Judite sob Fogo

segunda-feira, junho 19, 2017


Sou jornalista. (o diploma diz que sim). Mas não tenho carteira profissional. Nunca fiz questão. E nunca se concretizou. Embora goste muito do que faço - ou escolhi fazer - nem sempre penso como um jornalista deveria pensar. Nem sempre me sinto capaz. Para exercer. (e reconheço isso). Gostava de vos dizer que a relação que mantenho com a profissão que escolhi é de amor, mas não é verdade. Amor. Sim. E às vezes ódio. Também. E não consigo explicar-vos exactamente porquê. 

O jornalismo para mim é algo mais complexo do que um título. É uma responsabilidade social. E por isso, tão difícil. (acho que muita gente não parte para a profissão com a motivação certa). Tenho sim, um diploma, caro, que atesta que estou apta a trabalhar na área. Mas... por muito que se estude, o jornalismo não se aprende nas universidades. E por muito que me custe admiti-lo, nem nas redacções. 


Editar não é uma tarefa fácil. (quem é do meio sabe que é a parte mais difícil). Vocês não imaginam as coisas - e as dúvidas - que nos passam pela cabeça. E as vezes que mudamos tudo. Do inicio... ao fim. Há dias em que somos manifestamente infelizes na forma que escolhemos para contar os factos. Mas, editar não é um trabalho individual. 

As reportagens são construídas por vários profissionais. O jornalista, o repórter e o editor de imagem. São 3 pessoas diferentes. Três cabeças. E três corações. Que podem ou não ter estado no local. Portanto, a responsabilidade das escolhas que se fazem não recair sob uma pessoa apenas. (mas quem dá a cara que se aguente). Para o bem. E para o mal.


As audiências, o apetite - voraz e descontrolado - do público e o agonizante meio em que os profissionais de comunicação se movem, distorcem, muitas vezes, aquilo que se conta. Não se faz jornalismo hoje em dia. (ou faz-se muito pouco). Contam-se coisas. E toda a gente acha que as pode contar. Às vezes, melhor do que os profissionais que estão encarregados de o fazer. (existem demasiados egos para um país tão pequeno). 

Particularmente, não aprecio o trabalho da Judite de Sousa, mas também não acho grave a reportagem que ela fez, no concelho de Pedrógão Grande, junto a um cadáver. Não considero desprestigiante para a classe, (qual classe?), relatar o óbvio. A realidade. Que pode incomodar a muitos. Chocante? Claro. Imenso. Fiquei com um nó na barriga e as lágrimas nos olhos. A isso chama-se compaixão. E empatia. E se a Judite não se tivesse posto ao lado de um corpo dificilmente nós teríamos sentido isso. E percebido a (real) dimensão da catástrofe.


Não me parece que a intenção dela fosse outra, senão a de ser honesta em relação ao que encontrou pela frente. E nós, mesmo que chocados, deveríamos estar agradecidos. Mais do que agradecidos. Sentidos. (se o jornalismo, de vez em quando, não ferir susceptibilidades, então não é jornalismo). Mas não. Ofender a profissional, e a pessoa, é mais fácil - e mais cobarde - do que chorar pelos outros.


Crescem a olhos vistos, as virgens ofendidas de Portugal. E isso assusta-me muito. Pessoas que não usam a vossa voz que têm para questionar coisas realmente importantes... Porque é que morreram tantas pessoas? Porque é que não se fecharam as estradas? Porque é que todos os anos ardem milhares de hectares no nosso país? Porquê? A sério que a Judite, e a reportagem, é o mais importante agora? A sério que utilizar um acontecimento trágico, da vida da pessoa, é a melhor forma de manifestar que não gostaram do trabalho? A sério que se fosse o teu filho, aí, não ias gostar faz algum sentido? Quem é a (maior) besta no meio disto tudo? A Judite, que em trabalho, encontrou cadáveres abandonados, ou quem usou factos que não deveria ter usado, para a criticar?


Não me admira nada que muitos profissionais tenham abandonado o jornalismo nos últimos anos. Não são só as condições precárias e a falta de salários. É a crítica sem sentido. Vinda também de colegas. E a falta de compaixão. De todos. (fotos do ©Paulo Pimenta).

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