Je Suis Normal

sexta-feira, junho 02, 2017

Viagens de trabalho. Fiz uma. Uma vez. Só conheci o grupo de pessoas que também iam no voo, com o mesmo propósito, na porta de embarque. Uma delas apressou-se em apresentar-se ao grupo: olá, eu sou a tal e sou esquizofrenica. Bolas. Fez-se silêncio. (ninguém sabia como reagir perante este tipo de protocolo). Para quebrar o gelo apeteceu-me responder-lhe: olá, eu sou a Cátia e fingo que sou normal. Não o fiz. Mas devia ter feito.

Fiz a viagem em pânico. Não vos vou mentir. Primeiro, porque não gosto de andar de avião. Segundo, porque não me saía da cabeça a ideia de que ela fazia parte de uma seita e, embora disfarçada, estava ali para sequestrar o avião e mandar a gente todos contra qualquer coisa. Mas estou medicada. Confidenciou-me depois de ter largado a bomba. (se lhe passasse pela cabeça tudo aquilo que eu pensei a respeito dela, depois de a ter conhecido, eu queria ver quem é que chamava maluco a quem).

Tenho uma relação estranha com as primeiras impressões. Embarco nelas, como toda a gente embarca. É natural. Mas desconfio, muito, que sejam 100% fiéis. Correu bem. A viagem e o resto dos dias que passámos juntas. Acabámos, até, por nos tornarmos amigas. Hoje já não temos contacto uma com a outra. Quando me senti à vontade, ao fim de algum tempo, sugeri-lhe  que, se calhar, era melhor ela deixar de se apresentar da forma como se apresentava. A doença (mental) existia. Certo. Mas era um pormenor. Não era o seu cartão de visita. Nem lhe fazia jus.

É contra isso que também tenho lutado. Contra os rótulos que colocamos em cima de nós a partir das fragilidades que experimentamos (e acoplamos). Desde que fiquei doente tenho tido imensa dificuldade em comprometer-me. Deixei de ter agenda. De fazer planos. De combinar coisas. Não lido bem com compromissos. Nem com datas longínquas. E assinaturas. E isso é um bocadinho esquizofrenico para todos os que estão à minha volta. 

Há uma amiga minha, com quem fui ao Brasil, que de tempos a tempos me escreve: ainda havemos de lá voltar. E eu penso: vai sem mim. Não é que não me imagine a fazer coisas. Deste tipo. Imagino-me. Todos os dias. O difícil é fazê-las. Mais por medo que por impotência. Outro dia encomendaram-me um trabalho. Copywrite. Fiquei contente. Claro que fiquei. Inicialmente foi uma delícia. Dar vida a projectos através das palavras é das tarefas que mais me realizam. A meio, quando parei para pensar e me dei conta da continuidade que ia ser necessária, comecei com tiques nervosos. Tive mesmo de partilhar com o meu "patrão" momentâneo o meu desconforto: olhe que eu posso morrer. Podemos todos minha querida. Responde(u)-me. Sempre que eu preciso sentir-me um bocadinho mais normal.

A Cátia actual tem mais de doente (oncológica) do que de pessoa. E embora eu escreva muito sobre os benefícios de nos esquecermos, propositadamente, dessa condição, a verdade é que é (muito) complicado pô-lo em prática. Creio que o tempo, (enquanto houver tempo), será o melhor conselheiro. 

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