora do que um espelho? é difícil.)

Evitar pôr o dedo na ferida não é mentir. Ninguém precisa dizer o contrário - estás mais magra - quando isso não é verdade. Mas... engordar é visto como algo depreciativo. Tem uma conotação negativa. Sempre teve. E sente-se isso nos dedos acusatórios que aparecem, por surpresa, à nossa frente. Mesmo que a gente dissimule, as evidências ressalvadas por um quase estranho, incomodam. Já repararam nos headlines das revistas cor de rosa. (nem é preciso abri-las). "Irina Shayk recupera forma física depois da gravidez". É para rir, certo? Clickbait. Praticado desde sempre. Contra nós. Mulheres. Para mim, a Irina sempre esteve em forma, antes, durante e depois do parto... Mas, a imprensa não seria imprensa se não nos fizesse sofrer. (a Irina não me parece pessoa de engordar com uma folha de alface). Outros metabolismos há que não conseguem dar cabo da genética familiar tão facilmente. No mundo ideal que se aproveita das fragilidades femininas, os padrões são sempre os mesmos. 
Não me admira nada que tenham caído em cima da Rihanna recentemente. 

Isto é a opinião sincera de quem aprecia o encanto das pequenas imperfeições. Não é uma desculpa. Nem uma forma de fugir ao castigo. As mulheres usam quase sempre as mesmas justificações. Ouço-as frequentemente. Proferi-as como seria expectável. E natural. A depressão. A tiróide. Os corticóides. (esta última é a minha). No fundo são tudo coisas que de uma forma directa, ou indirecta, atrapalham a boa forma física e minam a motivação. Ainda assim, aquilo que atrapalha mais é não se fazer nada. Não sentar o cu num ginásio. Ou não arrastá-lo para fora de casa.

Quando fui internada, o nutricionista do hospital pediu-me para não emagrecer. Bom. Também não me pediu para engordar. Mas engordei. Comecei a ver quase toda a gente a perder peso, drasticamente, e assustei-me com a ideia do meu corpo não aguentar a agressividade dos tratamentos. Engordei durante o tratamento intensivo. E engordei mais ainda depois dele. Foram mais ou menos 2 anos encostada às boxes. Mesmo que me digam que o corpo recupera porque tem memória muscular, a memória traumática entra em jogo, e como entra!, cada vez que eu tenho de me pôr à prova. Ganhar confiança é um processo. E se eu ficar tonta? E se me faltar o ar? E se não conseguir respirar? E se me doer o peito? E se desmaiar? E se... Ainda revivo, com frequência, as memórias mais difíceis de relativizar. A verdade, sem depender do grau de permeabilidade com o qual olhamos para a vida, é uma só: o exercício físico aumenta, de forma significativamente, a taxa de sucesso dos tratamentos oncológicos. E em relação a isso, não posso - não podemos - ficar indiferente(s).

O exercício físico é, provavelmente, naquilo em que menos pensam os doentes oncológicos. Temos mais vontade de estar deitados do que estar em movimento. Recuperar hábitos normais, anteriores à doença, é complicado. Obriga a mudar todo o mindset da ocasião. Obriga a fazer das tripas coração. A small step for man, a giant leap for mankind. Qualquer coisa do género. Menos épico, com certeza, mas não menos importante. Quanto ao resto é tudo uma questão de equilíbrio. Há pessoas que se esforçam muito para parecer qualquer coisa que não são.  Que não faz parte delas. Emagrecem. E ficam descaracterizadas. Perdem aquilo que as definia. E até lhes dava graça. Um je ne sais quoi, que em parte, vinha dos kgs a mais. Conheço vários casos. Muitos. Não estou a defender que as pessoas não devem fazer dietas. E cuidar de si. Estou a dizer que os padrões são padrões. E nem todos nos servem.

Recordando o tempo em que trabalhava na loja de lingerie, lembro-me das críticas de algumas clientes. Umas é porque a barriga proeminente devia ser gravidez. Ou tinha sido gravidez. Outras é porque a mama estava descaída. Outras é porque o dedo mindinho do pé esquerdo não encostava ao do lado. Nenhuma delas parecia aceitar, com normalidade, as minhas respostas simples: a barriga é mesmo da pizza, não se preocupe. As pessoas têm dificuldade em admitir, à partida, coisas que não fazem parte de estereótipos. E a figura da consultora de imagem ainda é muito associada à mulher imaculada. Sem nódoas no casaco. Sem um fio de cabelo desalinhando. Sem um bocado de máscara a escorrer pela cara. Toda a gente é de carne e osso, não se esqueçam disso. E ninguém deve ser descredibilizado por um fio de cabelo desalinhado. Há coisas bem piores. Isto ainda me acontece actualmente. Mas de outra forma. As pessoas quando me vêem com o personagem montado, dizem-me: ah, não estás com cara de doente. Nem comento. Há discussões nas quais não vale a pena entrar. De todo. 

Lembro-me de ter andado numa nutricionista, e a dada altura, o meu metabolismo crashou. Parou uns tempos. Não conseguia sair dos números que a balança insistia em mostrar. Para romper com o ciclo, a nutricionista sugeriu que eu passasse um ou dois dias a rodelas de ananás. Sim. Ananás. Não fiquei muito contente com a ideia. E ainda que tivesse tentando, o plano não foi para a frente. Às primeiras rodelas já tinha a boca de tal maneira, tão cheia de aftas, que não foi possível continuar. E é este tipo de "sacríficios" que não fazem sentido para mim. Acho que os nutricionistas, em determinadas questões, falham muito. Principalmente na componente emocional e psicológica do paciente. Não se preocupam em avaliar o tipo de relação que as pessoas mantêm com a comida. Nem em que condições emocionais se encontram naquele momento. Passam-lhes dietas líquidas irredutíveis. Rodelas de ananás (que de uma forma ou outra, mais ou menos convencional, vão acabar por levar a pessoas a deixar de comer). E papas. Muitas papas. (blhac!). Ninguém aguenta. Eu não aguento.

Acho que todos os profissionais que estão intimamente ligados a estas questões do físico são demasiado severos. Partem do principio que todos lá vamos pelos mesmos motivos: emagrecer. Atingir qualquer coisa próxima da Irina. (mesmo que isso não seja o melhor nem o mais adequado para cada um de nós). Fala-se cada vez mais em reeducação alimentar, mudança de hábitos, estilos de vida saudáveis, mas não se trabalha a longo prazo. Vejo algumas pessoas a menosprezar estes princípios em troca de resultados relâmpago. Uma pessoa que gosta de comer, não se contenta com rodelas de ananás às refeições. É ridículo. Quase subversivo.

Sim. Estou mais gorda, minha senhora. (são sempre as senhoras as cruéis delatoras). E tem sido difícil - mega difícil - desfazer-me dos quilos que engordei. E isso, tanto quanto emagrecer, faz parte da vida. Acostume(m)-se.

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