Pente Zero

segunda-feira, junho 12, 2017

Quando o cabelo me caiu, os meus amigos consolaram-me. Consolar é uma coisa boa quando não se pode fazer mais nada. Cada um à sua maneira. Não nos damos a todos - e com todos - em fatias iguais. Fizeram apostas. Muitas. Umas mais simpáticas. Outras mais sérias. Outras, ainda, que serviam o pretexto. Mas não a cara. 

As pessoas continuam a consolar-me. E às vezes eu acho isso estranho. Dizem que não me preocupe. Que vai crescer. Voltar ao normal. Mas não perguntam se eu quero que cresça. Ou se me sinto bem assim. Posso não querer. E daí? Sinto que todos esperam, sem razão, que voltemos ao que éramos. Aparentemente. Em tempo recorde. E sem vestígios de esforço. Como se isso fosse possível.

A careca nunca me incomodou. (vocês sabem disso). Ver-me livre dela não foi uma prioridade. (não podia ser). Não fiz disso uma urgência. Nos momentos de maior sofrimento, não devemos - nem podemos - imputar-nos mais dores. Já bastam aquelas, que por não haver opção, temos de suportar. Ninguém consegue ser inteligente debaixo de fogo. Consegui-lo, ou chegar perto de, pode ser um tremendo golpe de sorte. 

Quando penso em cabelo, penso também na forma como nos agarramos a pontas secas. No modo, dedicado, como cuidamos das coisas que nos podem ameaçar. Raspar o cabelo não é um desporto radical. Mas é libertador. Depois de se ter perdido muito, a única coisa que não se quer perder mais é tempo com aquilo que não se deve. Simples. (pelo menos em teoria).

Sinalizar alguém, ou algumas coisas, para saírem do nosso caminho é doloroso. Ninguém o faz sem pensar duas ou três vezes no assunto. Mas quase toda a gente o faz porque essas duas ou três vezes não alteram, em nada, o que já se intuía. Quem for rastreado para desaparecer não vai entendê-lo. As pessoas levam tudo a peito. (mesmo aquilo que não é para ser levado). E fazem-no nas alturas mais inconvenientes. No surprises. Não se admire, se o fizerem, diante de si, enquanto está deitado numa cama de hospital, a lutar pela vida. 

Se tiver que perder o cabelo, perca. Só nasce de volta aquilo que tiver que nascer. 
E para nascer direito, você vai ter de apará-lo muitas vezes.

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