Um dia de cada vez

sexta-feira, junho 16, 2017

A quimioterapia é uma droga. Ou melhor, são várias drogas combinadas entre si. Os ciclos - ou intervalos de dias - em que são administradas variam consoante o protocolo. E a forma como se comporta cada organismo. Eu, por exemplo, faço quimio oral diária, quimio subcutânea intra-muscular semanal e quimio intravenosa de 28 em 28 dias. Normalmente, a quimioterapia intravenosa é a mais severa. Os efeitos secundários que produz são prolongados e difíceis de suportar. 
(embora, hoje, a medicina já permita contorná-los com mais conforto).

Isto explica o facto do paciente oncológico não estar sempre em tratamento, embora passe a maioria do tempo entre tratamentos. (o que não é nada fácil). Física e psicologicamente. É uma espécie de 100 metros/barreiras. Mas com mais obstáculos. Quando não estão reunidas as condições para que a quimio seja (novamente) administrada, o protocolo é suspenso. É bastante normal que o corpo - devido a uma série de factores - leve mais tempo a reagir entre ciclos. O ideal é que o tempo de recuperação seja curto, ou demore o expectável, segundo os números. Nem sempre é possível. 
Não entre em pânico, se de repente, o seu corpo se resignar. 

A quimioterapia é aplicada porque é o tratamento com mais resultados comprovados na eliminação de células de rápido crescimento. O objectivo é parar a invasão. Principalmente nas situações agudas. Isso coloca-o a si sob pressão. Tente não ceder. E não se revolte por o seu corpo não estar a colaborar. (estão a agredi-lo! é normal que ele se queixe). Mesmo que existam previsões, ignore-as. Elas não vão ajudá-lo. Em nada. 

Um dia de cada vez. Foi a frase que repeti mais vezes. Para os outros. E para mim própria. Ainda repito. (sempre que me sinto tentada a esquecê-la). É uma ousadia muito grande vivermos como se isto nunca fosse terminar. O seu corpo responderá quando tiver que responder. Quanto mais o pressionar, mais tempo ele levará.

O problema dos prazos - e dos atrasos - passa por aqui, também: a quimio (ainda) não é um método selectivo. (sublinho "ainda" porque tenho esperança de que um dia venha a ser). A sua administração acaba também por afectar as células saudáveis. E quando se agride o que (também) é saudável, a recuperação é efectivamente mais lenta. No inicio do meu tratamento intensivo - o período mais delicado - a médica que nos acolheu no hospital falou-nos em 8 meses de tratamento. Se tudo corresse bem. A médica que me seguia, nas consultas, disse que o fazíamos em 6. Ao todo, foram 10. 
Com muitos compassos de espera pelo meio. Imprevistos. E sorte.

Actualmente, o protocolo que sigo não se baseia em previsões. É um ponto de interrogação. Simples. E bastante "ansiótico". Mas... por mais respostas que a gente queira, nalguns casos, o melhor é conformar-nos com não havê-las. Aceitar. E (tentar) viver assim. Mesmo que seja estranho para os outros. Aqueles que aparentemente vivem sem se debaterem com pontos de interrogação pelo caminho. Vão perguntar-lhe várias vezes quando é que acaba e, prepare-se, porque não vão disfarçar o incómodo que a falta de resposta pode causar. 

Apesar de se sentir pressionado para responder, não o faça. Não tem que o fazer. 
Não tem como fazê-lo. Um dia de cada vez. 

Deixe um comentário

4 comments

  1. Recebi o alerta para uma nova publicação. Li o que escreveu e devo dizer que deve ter entrado na minha cabeça. Faço quimioterapia de 4 em 4 semanas . Ontem era dia de quimio. Tirei sangue e aguardei que chamassem o nome. Depois de algum tempo ( aquele tempo de espera que desespera), chamaram-me. Pela primeira vez em 49 sessões de quimio, não pude fazer o tratamento. Valores do fígado alterados e eu comecei a stressar até porque não sabia como agir perante o tratamento suspenso. O protocolo que faço também se baseia em previsões. No início, quando me faziam essa pergunta eu ficava bastante irritada. Hoje em dia, respondo ( se não responder passo por antipática mas é preciso um balde de paciência para aguentar todas as perguntas que fazem) " quando o meu corpo quiser" ou " olhe, pergunte ao meu médico" ( esta é mais para dias em que sem paciência para o mundo).

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Acontece-me com muita frequência MJ. O meu fígado, de vez em quando, precisa de umas semanas para recuperar. No inicio, quando isso começou a acontecer, sentia-me muito insegura. Agora já me habituei mais um bocadinho... Não me agrada nada fazer quimioterapia, mas quando não tenho valores para a fazer fico decepcionada. Não sei explicar bem porquê. O que eu sei é que estes "descansos" são necessários. E acima de tudo normais. Temos de ouvir o corpo. E aprender a respeitá-lo também. Um beijinho grande :) E votos daquilo que mais precisamos: força, foco e fé.

      Eliminar
  2. UM DIA DE CADA VEZ...Foi a frase que ouvi mais vezes durante o tratamento da minha mãe e embora tenha "terminado" o protocolo estabelecido e tenha corrido tudo bem...o futuro é sempre incerto e esta continuará a ser a máxima de todos os doentes oncológicos!!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É uma máxima razoável. E, por vezes, a única que é possível ter. Devia ser a máxima de toda a gente, inclusive de quem não faz tratamento oncológico. Perdemos tanta coisa enquanto fazemos planos que o melhor, mesmo, é não contar com eles. Um beijinho para si, Sofia, e para a sua mãe! Toda a sorte do mundo! O período pós-tratamento não é nada fácil, física e psicologicamente. Envio-vos as melhores energias :)

      Eliminar