Vai Passar

quinta-feira, junho 01, 2017

Então, é simples. Nem toda a gente (te) vai ajudar. 
E não vale a pena perder muito tempo com isso. O tempo é um luxo, subvalorizado, por quem acha que o tem de sobra e por quem acha que não tem que chegue. "Vai passar". Resume a forma como muitos se vão disponibilizar para ajudar. 

Há quem não saiba ajudar. Algumas pessoas, umas poucas, assumiram-me isso quando adoeci. Não sabiam como - o como é sempre a parte mais difícil - e por isso deixaram-me liderar o processo. Essa abordagem, cautelosa e humilde, parece-me uma forma feliz de não nos sobrepormos a quem não está confortável na sua pele. As coisas levam tempo. As mais difíceis levam muito tempo.

Há quem tenha partido para cima de mim convencido de que estava a ajudar. (ou que sabia ajudar). Cercar quem não está confortável na sua pele não é uma boa estratégia. Nem uma boa ajuda. Prefiro muito mais aqueles que assumem que não sabem ajudar aos que ajudam sem saber o que estão a fazer. Ou certos de que aquilo que estão a fazer é o melhor.

E há aqueles que se mantêm por perto, mas não fazem grande diferença. 
Todos eles - os que não sabem ajudar, os convencidos que acham que sabem ajudar e os que não fazem grande diferença - podem ser inconvenientes. E a inconveniência, às vezes, é uma coisa que magoa. Muito.

Recordo-me das visitas dos meus amigos enquanto estive internada. (foram restritas a um número reduzido de pessoas a quem nunca barrei a entrada). Nesses momentos falávamos muito deles. Da(s) vida(s) deles. Preferia assim. E eles adaptavam-se. Facilmente. É isso que também tento fazer. Deixo-os conduzir quando a direcção muda. Quando são eles que estão debaixo de fogo cruzado. Não era desta forma que eu funcionava antes. Hoje, tento ouvir mais. E falar menos. E devo isso ao cancro. 

Mas não é só na(s) doença(s) que a disponibilidade dos outros é posta em causa. 
A disponibilidade dos outros treme sempre no momento em que alguém a reclama. Oficiosamente. Ou não. A dos outros e a nossa. Sim. A nossa. Há, também, quem ajude a pensar na troca. E cobre por isso. Sem olhar a prazos. 

Os tratamentos oncológicos são um carrossel. Não só de imprevistos e reveses, mas também de emoções. Altos e baixos. Baixos e altos. Não são, de todo, o timing ideal para nos exigirem respostas. Não as temos. Nem para tentarem mudar a nossa atitude. Poucos têm a paciência que é precisa. 

Nem toda a gente (te) vai ajudar. E nem toda a gente (te) vai compreender.
E não vale a pena perder muito tempo com isso. Mais uma vez. É legitimo que se escolham uns em detrimento de outros. Tal como dantes. Antes do cancro. Quem fica, não fica por um "vai passar"
Um "vai passar" é bom, (muito bom mesmo), mas nem sempre é suficiente. 

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