Tudo Aquilo que Nós, Deste Lado, Podemos Dizer

quarta-feira, junho 07, 2017

Acho que quem é voluntário é especial. Tenho quase a certeza. Entregar-se. Dar-se. Não é para todos. (receber tão-pouco). Na doença, cruzei-me com muitos. Ainda me cruzo. Antes disso, também. Fiz reportagens sobre o tema, mas admito, nunca estive tão perto de entendê-lo como estou, agora. (mais vale tarde do que nunca, não é verdade?).

No hospital onde faço tratamento, actualmente, há um grupo de mulheres que distribuem lanches. Vestem amarelo e são da Liga dos Amigos do Hospital. (corrijam-me se estiver enganada). Trazem - entre outras coisas - um cesto com água, chá, sumo e bolachas. Há umas que desempenham o papel melhor que outras. Tal como nós, doentes. 

Ontem foi dia de tratamento intravenoso. (um ciclo de 28 em 28 dias se reunidas as condições e os valores para). Se não há condições fica-se triste porque não as há. Se as há fica-se triste na mesma. Talvez menos. Depois do tratamento, segue-se a ressaca. Umas vezes mais hardcore do que outras. Nunca lá tinha visto a voluntária que me apareceu à frente, hoje. Na despedida, disse-me força. Agradeci-lhe, rejeitando as bolachas. E ela continuou: é tudo aquilo que nós, deste lado, podemos dizer. E parou. Para continuar. Vocês, aí, desse lado, é que sabem. Não se estava a desculpar. Estava a reconhecer, com doçura, a impotência que nos aproximava.

Foi a primeira vez. A primeira vez que alguém disse tanto... em tão pouco. Não reclamo para mim um lugar especial. Longe disso. Mas, especial, foi o que foi. Como se o cateter a trespassar a veia fizesse (mais) sentido. E como se o álcool em cima da ferida não ardesse. Muito.

Esperar dos outros. Esperamos sempre. Sempre. Mesmo quando não nos compreendem. Não nos toleram. Nem nos amam. Esperamos, sempre, que validem. Que nos validem. Que dêem (mais) sentido àquilo que nos custa. Ao que nos damos - e dedicamos - tanto. E à nossa existência. Às vezes permanecemos demasiado tempo em determinados sítios porque não temos saída(s). Outras, porque achamos que só faz sentido sair deles quando nos disserem que nos portámos bem. Demos o nosso melhor. E fizemos tudo o que podíamos ter feito. 

Ainda bem que há gente a dizer disto por aí. Mesmo que não seja a gente que a gente espera.
Soube bem. Dolorosamente bem.

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